Desejo em carne viva

Por Marcelo Coelho

Pele, película, disfarce, máscara, roupa: o filme de Almodóvar se organiza em função desse tema

Acho que Almodóvar exagerou a dose em “A Pele que Habito”. Bizarros, extravagantes, seus filmes sempre foram. Nunca foram tão doentes, contudo, como agora.

É como se a graça e a inventividade do passado fossem apenas um disfarce, uma casca, uma película da qual o diretor agora se desfez.

Pele, película, disfarce, máscara, roupa: o filme se organiza, certamente, em função desse tema.

Volta e meia, a ideia de tirar a roupa, de rasgar as próprias vestes, aparece no filme. O rapaz que trabalha com a mãe num ateliê de costura brinca com a ideia; a jovenzinha que ele tenta seduzir tem impulsos de ficar nua; quando alguém não pode mais ser reconhecido pelos traços fisionômicos, é apenas através de uma peça de vestuário que tudo se esclarece.

Travestir-se de mulher, usar uma fantasia maluca de Carnaval, pintar-se com o estojo de maquiagem da mãe: brincadeiras de criança, sem dúvida, diante do que podem atualmente as tecnologias de transformação do corpo.

Imagine-se esse tipo de tecnologia nas mãos de um cientista demente. Não é apenas à recuperação de uma pele humana carbonizada que se dedica o personagem de Antonio Banderas, um cirurgião plástico pronto a ir até os limites de sua arte. Não conto mais do filme.

Mas além da realização, ou melhor, da “encarnação” assustadora das fantasias pessoais de Almodóvar, “A Pele que Habito” traz questões de outra natureza. Pelo menos, alguns detalhes da encenação me pareceram mais misteriosos do que o motivo identitário-sexual, tão explícito, da história.

Aí pelo meio do filme, Almodóvar faz um “flashback”, conduzindo-nos para oito anos antes dos eventos que estava narrando.

Estamos num baile grã-fino, aí por volta de 2003. O estranho é que tudo -a música, as roupas, o colorido- evoca um passado muito mais remoto; 1963, quem sabe.

Impecável no seu smoking, Antonio Banderas lembra Sean Connery nos áureos tempos de 007.

Nunca fui de ver os filmes de James Bond, mas uma cena de um dos primeiros títulos da série me veio à memória, e talvez traduza a divertidíssima cara-de-pau que, penso, é um dos encantos do personagem.

Um mergulhador emerge da água.Chega à praia, tira a máscara e a roupa de borracha. É Bond, pronto para uma festa, de smoking e tudo.

A roupa de borracha, assim como o “body” inteiriço, cor da pele, que usa a protagonista feminina de “A Pele que Habito”, são formas estranhas de valorizar ao máximo o belo desenho de um corpo, enquanto representam igualmente uma total interdição ao contato sexual.

O que parece para lá de esquisito, em Almodóvar, é a ideia de que talvez a própria pele de uma pessoa tenha essa dupla função. Se você tem desejos de mulher num corpo de homem, então até mesmo a sua pele seria como uma roupa da qual você quer se livrar; seu passado, sua personalidade, talvez sejam obstáculos para o desejo em carne viva.

Imagine então que não sejam os seus próprios desejos, mas os de um outro, o que tenha de ser descascado de dentro de você. Estamos aqui no campo do puro pesadelo. Mas é o campo, também, do cinema.

E Almodóvar “descasca”, no seu filme, o segredo não apenas de suas próprias fantasias pessoais mas também o segredo de outros filmes. Não se trata apenas da sexualidade dos anos 60, a época de Monroe e Connery, que alimenta os cinquentões de hoje, e parece fixar-se especialmente na mentalidade gay.

“O Silêncio dos Inocentes”, filme de 1991 com Jodie Foster e Anthony Hopkins, é de certa forma reconstituído por Almodóvar em “A Pele…”. Todos se lembram do dr. Lecter, com a máscara que o impedia de sair canibalizando suas vítimas.

No cartaz do filme de Almodóvar, entretanto, quem usa uma máscara parecida com a do dr. Lecter é a mocinha da história -vítima, logo se sabe, das manipulações de Banderas, no papel de dr. Ledgard.

Filme, em espanhol, é “película”. Almodóvar parece encarnar no velho thriller dirigido por Jonathan Demme, fazendo-o explodir por dentro. Inverteu a história, ou melhor, canibalizou-a.

Nesse ponto, entretanto, ele até que foi bem normal. O cinema faz isso o tempo todo. Está tão sobrecarregado de memórias que cada filme já nasce, por assim dizer, com uma grande crise de identidade.

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