O destino de Schnitzler

Por José Castello
O GLOBO

Duas cenas marcam a formação do jovem Arthur Schnitzler (Viena, 1862-1931), um dos mais importantes escritores da moderna língua e alemã. Desde muito cedo, Arthur sente uma forte inclinação pelo teatro. Mas desde muito cedo, também, começa a ver o teatro (e, por extensão, a literatura) não como uma ilusão, mas como uma encenação _ descoberta que marcaria toda a sua vida de escritor. Descoberta que, no futuro, o levou a ser um dos grandes nomes do impressionismo.

No dia em que a família o levou para assistir a uma apresentação do “Margarethe”, de Gounod, o jovem rapaz _ às vésperas da pré-adolescência _ viveu “uma de minhas primeiras, mais estranhas e duradouras impressões”. Em dado momento da representação, quando Fausto (Gustav Walter) e Mefistófeles (doutor Schmid) se escondem atrás de uma moita, eles aproveitam para mandar para a família Schnitzler uma breve saudação, “acenando com as mãos e fazendo reverências”. Naquele momento, o jovem Schnitzler entende que o teatro não é apenas ilusão, mas a soma da ilusão com a representação.

Outra experiência que o levou a compreender a surpreendente fusão entre a verdade e a mentira promovida pela ficção aconteceu quando, pouco tempo depois, ele assistiu a uma peça imperial muito popular chamada “Monge e soldado” – cuja ação trata das desventuras de um casal amoroso. Dias mais tarde, passeando em um parque de Viena, Schnitzler esbarra com o mesmo casal, só que agora vestido com trajes da vida comum. Entende, logo, que também na vida real os dois são namorados. Chega, assim, à dupla condição que sustenta uma encenação teatral.

As duas lembranças aparecem em “Juventude em Viena/ uma autobiografia”, volume da série “As grandes obras de Arthur Schnitzler” organizada e traduzida para editora Record por Marcelo Backes. Uma viagem de quase 500 páginas através da formação de um dos maiores escritores da virada do século 20. Filho da burguesia hebraica, Schnitzler estudou medicina, interessou-se pela psicanálise e, embora escrevesse desde muito cedo, precisou de um grande esforço pessoal para, enfim, chegar à literatura. Não basta ter uma vocação _ é preciso agarrá-la.

O conflito fundamental entre ilusão e representação _ que, em sua vida pessoal, se desdobrou em um segundo conflito, entre medicina e literatura _ marca toda a obra do escritor. Também seus personagens têm as vidas marcadas por fortes conflitos interiores, muito mais importantes nas narrativas de Schnitzler do que o que costumamos chamar de “ação”. A ação, se ela existe, não é exterior, mas interior. É dentro dos personagens que um mundo se sacode e se expande.

A luta entre o homem e a realidade que o circunda é outro tema crucial da obra de Schnitzler. Mais de uma vez, os personagens se vêm arrastados por dramas “sem solução”. Só com muito esforço eles compreendem que esse claudicar sem fim é a própria condição da vida humana. Para o escritor austríaco, a descoberta da magia das palavras se dá no início da adolescência. Imagina Schnitzler um sujeito que, sem querer entrasse em uma loja de aluguel de fantasias. Tudo brilha, mas tudo está morto. De repente, casacos, cartolas, perucas começam a se mexer, como que atiçados por espíritos. O escritor compara essa cena à descoberta da genuína condição das palavras que, apesar da aparência protocolar e morta, carregam “um segundo e genuíno sentido”.

Desde cedo, Schnitzler experimenta, também, o interesse pela medicina _ espelhando-se, antes de tudo, na figura do pai. “Já pelo exemplo e modelo de meu pai, a carreira de médico me parecera inescapável e promissora desde aqueles anos jovens”. A ênfase aqui deve ser colocada no adjetivo “inescapável” _ que indica a presença de uma força da qual não temos qualquer possibilidade de fugir e, portanto, uma espécie discreta de condenação. Passou a alimentar, assim, uma imagem romântica a respeito da vida médica. “Sendo médico, não apenas se tinha a oportunidade de ficar o dia inteiro andando de coche por aí, mas também, casa se tivesse vontade, era possível mandar o cocheiro parar em todas as padarias e comprar os doces mais deliciosos”.

Esta imagem ideal (ilusão), porém, entraria logo em choque com a experiência da vida real (verdade). Ainda se apega à ideia de que a medicina, no fundo, funciona como um vestíbulo da filosofia, já que ela nos conduz inexoravelmente às “chamadas questões eternas”. Mas a medicina não é filosofia _ e a rotina clínica logo o entendia e enerva. Continua a escrever para “registrar o que lhe passava na cabeça”, mas ainda não tem coragem de trocar a medicina pela literatura. Em 1880, pouco antes de completar 18 anos, já escreveu 22 dramas e abandonou pelo meio outros 13. Ainda assim, “estava longe de me sentir como vocacionado ou mesmo um eleito”.

Jovens amigos (como Eugen Deimel) e jovens amadas (como Fanny Mütter) o incentivam e impulsionam, mas isso não basta. Nas aulas de anatomia, quando se defronta pela primeira vez com um cadáver, trata de se “proteger daquelas emoções legais e sentimentais”. Mas alguma coisa continua a incomodá-lo. Vive em uma época e em uma cidade na qual se adota a “separação purificadora entre cristãos e judeus”. Aos poucos, descobre que o corpo não é apenas carne, mas também o resultado das imagens que sobre ele refletimos.

Em seu diário, se lamenta: “Esqueço completamente o que e quem sou”. Constatando seu desinteresse crescente pela medicina, aventura-se pela psiquiatria. Mas, engajado no setor psiquiátrico do doutor Theodor Meynert, “eu recebia pouco incentivo, coisa que talvez não fosse pura e exclusivamente minha culpa”. Transferido, em 1888, para o setor cirúrgico, mantinha-se “o mais longe possível de uma verdadeira atividade cirúrgica” e não pode deixar de reconhecer, muitas vezes, que se tornou um médico descuidado.

Arthur Schnitzler começa, então, a se interessar pelas neuroses e pela hipnose _ o que o leva a trabalhar com a “tensão real-surreal” e a se aproximar da obra de Sigmund Freud. Aos poucos, muito devagar, a vida o empurra para a literatura que, por fim, já não é uma escolha, mas um destino do qual não ele pode e nem deve fugir.

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