Depois de Derrida – Retrato de uma obra viva

Por Evando Nascimento
FOLHA DE SÃO PAULO

Homenagens internacionais lembraram a morte, há dez anos, de Jacques Derrida. Brasil teve papel importante na difusão da obra do filósofo da desconstrução, termo por vezes mal compreendido, que alimentou teorias, como os estudos pós-coloniais, em que é central a noção de alteridade proposta pelo francês.

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Todo filósofo ou escritor tem outro pensador com quem dialoga permanentemente. O meu é Jacques Derrida, cuja morte, ocorrida há dez anos, foi lembrada ao longo deste 2014 em homenagens mundo afora.

O pensador franco-argelino de origem judaica, nascido em 1930 em El-Biar, foi tema de publicações, palestras, colóquios e mesmo um documentário, realizado a partir da biografia escrita por Benoît Peeters, “Derrida” [trad. André Telles, Civilização Brasileira, 742 págs., R$ 80], pela cineasta Virginie Linhart -“Jacques Derrida: le Courage de la Pensée” (a coragem do pensamento). Na qualidade de ex-aluno e de organizador do último evento de que ele participou, dei um pequeno testemunho para o filme, produzido pelo canal franco-alemão Arte.

No caso de Derrida, o primeiro diálogo que se instaura, logo no início de sua trajetória, é com Husserl -de quem ele se tornaria um dos maiores especialistas franceses, tendo escrito um trabalho de peso ainda em sua época de estudante. Esse texto seria publicado como livro pela PUF, em 1990 (“Le Problème de la Genèse dans la Philosophie de Husserl”, o problema da gênese na filosofia de Husserl).

Nietzsche e Heidegger são as duas referências maiores, que o acompanham até o final. Em nenhum desses casos há mera repetição, por Derrida, daquilo que o outro pensador disse, mas uma leitura desconstrutora, sinalizando os avanços (e também os aspectos dogmáticos) de cada um deles.

Num texto pouco conhecido, em que faz um balanço dos filósofos que o marcaram, “Nous autres Grecs”(literalmente, “nós outros gregos”), descarta ser um devedor absoluto de qualquer um deles. O único pensador do qual ele se reconheceria de fato tributário seria Heráclito, em particular em relação ao “hén diaphéron heautoû”, “o uno diferente de si mesmo”.

Constata-se, nesse fragmento heraclitiano, o princípio da “différance” com “a”, noção derridiana, que, como a escritura, foi muito difundida nos anos 1960 e 70. O termo francês que significa “diferença” se escreve com “e”, “différence”; mas, por várias razões de ordem filosófica, Derrida “rasura” a ortografia: ao substituir o “e” por “a”, desloca o sentido da palavra, expondo assim a forma, sobretudo ocidental, de pensar as diferenças, sempre por oposição: o masculino x o feminino, o branco x o negro, o conteúdo x a forma etc.

Todo o pensamento de Derrida tenta analisar, de modo empírico e transcendental, um tempo-espaço da diferença de forma não binária.

Essa “différance” se refletiria no que ele nomeou, em diálogo com o matemático Gödel, como “indecidibilidade”. Em certos contextos, alguns termos se distinguem pela impossibilidade de decidir por um dos polos da oposição clássica.

DROGA

O exemplo mais famoso dessa ‘indecidibilidade” é o do “phármakon”. Numa leitura cerrada do “Fedro” e de outros diálogos de Platão, Derrida mostra como esse vocábulo, em diversas passagens, é dotado da ambiguidade do veneno e do remédio, tal como para nós, hoje, o termo “droga”. A diferença é que “droga” detém uma conotação moral que o “phármakon” não possui de antemão.

Num ensaio muitíssimo conhecido, “A Farmácia de Platão” (trad. Rogério da Costa, Iluminuras, esgotado), Derrida expõe como o “phármakon” é associado sistematicamente à escrita, muitas vezes como uma potência perturbadora do “lógos”, o discurso racional que, entre os séculos 5 e 4 a.C., estava em plena elaboração.

A partir do final dos anos 1980, mas sobretudo nos 90, até 2003, quando adoece e suspende seus seminários na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, ele enfatiza cada vez mais os aspectos ético-políticos de sua obra.

Alguns leitores passaram a chamar esse momento de “political turn” (virada política), expressão equivocada, uma vez que textos anteriores, como “Margens – Da Filosofia” (trad. Joaquim Torres Costa e Antonio M. Magalhães, Papirus, esgotado), já continham diversos elementos de reflexão política, por meio da noção de descentramento -ou de abalo dos centros absolutos: Deus, verbo, essência, poder, verdade-, sem, no entanto, cair no relativismo.

Com efeito, os seminários dos anos 1990 em diante foram designados por ele próprio sob a rubrica “questões de responsabilidade” -e envolviam temas como o segredo, o perdão, a dádiva, a hospitalidade incondicional, os animais e a pena de morte. Trata-se de uma enorme contribuição para a história do pensamento, que questiona problemas da atualidade, como a pena capital, a política imigratória na Europa e os desdobramentos do 11 de Setembro.

Alguns dos livros publicados nesse período final estão disponíveis no país. Em 2004, por exemplo, traduzi “Papel-Máquina” [Estação Liberdade, 360 págs., R$59], com textos sobre a cultura digital e o livro, além de ensaios sobre a globalização. Dois outros volumes sobre questões políticas já foram muito bem traduzidos: “Força de Lei” (Martins Fontes), por Leyla Perrone-Moisés, e “Espectros de Marx” (Relume Dumará) -esgotados, mereceriam nova edição, como outros aqui citados, também fora de catálogo.

DESCONSTRUÇÃO

Jacques Derrida ficará conhecido decerto como o pensador da “desconstrução”. O termo foi banalizado, ganhando em setores da mídia o sentido de “demolição”. Isso nada tem a ver com as propostas derridianas, pois não se trata de destruir uma ordem para impor outra, mas de apontar o que, na ordem estabelecida, não funciona mais, abrindo o horizonte da reflexão.

Derrida raramente definiu a “desconstrução”, salvo em situações pontuais, relacionadas a determinados contextos. Como fez, de forma muito precisa, antes de vir ao Brasil em 2004, para um colóquio por mim organizado, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora e com o consulado francês no Rio.

Ao telefone, ele me disse: “A desconstrução é um modo de pensar a filosofia, ou seja, a história da filosofia no sentido ocidental estrito, e, consequentemente, de analisar sua genealogia, seus conceitos, seus pressupostos, sua axiomática, além de naturalmente fazê-lo não apenas de maneira teórica mas também levando em conta as instituições, as práticas sociais e políticas, a cultura política do Ocidente” -a entrevista completa foi publicada na Folha, pelo antigo caderno “Mais!”, em 15 de agosto daquele ano.

Ao contrário do que supõe um equívoco corrente, as desconstruções não vieram destruir a cultura ocidental, mas repensá-la a partir de seus outros, daquilo que ela tentou excluir como o exótico, o diferente, o que está à margem. Derrida sempre declarou seu amor pela tradição filosófica, embora todo o esforço fosse para pensar além dela. Seu questionamento fundamental serviria a diversas lutas sociais, como o feminismo, o antirracismo, o movimento gay e os estudos pós-coloniais.

Foi nesse sentido que -desde a época de adolescente na Argélia colonizada pela França- seu desejo intelectual dividiu-se entre literatura e filosofia. Ele explica isso na longa entrevista “Essa Estranha Instituição Chamada Literatura” [trad. Marileide Esqueda, ed. UFMG, 118 págs., R$ 35], em que expõe as relações entre discurso filosófico e literário ao longo de seu percurso.

Por ser uma instituição vinculada ao surgimento das democracias modernas, a literatura possibilitaria o direito de “dizer tudo”, embora muitas vezes possa ser censurada. Quando fui seu aluno, na França, esse tópico foi motivador, em minha tese, da categoria que denominei “literatura pensante”, relacionada à alteridade radical.

Não há em Derrida oposição entre literatura e filosofia, mas um desejo de que uma insemine a outra, ampliando o leque das reflexões. Em sua última entrevista ao jornal “Le Monde”, ele faz uma aposta no sentido de que seus herdeiros efetivos seriam poetas-pensadores, aqueles que soubessem reinventar seu legado, escrevendo um novíssimo texto.

PIONEIRO

O Brasil foi pioneiro na tradução de Derrida -antes mesmo da edição de qualquer livro seu nos Estados Unidos, país para onde começou a viajar nos anos 1960, a fim de dar palestras e seminários, e que é em geral considerado o berço da difusão de seu pensamento fora da França.

“A Escritura e a Diferença”, livro de 1967, saiu aqui em 1971, pela Perspectiva. Na recente edição revista e ampliada da obra, sanaram-se problemas da anterior: a linguagem está mais apurada, graças à revisão técnica; e foram acrescentados os três ensaios que haviam sido suprimidos na primeira edição, sem nenhuma justificativa ao leitor, restituindo assim a integridade de “A Escritura e a Diferença” [trad. Maria Beatriz Nizza da Silva, Pedro Leite Lopes e Pérola de Carvalho, Perspectiva, 448 págs., R$ 91].

A segunda tradução brasileira de Derrida, pela mesma editora, foi a de um livro que marcou época: “Gramatologia” [Renato Janine Ribeiro e Miriam Chnaiderman, Perspectiva, 400 págs., R$ 60]. Publicado na França em 1967, saiu aqui pela primeira vez em 1973, antes, portanto, da edição norte-americana (de 1976), com tradução de Gayatri Spivak.

Felizmente, segue em catálogo essa tradução, que é boa -sobretudo se considerarmos que, naquele momento, ainda não se tinha muito conhecimento desse vasto universo, que chegaria aos 80 volumes publicados.
O “Glossário de Derrida” (Francisco Alves, 1976, esgotado), escrito sob supervisão de Silviano Santiago, com seus alunos da PUC-Rio, marcou os primeiros comentários à obra do pensador entre nós.

Atualmente, contamos com alguns muito bons leitores de Derrida, especialmente nos departamentos de filosofia e letras, em instituições como a UFRJ, a UnB e a Unicamp, que formam grupos de pesquisa e disseminam a palavra do outro. Não se trata de nenhum movimento desconstrucionista à americana, mas de leituras que visam a enriquecer o pensamento no país, dotando-o de mais instrumentos reflexivos.

Procurei fazer isso num ensaio sobre “Antropofagia e Desconstrução”, publicado no volume organizado por João Cezar de Castro Rocha, “Antropofagia Hoje?” (É Realizações, 2011), em que proponho deslocar a pulsão devoradora oswaldiana por um “comer junto”. Em vez de devorar o outro, como ato de violência real ou simbólica, caberia acolhê-lo incondicionalmente no banquete cultural. Tal como outros pensadores, Derrida tem muito a contribuir para o debate de temas nacionais, num contexto planetário.

Estamos no “depois de Derrida”, momento de reflexão sobre o legado. Não há em geral, portanto, submissão intelectual nas traduções e leituras que se fazem no Brasil e em outros países, pois o que se busca é efetivamente ampliar a compreensão desse decisivo capítulo da história do pensamento, desdobrando-o.

 

EVANDO NASCIMENTO, 54, ensaísta e escritor, é autor de “Derrida e a Literatura” (3ª ed., pela É Realizações, no prelo).

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