Descompasso ruim para a Democracia

justiça

Por Tácito Costa

O Brasil mudou muito rapidamente nos últimos meses e os três poderes da república não se deram conta. Resultado, quase todo dia integrantes desses poderes ocupam os espaços das mídias sociais e da imprensa com corrupção, escândalos variados, imoralidades e toda sorte de maus exemplos, alguns casos nos limites do deboche e do cinismo. Até agora, isso tem saído barato para algumas dessas excelências, no máximo devolvem dinheiro de um voo irregular, são aposentados com ótimos salários, ou escapam pura e simplesmente de quaisquer punição.

Acredito que a essa altura seja patente para todos que não é pequeno o descompasso atual entre a sociedade e os membros do executivo, legislativo e judiciário. E isso os senhores de toga, gravata e colarinho branco estão sentindo na pele. A realidade os está obrigando a apreender rapidamente, na marra, que as coisas não são mais como antigamente. Pelo menos, não são “tão mais”, algo mudou, é certo.

Renan e seu voo cabeludo (legislativo); Alckmin e a Alstom e a Siemens (executivo); Barbosa e suas diárias de férias (judiciário). A mídia todo dia traz novas denúncias envolvendo figurões e figurinhas da república. Fiquei somente nos últimos três escândalos de dimensões nacional para não cansá-los, bem sei que vocês acompanham até melhor do que eu esses “percalços” das nossas autoridades.

Aqui no Rio Grande do Norte a situação não é diferente. E quando eu penso que o Poder Judiciário do estado esgotou o seu arsenal de surpresas, eis que aparece mais uma. Aliás, umas. Não temos tempo direito nem de digerir a última e já nos empurram a seguinte.

Nesse aspecto o ano começou “bem” para esse poder, que já ocupou as manchetes do Novo Jornal duas vezes somente este mês. Na primeira, um promotor corrupto é afastado, mas continua recebendo seus vencimentos, algo em torno de R$ 22 mil por mês; na segunda, dois desembargadores, também envolvidos em corrupção, receberam proventos em dezembro, cada um, de mais de R$ 100 mil. Antes, já tinha estourado nas redes sociais o caso do desembargador que humilhou um garçom numa padaria e chamou os policiais de cagões.

Em parte, os valores inflados dos contracheques dos dois desembargadores foi resultado do pagamento retroativo relativo ao auxílio-alimentação não recebido entre 2006 e 2011, que irônica e apropriadamente o jornal chama de “Auxílio Caviar”. Impossível não lembrar um samba muito gostoso que Zeca Pagodinho canta e que diz: “Você sabe o que é caviar / Nunca vi, nem comi / Eu só ouço falar /”. Juro, é o meu caso.

Claro, tudo dentro da lei, mas muito típico do Brasil, onde quem pode pode e quem não pode obedece, se tiver juízo.

Não precisa ser nenhum gênio para concluir que questões como essas são péssimas para o Poder Judiciário, que enfrenta desde sempre problemas como mau atendimento, arrogância e distanciamento social da sociedade, lentidão, nepotismo, corporativismo e repúdio a esses expedientes pecuniários legais, repito, porém reprováveis. Além de ser identificado como mandar à cadeia somente os dignos representantes dos três “P”, com as exceções de praxe para dar um verniz de… justiça às suas ações.

É fato notório e antigo o descompasso no Brasil entre o que é legal e moral, que, sejamos justos, é comum aos três poderes. É uma das nefastas heranças coloniais que nos persegue. Exemplo irrefutável: a escravidão, essa praga que ainda hoje nos atormenta. Mas não é porque essas heranças não são recentes que não devemos combatê-las.

Pelo contrário. Devemos combatê-las com vigor porque esse legado envenena a Democracia e ofende e humilha as pessoas de bem.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. eduardo gosson 27 de janeiro de 2014 5:58

    Caríssimo Tácito:

    O Brasil precisa com urgência ser passado a limpo.Nunca esteve tão atual o livro
    do Jurista Raimundo Faro – OS DONOS DO PODER vol. I e II.Recomendamos a sua
    leitura!

  2. Jucas Paulino 24 de janeiro de 2014 15:09

    Estamos esquecendo de comentar a respeito da terceira edição do “Salvados – Livros e Autores Norte-Rio-Grandenses”, de Manoel Onofre Jr. O livro, primeiramente publicado em 1982 pela Fundação José Augusto, foi reeditado em 2002 pelo Sebo Vermelho e ganhou, agora em 2014, seu relançamento em formato revisto e ampliado. Dos novos nomes das letras potiguares, Jair Farias, Leonam Cunha e Thiago Galdino são citados, além de outros tantos autores do RN. Onofre optou por não fazer cerimônia de lançamento da obra, que já se encontra em circulação no estado.

  3. Anchieta Rolim 23 de janeiro de 2014 22:34

    ” Devemos combatê-las com vigor porque esse legado envenena a Democracia e ofende e humilha as pessoas de bem.” Tácito, concordo plenamente com seu texto. Já disse e repito: Lutarei até o fim. Embora não acredite mais nesse sistema podre e falido, cheio de homens tomados por um mal caráter irreversível. Em minha opinião, temos dois tipos: Os que estão e querem se perpetuar no poder e os que estão fora esperando a hora para tomar esse mesmo poder e também se perpetuar, sem citar os que vivem as custas desses crápulas que são os babões e sugadores por tabela. Uns parasitas piores que carrapatos em cachorro. Me sinto como um animal enjaulado, encurralado e sem saída.

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