Desabafo feminista

Tudo bem que a Casa argentina já é rosada; que Madonna é a chefe clandestina da perigosa Organização Revolucionária Feminina e que as mulheres estão cercando o poder nos Esteites para tomar o poder no mundo. Que o diga a Hillary, a Condoleezza, agora a primeira dama Michelle e a amiga de todas: a Mônica Levinsky – aquela que mamou na onça e deixou o Clinton chupando dedo. Com melhor faro e cisma, a tudo se apercebe. As reuniões ocorrem a cada semana, sob a desculpa de uma ida à manicure ou ao shopping para compras fúteis.

Tudo muito justo. Afinal, são séculos de submissão à intolerância dos brutos que também amam. Não reclamo. Só espero o pipoco da purpurina acontecer. Mas discordo de um chamado Concurso Cultural Dia Internacional da Mulher, que me chega por imeiu. Claro, destinado exclusivamente ao dito sexo frágil. Que seja às escuras a trama feminina de pintar o céu de rosa, ou o serviço de inteligência masculina, no intervalo de 15 minutos do clássico futebolístico pode farejar suspeição. Ora, não é comum a invasão pela democrática blogosfera de um então camuflado encontro internacional de mulheres. Há de ter sido um erro. O primeiro e faltal, talvez.

Aos mais desatentos, ainda estupefatos com a queda do alambrado provocada por Ronaldo, tudo não passa de feminismo. Pois que nos atenhamos à alegação mais plausível e menos utópica, do que imagino estar sendo acusado agora. Tomemos então a velha artimanha dos advogados criminalistas de inverter os fatos: e se fosse concurso de inscrições abertas apenas para os homens? Já imagino as passeatas pela Rio Branco; faixas de protesto contra o estoicismo arcaico sobrevivente e microfones a bradar os direitos da mulher sob a proteção da tia Maria da Penha. Tudo ao som de Girl Just a Have Fun – nada de Edson Gomes.

A marcha percorreria as ruas e botecos do Centro, arrastaria as mulheres até então submissas à cerveja do marido ou as residentes de vassoura na mão, até desaguar no Bar do Lourival, no segundo tempo da final entre Flamengo e Vasco. Aproximadamente 5.000 feministas em plena Deodoro da Fonseca, segundo dados da oficialesca polícia de cassetete preso, sem ordens de contenção determinadas pela governadora de vermelho. No acanhado bar, os quase moradores do recinto procuravam velhos rostos conhecidos de cozinhas e só achavam o rosto ensandecido de Sônia Godeiro e companhia.

Quem assistiu – não ao jogo, mas a passeata – reconheceria ali, 10 anos depois, a primeira grande manifestação feminista da história da humanidade, ocorrida na terra governada por duas mulheres de cores diferentes; da história que concedeu ao país a primeira mulher a votar e a primeira prefeita eleita do Brasil. E lembraria, de avental amarrado no pescoço, como era boa a cerveja do Lourival e a “janta” pronta ao chegar em casa. Mas reafirmo: tudo não passa de hipótese levantada a partir de um mero imeiu incidental. Tudo o que desejo é pura e simplesmente que reine o amor na humanidade, seja entre mulheres, homens, homos e emos. Apenas isso. E que este amor seja eterno enquanto dure, ou efêmero enquanto duro.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP