(Des)esperança

“… tive a vantagem de conhecer pessoas que se mostraram capazes de me tirar a ingenuidade, de me fazer corar pelas minhas ilusões; foram essas pessoas que realmente me educaram.” E.M.Cioran

Finalmente me encontro face a face contigo, desesperança. Descanso, enfim! Enfim eu te possuo, inteira e estirada, aberta e escassa como eu mesmo. São palavras do anjo.

A primeira vez que o anjo tomou consciência daquela palavra foi quando leu um texto de Clarice Lispector, um trecho de “Água Viva”. Claro que já sabia o que era desesperança, mas naquele dia leu a palavra com apetite, sentiu a força dela: “…inquieta e áspera e desesperançada…” Daí para cá o anjo cada vez mais constata a semelhança da palavra desesperança com a palavra liberdade. São irmãs siamesas. Desesperançar-se, perder a esperança de… É libertar-se da angústia de não poder, de não ter, de não conseguir.

A esperança é, em certa medida, uma prisão. Diante do impossível, o melhor é perdê-la. Não foi à toa que Machado de Assis referiu-se a ela como um demônio. O demônio da esperança é mesmo um demônio obsedante, o último a morrer nos campos de batalha, nos hospitais e nas camas moribundas. O que não larga a vida, mesmo que a vida não valha a pena de viver.

Quando a caixa de Pandora foi aberta, deixando escapar os males para o mundo, percebeu-se uma luzinha no fundo: era a esperança. Ela estava na mesma caixinha dos tormentos. E que diabos fazia ela por lá? Ora, “diga-me com quem andas e te direi quem és”.
O desespero é sádico e cruel, mas a desesperança é balsâmica. O desespero é irracional, a desesperança vê o mundo com uma clareza a toda prova. O desespero dá medo, a desesperança dá calma. O desespero é dor, a desesperança é cura.

Quando quer muito alguma coisa, o anjo põe a esperança de lado. Sai desguardado, vai à luta. Não fica esperando deus nem Chico Buarque darem bom tempo. Mas se a coisa está no terreno dos impossíveis, não faz cerimônia, bate as asas e comete a desesperança. Com a cara e a coragem de dar a cara à tapa para a turma da auto-ajuda que nada tem de auto e muito menos de ajuda.

E se recupera. O anjo é humano, quando se trata de ser pródigo em regenerações. Não é só o rabo da lagartixa que cresce de novo não. Há um visgo de libido que nos adere à vida e ele é muito mais forte que a esperança. Sabe-o o anjo. Para experimentar algumas vivências, é preciso desesperançar-se daquelas que não nos foi dado viver.

Soube disso desde que leu “Água Viva” e vivenciou a palavra desesperança. Desesperançou-se muitas vezes então, com gosto, com apetite. Mas outras vezes não consegue desesperançar-se. É muito mais fácil sucumbir à esperança do que livrar-se dela. A esperança é um demônio poderoso. Difícil de ignorar, como um canto de sereia. É a penúltima que morre. Depois dela, só as baratas.
Mas o anjo sabe, vez ou outra é preciso experimentar a salvação da desesperança.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Wanderil Santos 16 de setembro de 2010 22:24

    Ao ler o seu texto lembrei-me de quando consegui perceber a exata dimensão da expressão “nunca mais”, que tantas vezes já ouvira, que outras tantas vezes já dissera. Foi quando faleceu o meu irmão mais novo aos 42 anos. Ali, olhando os seus olhos cerrados, suas mãos imóveis e o seu peito como que petrificado, minha alma repetia baixinho: nunca mais nos falaremos ou nos tocaremos, ao menos nesta dimensão. Como você pode perceber, cabe sim, aqui o seu conceito de desesperança. Gostei imensamente do seu texto…

  2. Joana Carolina Paro 7 de agosto de 2010 17:48

    BELÍSSIMO TEXTO, REALISTA E POÉTICO COMO POUCOS PODEM SER!
    GRATA!

  3. Carmen Vasconcelos 9 de junho de 2010 19:36

    Nossa, pessoal, quanto carinho, obrigada. Nina, Jarbas, mais ou menos dá para acreditar neste texto, que foi feito para tecer loas, não exatamente à desesperança, mas à lucidez. Eu adoro o “demônio da esperança” que está num conto de Machado de Assis, do qual não me recordo o título agora. Demônio que não se despega. No fundo de mim, caixa de Pandora que sou, também a guardo. Ou solto no mundo. A leitura de vocês recriou o texto, e fico grata por isso. Beijos.

  4. Nina Rizzi 9 de junho de 2010 18:49

    eu sei, querido damata, mais uma vez agradeço sua existência socializadora da beleza 🙂

  5. João da Mata 9 de junho de 2010 18:29

    Beleza Carmem.

    Ninotschka. Esse poema da Carmem foi selecionado por mim quando organizei essa agenda com muito gosto

  6. Nina Rizzi 9 de junho de 2010 18:20

    pois eu ainda espero o dia em que a esperança durará apenas um dia. palavra que será desinventada pra nos desamarrar e agirmos.

    belo texto.

    olha, partindo de um poemeto seu na agenda da adurn:

    CARMEN

    uma tarde com ela e pronto:
    anoiteço.
    *

    beijos.

  7. Jarbas Martins 9 de junho de 2010 17:09

    carmen, flor de desesperança, dá pra se acreditar mesmo no que os grande poetas, como você, dizem ? sedução, teu nome é mulher. teu estilo também tem nome: carmen. você é uma estilista, como poucos, em nossa literatura. e pensar que certa vanguarda falou tão mal do estilo.
    voltando a falar de esperança, tenho uma confissão a lhe fazer: tenho sessenta e sete anos e continuo a esperar…a esperança.

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