Desordens da escrita literária

Por Lúcia Guimarães
ESTADÃO

“Eu me sento, religiosamente, toda manhã. Eu me sento por oito horas, todo dia – e ficar sentado é tudo. Durante o dia de trabalho de oito horas, escrevo três frases que apago, antes de deixar a escrivaninha em desespero.”
Carta de Joseph Conrad, em 1898, ao editor e amigo
Edward Garnett

A “Doença da Meia Noite”, o mal que aflige o escritor diante da página em branco, foi assim batizada pelo notoriamente deprimido Edgar Allan Poe. A noção do autor acometido por surtos de inspiração ou em agonia pela ausência da musa sempre acompanhou a escrita. Mas, uma nova literatura médica ajuda a explicar os caprichos da musa. O sofrimento, no entanto, está longe de ser aplacado, como conta ao Sabático, o romancista Mark Salzman, que acaba de lançar as memórias de seu tormento com o mal da meia-noite, o livro eletrônico The Man In The Empty Boat (O Homem no Barco Vazio). Ele registra não um, mas dois longos episódios de bloqueio da escrita, entre lançamentos que foram sucessos de crítica. O caso de Salzman é mais notável porque ele começou a carreira como instrutor de artes marciais e sonhava ser um celebrado violoncelista, “ou seja, eu não tinha esta ambição de me comparar a um grande escritor”, explica.

O sonho de musicista profissional foi abandonado ao assistir a um concerto de Yo-Yo Ma, enquanto estudava na Universidade de Yale, onde logo trocou seus estudos por literatura chinesa. As artes marciais, que aperfeiçoou na província de Hunan, no fim da década de 80, inspiraram seu primeiro sucesso, o livro de memórias Iron & Silk (Ferro & Seda). Em 2000, Salzman lançou Lying Awake (Na Cama Acordada), um breve e elogiado romance sobre uma freira carmelita que enfrenta uma crise espiritual e um tumor no cérebro.

Na época, num perfil na revista New Yorker, Salzman confessou que havia levado seis anos para concluir Lying Awake, um período em que sua mulher, a cineasta Jessica Yu, ganhou um Oscar pelo curta-metragem Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien.

Em The Man In The Empty Boat, Salzman relata em detalhes a segunda seca criativa que sofreu, em 2009, incapaz de concluir, depois de três manuscritos, um romance sobre o império mongol, passado no século 13. O nascimento de duas filhas, a morte trágica de sua irmã e o começo de uma série de ataques de pânico são o pano de fundo da crise. Sua crônica da luta obsessiva para manter a rotina de escritor contém cenas de humor absurdo, como a que está sentado em frente do computador com uma toalha na cabeça para abafar o menor ruído e enrolado numa saia de papel laminado para afugentar os dois gatos que pedem colo. A certa altura, ele leva o laptop para o carro na garagem e tenta em vão escrever de lá, sob o escárnio de um dos gatos que se instala no capô. Em seguida, Salzman é aceito na idílica Colônia MacDowell Para Escritores, no Estado de New Hampshire, onde conclui, em êxtase, que não pode se forçar a escrever e transforma a estadia em férias.

A crise de Salzman, ou pelo menos o seu tormento, termina em outra viagem para o campo, em companhia de um cachorro terrier, cuja flatulência o leva a ter uma segunda epifania sobre o bloqueio do escritor. De sua casa, perto de Los Angeles, Salzman se confessa feliz por, no momento, tomar conta das duas filhas, de 7 e 10 anos, enquanto a mulher viaja com a produção de um filme. Ele espera, paciente, pela volta da inspiração sobre a Mongólia da Idade Média.

No prestigiado Massachusetts General Hospital, o escritório de Alice Flaherty, diretora do Programa de Estudos de Desordens do Movimento e professora de neurologia da Universidade de Harvard, é destino de uma peregrinação de escritores como Salzman. O mais famoso deles foi William Styron, morto em 2006. O romancista autor de A Escolha de Sofia e As Confissões de Nat Turner escreveu a mais célebre memória da depressão, Perto das Trevas. Ainda deprimido e incapaz de voltar a escrever, ele decidiu procurar a doutora Flaherty em Boston, ao ler seu livro The Midnight Disease: The Drive to Write, Writer’s Block and the Creative Brain (A Doença da Meia-Noite: O Impulso de Escrever, O Bloqueio do Escritor e o Cérebro Criativo, 2004).

“Styron estava profundamente deprimido nos últimos cinco anos de vida”, lembra a neurologista, advertindo que tem permissão para comentar apenas sobre este ex-paciente, já que Styron e sua viúva Rose, de quem se tornou amiga, falaram abertamente sobre a depressão e o tratamento. Flaherty admite que foi procurada por figuras expressivos da literatura contemporânea americana, mas, é claro, a ética a impede de revelar nomes. Ela acaba de escrever um paper acadêmico sobre a evolução da pesquisa relatada em The Midnight Disease. O novo artigo se concentra nos riscos do tratamento de doenças mentais que afetam a criatividade.

Foi como paciente que Alice Flaherty se interessou por explorar a ligação entre a escrita e a emoção. Boa parte da literatura científica tratava de aspectos cognitivos da linguagem. Mas, ao dar à luz gêmeos prematuros que logo morreram, em 1998, a neurologista, que já tinha uma carreira médica bem-sucedida, mergulhou numa depressão. E passou a sofrer do outro mal do escritor, o extremo oposto do bloqueio: a hipergrafia. Processou seu luto escrevendo sem parar, em qualquer pedaço de papel. Flaherty diz ao Sabático que a compulsão para escrever sobre a própria doença é comum em pacientes que não são escritores por profissão. Depois de seu episódio maníaco, ela recebeu um diagnóstico de desordem bipolar, foi medicada, voltou a publicar artigos científicos, a atender pacientes e teve gêmeas que estão crescendo saudáveis.

Em The Midnight Disease, Flaherty confessa sua surpresa inicial ao descobrir que um talento refinado como a escrita possa ser tão influenciado pela biologia. Ela explica que, tanto o bloqueio da escrita quanto a hipergrafia têm em comum o lóbulo temporal do cérebro, importante para a produção de literatura porque é necessário para a compreensão semântica. A outra região do cérebro relevante para a escrita é o sistema límbico, residência da emoção e do impulso criativo. Flaherty afirma que está longe de tentar medicalizar a arte, como os que descrevem a obra de Dostoievski como mero produto da epilepsia. “Patologizar o processo de escrever”, argumenta, “poderia nos levar a encarar a criatividade como anormal e até perigosa.”

A expressão “writer’s block” (bloqueio do escritor) foi cunhada pelo psicanalista americano Edmund Bergler, em 1947. Há, comenta a doutora Alice, quem a considere uma aflição nativa dos Estados Unidos por causa do otimismo americano sobre “a criatividade ao alcance de todos”. É comum os cursos de Escrita Criativa das universidades do país, como a Columbia e a New York University, incluírem disciplinas sobre como combater o writer’s block. Apesar de famosos bloqueados americanos, como Herman Melville, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, Flaherty contra-argumenta com casos de bloqueio confesso, como os de Sigmund Freud, Franz Kafka, Albert Camus e Joseph Conrad.

Pergunto por que persiste o mito do álcool (Hemingway) ou de drogas (William Burroughs) como combustível criativo e ela me diz que a substância, não importa qual, é buscada para aplacar a desordem mental e não para resolver a produção literária.

Flaherty recomenda psicoterapia e medicação para os afligidos por bloqueio. Mas a medicação correta, um tema de seu novo paper, é crucial porque os escritores, um grupo com alto índice de depressão, podem se tornar ainda mais paralisados sob a prescrição química equivocada.

O impulso de escrever, lembra a neurologista, é diferente da qualidade do que se escreve. “A ciência”, sustenta ela, “ainda não conhece o bastante sobre qualidade, a biologia do talento, como conhece sobre a quantidade da produção.” Flaherty explica que ainda é um desafio mostrar de onde vem a inteligência, porque ela depende de áreas do cérebro cuja composição química é mais complicado de distinguir. “Parte da razão pela qual escrevo sobre motivação e emoção é por ser este um cenário neurobiológico mais bem compreendido.”

A doutora Flaherty não toma partido entre duas posturas comuns entre escritores afligidos pelo papel ou a tela em branco. Ela cita o americano Norman Mailer, que comparava escrever sem a visita da inspiração a tentar fazer sexo sem desejo. Mas acredita que os defensores da disciplina, os que se obrigam a escrever, não importa a disposição, podem levar vantagem: “Sabemos que a criatividade é pontuada por momentos de inspiração e momentos de eureka!”, lembra. “Pode ser melhor escrever algo ruim e esperar pelo tal momento.” Ou cita, para quem consegue, a receita do poeta romântico inglês John Keats que, numa carta, afirma se encontrar num estado de “indolência diligente e aplicada”. E qual é o conselho comum que ela dá para quem enfrenta o bloqueio da escrita? Não ficar repetindo para si o diagnóstico. “Só faz aumentar a ansiedade e a paralisia”, garante.

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