Devaneios de um anotador de poemas

Nas noites frias em que acordamos atordoados, observando a pintura da parede e imaginando que há afrescos antigos escondidos, tudo pode retornar à mente esgotada, de tanto se procurar explicações para os fatos da vida. Muitas vezes é preferível voltar ao sono, posto que a vigília não sabe ainda se estabelecer e guardar diferenças. O sono e o sonho ao menos nos dão a permissão para o delírio e o delito sem culpa.

Trago a senha comigo e decido o reingresso. Durmo resíduos que sobraram da incompletude do mármore esculpido. Sou estátua contida na inércia em que a aprisionou o escultor. Mesmo assim continuo o sonho interrompido e me oriento pelos sons do trompete de Chet Baker, desmancho nuvens com os dentes e a saliva que ferveu. E invento, moto-contínuo, mais um poema que remeto ao chão. Depois, recolho-o, desamasso-o, colo-o ao mural desgastado da memória e me recosto ao sofá, vencido pelo tempo etéreo e pelo sereno que se abre lá fora.

Vou reescrevendo os fragmentos que me chegam à garganta. Nada é fácil quanto aos cacos que se precisa engolir. Quanto aos sapos com dorso áspero que se arrastam na língua mordida, fico estático. É o vento que se aproxima e me diz que a hora é de silêncio. Ainda traço esboços na carteira escolar de madeira pobre. Já não vejo nela o meu nome e é estranho isso. Somente os ancestrais estão lembrados naquelas marcas, como naquelas fotos ovais e em preto e branco na penteadeira da minha mãe. Quando os homens vestiam “diagonais” de linho e as mulheres faziam pose de ausentes. Ouço esses dias assoviarem lá longe, chamado das eras partidas.

Todas as estradas percorridas amadurecem o senso de existir. Teimo, assim, em investigar outras, palmilhando cada pedaço de chão desconhecido e inóspito, chegando a mares em que empreendo navegações distraídas, sem bússolas ou outros apetrechos de segurança e direção. A direção é a vela que dá. Sigo conforme o estado dos ventos, meus guias cantarolantes. Vou para onde não houver fim, que é o que dita a imaginação e a ponta do lápis. E chego. E não chego. E fico e pouso. E corro e voo. O salto vem após, diante do mundo todo lá embaixo, com as asas que se juntam ao meu corpo antes do início do baile em pleno ar.

Quando as palavras se amansam e deitam sobre a página, cabe retomar os olhos que vagam e lhes entregar nova tarefa. As rotas são sempre sinuosas e se estreitam e se alargam, indefinidamente. Não vale o esforço de construir calçadas para o descanso seguro. Nada é seguro, tudo é risco e esforço. É sempre intensa a luta e a dor, antes da criação, que se faz aos gritos, lancinantes urros que emergem do peito e da mente rasgados. Até o fim da página é esse o caminho único. Melhor seguir nele sem fazer todas as perguntas. As respostas aparecerão nas encruzilhadas e nas entrelinhas. É só ter coragem diante da aparição. É só seguir o ditado da velha professora ausente. É só erguer e jogar o lápis em direção à página. É só o caminho.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga 14 de Junho de 2016 22:56

    Muito poético esse texto.
    Diferente, tbm, do que vc vem escrevendo, geralmente , esse ano. isso é muito positivo.
    Demonstra sua capacidade de criação artística

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