Desafinou

Por Arthur Carvalho (*)

Em sua edição especial de terceiro aniversário, a revista Rolling Stone enumerou as que seriam as 100 maiores músicas brasileiras. Listas desse tipo sempre causam polêmica, porque cada um tem sua opinião e gosto pessoal. E gosto não se discute. Mas causa espécie nessa seleção da Rolling Stone que em uma tão extensa lista não sejam citadas algumas das composições básicas da MPB. Que fizeram nossa música popular nascer e sem as quais nem se falaria no assunto. E que, além disso, tornaram-se clássicos tocados até hoje, o que demonstra sua importância.

Entre 100 músicas brasileiras, como não começar pelo lundu Isto é bom, de Xisto Bahia, a primeira gravada no Brasil, pela Casa Edson, em 1902? Como esquecer Ô abre-alas, marcha-hino de abertura do Carnaval carioca, composto pela lendária Chiquinha Gonzaga, em 1899, e sucesso perene? E Apanhei-te cavaquinho, de Ernesto Nazareth?

Como não mencionar Pelo telefone, de Donga, o primeiro samba prensado “neste País”, registro em 1917, cantado pelo povo? E Pierrô apaixonado (1936), de Heitor dos Prazeres, parceria com Noel Rosa? E Jura, do fabuloso e pernóstico Sinhô, o Rei do Samba? E Última estrofe, de Cândido das Neves, criação antológica de Orlando Silva? E Se você jurar e Antonico, de Ismael Silva, preferido do poeta Gari? E Agora é cinza, de Alcebíades (Bide) Barcelos e Armando Marçal?

Sei que o alvo da revista é o leitor jovem, mas isso não implica só informar sobre composições e autores modernos. Pelo contrário, devemos revelar à juventude nossas raízes. Dizer do peso para a MPB, de um Vicente Celestino, um Francisco Alves, um Carlos Galhardo, um Mário Reis, um Capiba – me emociono ouvindo Maria Bethânia, magistralmente interpretada por Nelson Gonçalves. Falar também de um Zé Dantas, de letras simples e pungentes, com cheiro da terra nordestina. Dos Irmãos Valença, de O teu cabelo não nega. De Nelson Ferreira, com sua Evocação. Lembrar Fernando Lobo, Hervê Cordovil, Wilson Batista e Roberto Martins, Haroldo Lobo, Nássara e Benedito Lacerda. E Dama das camélias, de Alcyr Pires Vermelho, companheiro de Paulo Henrique Maciel? E Dominguinhos? E Adeus batucada, de Sinval Silva, por Carmem Miranda e Ney Matogrosso? Esse samba é extraordinário, não pode faltar em discoteca nenhuma. Tem coisa mais bonita do que Lábios que beijei, de J. Cascata e Leonel Azevedo, criada pelo Cantor das Multidões? E o incrível e genial repertório de Geraldo Pereira? E Casinha pequenina, do domínio público, que meu pai cantarolava ao fazer a barba, com sua voz pequena e entoada? E Serra da Boa Esperança, de Lamartine Babo, a música que eu gostaria de ter feito? E Tareco e mariola, de Petrúcio Amorim, que, tenho certeza, Renato Carneiro Campos adoraria ouvir em madrugada de lua cheia da velha Capunga? E Petrolina-Juazeiro, de Jorge de Altinho? E De volta pro aconchego, de Nando Cordel? E Feira de mangaio, de Glorinha Gadelha e Sivuca? E Feira de Caruaru, de Onildo Almeida? E Fogo-Pagou, de meu querido e saudoso amigo Rui de Moraes e Silva? E a belíssima e estranha valsa Súplica, de Octávio Gabus Mendes, José Marcílio e Déo, idolatrada por Caetano Veloso? E Errei, erramos, do esquecido Ataulfo Alves? E Fracasso, de Mário Lago? Essa é outra que eu gostaria de ter escrito. E Caminhemos, de Herivelto Martins, e O canto da ema, de João do Vale, versão estupenda de Jackson do Pandeiro?

Vamos ficar por aqui, para não cometer as injustiças que a revista cometeu. A Rolling Stone desafinou.

(*) Arthur Carvalho, advogado e jornalista, é da Academia Olindense de Letras e do Instituto Histórico de Olinda.

Publicado no Jornal do Commercio (PE)

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