A derrota pelo verbo

Por Leandro Sarmatz
BLOG DA COMPANHIA

Talvez eu esteja ficando velho (estou), mas o fato é que tenho percebido cada vez mais uma confusão entre o que somos — ou imaginamos ser — e o que projetamos. Sim, falo das (perdão mil vezes) redes sociais. É fato que antes havia um abismo necessário, construído por nós mesmos ou pelos outros, entre a experiência íntima e o nosso embate com a vida em sociedade. Repare, isso sumiu. Perceba, pode ser parte da explicação do atoleiro (moral, pessoal, social, filosófico) em que vivemos.

Um grande amigo que vive numa cidade civilizadíssima da Europa, esses dias observou (no gtalk): “Sinto o espaço público cada vez mais parecido com uma timeline podre”. Ele se referia sobretudo ao aumento da desigualdade, do consumismo, do discurso de gentrificação e da xenofobia feroz numa das capitais mundiais do estado de bem-estar social. É um mundo — de igualdade e equilíbrio — que está desaparecendo. E as palavras (em caixa-alta, nos espaços de comentários de portais, nas redes sociais) tornam tudo mais agudo, acelerando processos. O começo (e o fim) está no verbo.

Peraí. Antes que você me acuse de vovô Simpson gritando pra nuvem: tudo na vida é fronteira. Algumas são saudáveis, necessárias ou constituem o mapa de acesso da nossa geografia emocional. Borrá-las seria o caos. Outras são paredes que construímos para nós mesmos. Isso sempre houve, não é uma invenção contemporânea. Inclusive já foi pior — basta ler qualquer romance de Dickens ou de Tolstói para perceber o quanto o embate entre o indivíduo e o mundo constituiu grande parte da narrativa (emocional) humana.

Isso já não está mais tão claro. Se você ler um dos volumes do ciclo de Knausgård, o autor que de tanto falar de si acaba prestando o maior depoimento sobre esse nosso tempo tão confuso, vai perceber o quanto o nó da chamada interioridade já se confunde com algo próximo a um concerto de vozes. O romanção não é mais o Eu diante do mundo. Não é mais o discurso rimbaudiano do Eu é um outro, mas uma mixórdia emocional, espécie de ganguebangue moral: Nós somos o Eu.

A melhor ficção vale por mil palavras e teorias de caixa de fósforo. Bernardo Carvalho captura muito desse novo mundo em seu formidável Reprodução. Ali, dito muito melhor do que aqui, está a percepção desse abismo em movimento que estamos abrindo para nós mesmos. E a própria obra do Knausgård traz isso, numa amplitude e com uma ambição que pareciam não mais existir na prosa contemporânea. Porque é disso que se trata, afinal, nos livros, na rua ou no Facebook: o poder imorredouro (e igualmente fatal) da prosa.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Luis Sávio Dantas 5 de junho de 2015 9:12

    Concomitante e como um ad hoc a esse verbo que engana, e nas entrelinhas anuncia a decadência da nossa civilização, está a manipulação da informação. A mídia tornou-se um dos pilares da dominação do homem sobre o homem, e com o seu maior aliado, a espionagem, transforma a informação numa arma mortífera. Agora mesmo no caso das prisões dos corruptos da FIFA, ficamos sabendo que os EUA já sabiam dos roubos há muito tempo, e usaram a informação só agora, por causa dos seus propósitos políticos, retirar da Rússia a sede da copa de 2018, e numa tentativa de angariar apoio politico para a destruição da Síria que ora empreende, colocar um príncipe da Jordânia como presidente da entidade. Como vamos nos livrar da mídia mentirosa e fascista ?

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