Do descaso com os espaços públicos da cultura

Quando li a notícia de que o Grupo Estação de Teatro, de Natal, irá apresentar o espetáculo ‘Guerra, Formigas e Palhaços’ em Brasília, hoje e amanhã, pensei no roteiro do saudoso ‘Baixo de Natal’. O ‘Baixo…’ foi um movimento protagonizado pelos artistas natalenses contra a política de eventos praticada na cidade, parodiando o Auto de Natal. Acho que em 2010. Tudo encenado em uma peça onde personagens-atores, cansados de tanto abandono, decidem tentar a sorte em outra cidade, mas no fim preferem ficar aqui e tentar mudar a realidade.

O Baixo de Natal nunca foi tão oportuno. O momento é delicado. Falam em três teatros fechados, mas só na capital. Sem falar nos teatros de Mossoró e Caicó. Sem falar nas condições precárias das Casas de Cultura. Ou do Museu Café Filho. Ou da Biblioteca Câmara Cascudo. Ou do Solar Bela Vista. Do fim do Circuito Ribeira e outros projetos, ou, principalmente, da falta da tão sonhada política cultural. Houve até anúncio de um teatro na Zona Norte, a ser chamado de Jesiel Figueiredo. Mas o que temos são menos teatros e recursos direcionados aos eventos.

Vale salientar, esta é uma herança maldita. O governo Robinho herdou o fardo de teatros abandonados. Ainda assim questiono a necessidade de se reativar uma ação ajuizada em 2010 para fechar o TAM. Ninguém se perguntou quem provocou o ato. E há quem tenha achado bom o fechamento do Teatro para saber “a quem está servindo os interesses do TAM”. Concordo. Me parece bem claro esse interesse. Mas é outra questão. Falo em cuidar, manter, conservar esses equipamentos. Falo em planejamento, investimento, atenção.

Há muito falta planejamento do poder público para espaços culturais ou não. Se constrói sem pensar no custo anual de manutenção. Me parece lógico que ao se erguer um novo equipamento deve-se incluir no orçamento anual o acréscimo no custo de manutenção. Mas não. Se constrói e se espera o milagre dos pães, sobras de recursos, paliativos e assim a cultura vira um eterno improviso, um restos a pagar. Em vez de figurar como cereja do bolo, o segmento cultural funciona como sobras do banquete orçamentário.

Enfim, para concluir com um clichê máximo, há males que vêm para o bem. Tomara que o momento sirva de alerta, de começo da mudança. De menos diálogos e mais ação. De menos intriga e mais colaboração. De mais visão, planejamento. De mais respeito com os artistas. E a propósito, também de bom uso dos equipamentos culturais restantes. Aproveito o ensejo e até convido o leitor a comparecer, nesta terça-feira, à tradicional Pinacoteca – nosso espaço-mor das artes visuais – para o lançamento da coleção Verão 2016 do estilista Wagner Kallieno. E com direito a almoço!

FOTO: TEATRO DE CULTURA POPULAR, PELAS LENTES DE EMANUEL AMARAL/TN,

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Raíssa Tâmisa 22 de julho de 2015 19:07

    Haja assunto! Deve ter de sobra pra tanto tempo de diálogo, né?! Eita, parece que eu tô vendo aquela vinhetinha do castelo rá tim bum, senta que lá vem história… Tô junto no coro, mais ação e menos monólogo! ooops, menos diálogo!

  2. François Silvestre 18 de julho de 2015 6:56

    Vejo nas folhas que vereadores caicoenses denunciam o abandono da Casa de Cultura de Caicó. Informa-se ainda que a Prefeitura e comércio da cidade promoveram reforma de manutenção do equipamento cultural, sem qualquer ajuda da Fundação José Augusto.

    Do Blog: Esse abandono não é só de Caicó. Estão todas abandonadas, como se a continuidade administrativa fosse um mal. Desde a primeira administração petista, passando por Isaura Rosado, e agora novamente com o PT, que as obras e próprios culturais estão criminosamente abandonados. Sob o olhar conivente do Ministério Público. Abandonar “não é crime”, posto que exigir ação não produz holofotes. E a mídia vai no mesmo embalo. Até nos eventos do TCP, quando havia, eles cobriam a placa de edificação do Teatro, para não “divulgar” ação alheia. Se fossem apenas ingênuos, mereceriam perdão. O grave é que são politiqueiros e ineficientes. Agora, com os Teatros interditados, nem precisam cobrir as placas.

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