Desafiando a sorte

Por Luis Fernando Veríssimo
O GLOBO

Uma pessoa que nasce pobre, num dos chiqueiros do mundo, com pouca perspectiva de sobreviver, o que dirá de melhorar de vida, tem todo o direito de pensar que a sorte (ou Deus, ou que nome tenha o responsável pela sua sina) lhe foi cruel. E de assumir sua própria biografia, já que o destino que lhe foi reservado de nascença claramente não serve. Como um dos despossuídos da Terra, só tem duas opções: resignação ou fuga. Fatalismo ou revolta. Aceitar ou rejeitar sua sina. E literalmente desafiar a sua sorte.

Assim essas cenas que se vê, de barcos precários lotados de imigrantes ilegais da África arriscando a vida para chegar à Europa, ou mexicanos sendo caçados na fronteira ao tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos, entre outras imagens de desumanidade e desespero, são cenas de uma tragédia recorrente e sem solução, mas uma tragédia com mais significados do que os que aparecem. Representam graficamente, didaticamente, a desigualdade entre nações pobres e ricas, que seria apenas outro fatalismo irredimível se a desigualdade não fosse deliberada, cultivada por nações ricas que muitas vezes estão na origem histórica da miséria dos pobres. E tem este outro significado, o de cada refugiado da sua sina representar um indivíduo em revolta contra o acaso que determinou que vida ele teria. São pessoas de posse da sua própria biografia, desafiando a ideia de que o destino de cada um está preordenado, na geografia ou nos astros.

A maioria dos que desafiam a sorte e conseguem chegar onde queriam continua a padecer. Transformam-se em problemas sociais no país de destino, sofrem com a hostilidade e o racismo e a falta de oportunidades. Mas o importante é que passaram pelas barreiras: a da sua origem na miséria e a barreira maior que separa o mundo rico do mundo pobre. Mesmo os que não conseguiram ser mais do que vendedores de bolsas Vuitton falsificadas na calçada, são símbolos de uma vitória. Já se disse da mistura e da quantidade de raças que se vê na Inglaterra, por exemplo, que são os filhos bastardos do império inglês, na metrópole para reclamar sua parte da herança. O normal é que imigrantes legais ou ilegais, na Europa e nos Estados Unidos, continuem deserdados. Mas pelo menos não é mais uma sina.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Marcos Silva
    Marcos Silva 9 de Janeiro de 2014 12:07

    Pois é, muita gente achava que o único muro era aquele de Berlim…
    A versão Brasil desse panorama é a separação entre Sul/Sudeste maravilha e Norte/Nordeste caótico (sem esquecer que, para cada cem mil maranhenses miseráveis existem dois ou três milionários locais; e o sul maravilha não é maravilhoso para todos que ali moram). Nos anos oitenta do século passado, houve campanha para separar o sul maravilha do resto do país. Sempre falei pros meus alunos: será divertidíssimo ver os branquinhos euro-descendentes do sul fazendo o serviço sujo que reservavam pros mestiços do norte…

  2. Samara Cruz 9 de Janeiro de 2014 19:53

    Inclusive o Papa Francisco foi a primeira pessoa de renome internacional a denunciar a desumanidade que acontece nas costas de Lampedusa, quando transformou seu primeiro ato como sumo pontífice, numa homenagem simbólica ao arremessar um coroa de flores ao mar, para lembrar ao mundo, que o naufrágio desses barcos com imigrantes não ocorrem por questões naturais ou pela fragilidade das embarcações, e sim por que são afundados por torpedos lançados pelos civilizados do ocidente.

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