Deusa da Temperança

Uma moça brincando em campos floridos é tragada de repente para baixo da terra, pela força de um homem que a leva em seu cavalo negro: o mito grego desse rapto; a jovem Perséfone, filha da deusa Deméter, pelo deus Hades, senhor do Averno; tem fascinado por séculos os que se miram em mitologias. Somos muitos estes mirantes e encantados que somos com os arquétipos do homem grego, tentamos há séculos dissecar seus mitos, em nós entranhados. Na ciência, na política, na psicologia, nas religiões, os mitos gregos renascem, ressurgem, adquirem mil significados, e permanecem. Dão-se às mais diversas interpretações. Perséfone não é diferente. A filha da semeadora da vida, tornada rainha do mundo dos mortos, encarna significações as mais diversas, pondo-se à mercê da nossa criatividade e também da nossa perplexidade diante do paradoxo que representa.

Alguns preferem simplificar o mito de Perséfone. Li outro dia que sua mais perfeita tradução é a de uma jovem passiva, tola, enganada pelo deus Hades, que a fez comer sementes de romã do inferno, para que assim ela ficasse para sempre ligada ao seu reino (lembro que o inferno grego não é um lugar apenas para os maus, mas para todos os mortos, bons e maus). Com isso, mesmo voltando para a sua mãe e para os domínios da luz, Perséfone deveria passar um terço do ano no reino dos mortos, período em que a terra ficaria estéril, pois Deméter estaria saudosa da filha. Perséfone seria então uma deusa passiva, disputada entre Hades e Deméter, deuses do panteão grego principal.

No entanto, não me parece que Perséfone seja de tão singela explicação. Deméter era a deusa da semeadura e o que sua filha comeu foram sementes. Quando vem à terra, Perséfone transporta sementes, necessárias ao ciclo vida-morte-renascimento. Toda vez que Perséfone sobe à terra, ela volta a dar flores, frutos, vida. Não me parece que a jovem tenha sido simplesmente ludibriada pelo deus Hades, que se tornou seu marido. Ela comeu as sementes porque quis, e as comeu com prazer. Ela não é simplesmente uma coisa, disputada entre o marido e a mãe, essa que foi à luta para recuperá-la, encarnando a mulher forte e batalhadora (Deméter proibiu a terra de florescer, enquanto sua filha não voltasse). Perséfone é aquela que se alimenta dos inícios. E que doa inícios. É a que deflagra.
Como “objeto disputado” pela mãe e pelo esposo, ela se situa no lugar-comum da mulher, esse é o motivo pelo qual Perséfone é vista como a jovem passiva e somente conduzida. Porém, ela se conduz, transita entre dois mundos, e é isso a sua grande força, uma força surgida da passividade. A passividade em Perséfone não é nem de longe fraqueza. O fato de se alimentar do mundo escuro deu a Perséfone, além das sementes do renascimento, a representação da virtude mais perfeita de todas: a temperança.

Os deuses gregos estão sempre nos extremos, nenhum tem a temperança, a não ser Perséfone. Sua aceitação do mundo é consciente, ela compreende e acata a dualidade. Como rainha do reino dos mortos, recebia todas as almas, e também os pouquíssimos vivos que pisaram, sem morrer, o inferno, como Orfeu, Ulisses e Hércules. E nunca faltou, mesmo durante o tempo em que permanecia com a mãe, fazendo supor que tinha também onipresença. Com a sua divindade dupla, Perséfone é tudo, menos uma deusa simples. Nenhum deus é simples, e não nos cabe simplificá-los.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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