Desafios e dádivas na poesia de Dorian Gray

No introito ao edifício poético que erigiu num trabalho de quarenta anos, Dorian Gray abre “Os Dias Lentos”, seu título poético mais recente, com um apelo: “Senhor, dá-me mais um verão / e eu continuarei a parte / que me cabe neste ofício. // Sei que um verão é pouco, / mas se assim peço/ é para que possa erguer-me / das minhas fragilidades / e sob a sua luz / escrever teu nome” (“Da verdade”).

A alguém lembrarão esses versos outros escritos pelo torturado Hölderlin: “Mais um verão, mais um outono, ó Parcas,/ Para o amadurecimento do meu canto peço / me concedeis. Então saciado do doce jogo/ que o coração me morra” (“As Parcas”, trad. de Manuel Bandeira). De fato, Um fervor monástico perpassa ambos os poemas. No caso de Dorian Gray, retinto de forte sentimento cristão; quanto ao poeta germânico, sabe-se de seu helenismo pagão, embora, na essência, tais diferenças se confundam.

A poesia de Dorian Gray tem, a rigor, um recorte de base humanista e de fundo clássico. O crítico Nelson Saldanha, no prefácio ao livro “Os Dias Lentos”, acentua a intertextualidade, ou seja, a referência a textos alheios, como uma das marcas miliares de sua poesia. Trata-se, porém, de um desvio incontornável ao poeta, seja por se sentir desafiado pelos seus predecessores (a célebre “angústia da influência” de que fala insistentemente Harold Bloom), seja pela necessidade imperiosa de dialogar com o conjunto de vozes poéticas que a tradição lhe propicia e que não exclui minimamente os poetas de sua geração.

Não é difícil, por essa razão, encontrar pontos de afinidade entre a poesia de Dorian Gray e a poesia de Sanderson Negreiros ou de Luís Carlos Guimarães, Zila Mamede ou Newton Navarro, seus contemporâneos. Outras influências viriam de Manuel Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Augusto dos Anjos e, ainda, de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Whitman, Rilke, Hölderlin, Borges etc., todos convergindo para o múltiplo e polifônico esforço que faz Dorian Gray Caldas, desde longa data, no afã de polir seus versos de toda impureza. Senão, que poeta pode se isolar, tapar olhos e ouvidos para a poesia que bate à sua porta trazida por inumeráveis mensageiros, mesmo nas horas menos esperadas? Que poeta pode invocar para si a fundação de uma tradição pura de qualquer influência?

No entanto, apesar de todo esse intrincado de vozes que chegam via leitura, audição e vivência, sendo parte escolha, parte chamamento, a poesia de cada poeta costuma ter seu monograma incontrastável. Em Dorian Gray, isso tanto em poemas extensos, como em poemas mais breves, como “O ataque de Lampião a Mossoró” (“Encantados. Lendas e mitos do Brasil”), antologiado no livro “O Cangaço na poesia brasileira”, de Carlos Newton Júnior, ou em “Cabeleira”, incluído no livro “A poesia brasileira no século XX”, organizado por Assis Brasil, e retirado do mesmo “Encantados”.

Imbuído de empatia em relação a tudo que diga respeito à sua terra, Dorian Gray estudou minuciosamente as tradições populares laicas e religiosas que vicejaram ou criaram raízes em solo potiguar e deu-lhes forma poética em livros como “Encantados: lendas e mitos do Brasil”, “Lendas do Rio Grande do Norte”, “Feiras e Feirantes”, “Poemas para Natal em festa”, entre outros. Sempre ilustrados pelo traço inconfundível do artista, esses livros mostram os laços indissociáveis que há entre o poeta e o artista, mas sobretudo entre o poeta-artista e sua terra.

Documento também antropológico e humano de sua terra, a obra poética de Dorian Gray sintetiza a visão de mundo de um artista que é hoje uma referência internacional no campo das artes plásticas, e cuja voz precisa ser ouvida em toda a complexidade que apresenta. Este é um desafio que essa obra nos propõe e que precisamos tomar como uma incumbência inadiável, pois ela tem muito a nos dizer.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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