Desafios de Morin

O pensador francês Edgar Morin, na Conferência Internacional Os Sete Saberes, em Fortaleza: propostas para um educação humanista

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Por Dellano Rios, Diário do Nordeste

Edgar Morin: “Quando um sistema não tem mais capacidade de tratar os seus problemas, deve acontecer o mesmo que acontece na natureza: um processo de autodestruição e autoconstrução”

Em uma concorrida conferência em Fortaleza, Edgar Morin repassou sua famosa proposta para educação, mas foi atrapalhado por problemas técnicos

Há quem olhe com desconfiança a euforia em torno dos intelectuais. A crítica se transforma em verdade, em palavra venerável; e as posturas combativas são confundidas com gestos iluminados de uma celebridade. O peso da autoridade é determinante no embate de ideias. Contudo, é difícil passar incólume ao fato de um filósofo poder atrair tantas pessoas para ouvi-lo. Quase tanto quanto certas celebridades, de discurso fútil e forma pobre. Marilena Chauí, em março de 2008, lotou os 800 lugares do Theatro José de Alencar e ainda deixou muita gente do lado de fora, na esperança de ouvi-la falar sobre um tema nada fácil, o pensamento do filósofo holandês Spinoza.

A presença de Edgar Morin no Ceará prometia ser um momento de igual brilho. O filósofo/sociólogo francês é a grande atração da Conferência Internacional Os Sete Saberes, promovida em parceria pela Unesco, pela Uece e pela Universidade de Brasília, que começou ontem e segue até sexta-feira. Ficou a cargo de Morin abrir a programação. Nada mais justo, afinal é ele o autor das teses para uma educação futura da civilização ocidental que balizam toda a programação do evento. O público respondeu ao apelo de ter bem próximo um dos maiores intelectuais do século XX e, sem dúvida, um dos cinco maiores ainda vivos. Uma série de problemas técnicos e de organização, no entanto, não permitiram que a demanda fosse atendida.

O auditório da Fábrica de Negócios (do Hotel Praia Centro) estava preparado para receber cerca de 600 participantes e chegou quase lá. Feito admirável, se lembrarmos que se tratava de um evento pago, com uma inscrição salgada. Ainda que os temas tratados fossem um atrativo natural para profissionais ligados à área de educação, o nome de Morin foi o suficiente para formar uma plateia multidisciplinar, passando por interessados em ideias trabalhadas pelo autor em inúmeras áreas, como a filosofia, a sociologia e as teorias da comunicação.

Incomunicação

A frustração foi que bem pouca gente conseguiu compreender a fala de Edgar Morin sobre os sete saberes que defende como possibilidades de transformar a educação – e, consequentemente, o mundo. Depois do atraso de uma hora, causado por um enxurrada de falas protocolares e homenagens musicais que transformaram a conferência num evento de homenagem a um único pensador, Morin deu início à sua fala. Discursou em espanhol, com sotaque carregado, que o fazia escorregar para o francês, mas de voz enfraquecida por um resfriado. Não havia tradução simultânea, nem intérprete. O sistema de som, suficiente na parte da abertura, falhou e deixou quem estava nas cadeiras mais distantes ouvindo apenas um murmuro. Para completar, a desorganização do evento se traduzia em pessoas da produção conversando ao lado esquerdo do palco.

Desafios

Peço desculpas ao leitor pelas linhas mal traçadas e pela inevitável imprecisão das palavras. A despeito da incompreensão forçada, o discurso de Edgar Morin sobre seu sete saberes tem algo de iluminador. Parágrafos soltos de sua fala emergiam como aforismos lúcidos a habitar uma intercessão temporal, em que cabem observações sobre o passado e o presente, além de indicações para o futuro.

Os sete saberes professados formam um edifício humanista, construído a partir da crítica de valores praticados na contemporaneidade. Morin constata a falência de um modelo de civilização. “Quando um sistema não tem mais capacidade de tratar os seus problemas, deve acontecer o mesmo que acontece na natureza: um processo de autodestruição e autoconstrução. Como no caso da lagarta que se transforma em borboleta. Acontece uma metamorfose. Hoje em dia, estamos no final de uma história. Estamos a passar para uma meta-história”, sentenciou o pensador. Como um eco do marxismo de sua juventude, Morin alerta que o embate não está ganho. “Uma esperança não é uma certeza”, disse. “Precisamos de novos caminhos”.

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