Deveres do Jornalista

Por Sergio Augusto
ESTADÃO

Quando menos se espera, sua sombra reaparece, quase sempre acompanhada da pergunta “O que diria ele disso tudo?” Ele, que me desculpem os sartrianos, é Albert Camus.

Ainda não vi (ou li) nenhum francês repetir a pergunta a propósito da chacina em Toulouse e Montauban, mas uma hora dessas fatalmente a ouviremos ou leremos. De qualquer modo, antes mesmo de o terrorista franco-argelino Mohammed Merah sair de casa para matar, o pied-noir Camus já estava de volta ao noticiário. À primeira página do caderno Week-end do Le Monde, na semana passada. Por causa de outra guerra.

Não a guerra da Argélia, que tanto o perturbou e, afinal, o constrangeu a um controverso silêncio na segunda metade da década de 1950, mas a segunda mundial, na qual só pôde combater com sua arma mais eficaz, as palavras.

Isento do serviço militar por seu frágil pulmão, Camus era jornalista em Argel quando a guerra estourou, em setembro de 1939. Editava Le Soir Républicain, folha diária que fundara com Pascal Pia duas semanas depois da invasão da Polônia. Para a edição de 26 de novembro preparou um artigo-manifesto sobre a liberdade de imprensa e os deveres do jornalista que a censura vetou na íntegra e misteriosamente desapareceu entre os guardados do escritor. E inédito permaneceria se a colaboradora do Le Monde Macha Séry não o tivesse encontrado, junto com outros, nos Arquivos de Ultramar, em Aix-en-Provence.

“Difícil evocar hoje a liberdade de imprensa sem ser tachado de extravagante, comparado a Mata-Hari ou confundido com o sobrinho de Stalin.” Assim Camus abria seu manifesto, que ao todo continha 1.287 palavras e não era assinado. Séry comprovou sua autenticidade – e também a dos demais textos por ela exumados nos arcanos da polícia, ao largo dos quais passaram batido todos os biógrafos e estudiosos do escritor.

“No entanto”, prosseguia Camus, “essa liberdade é uma das faces da liberdade tout court e sua obstinada defesa, a única maneira de vencermos realmente a guerra.” Recomendava que se evitassem “lamentações inúteis ante um estado de coisas que não pode ser evitado”, pois a questão na França, àquela altura, não era mais saber como preservar a liberdade de imprensa, mas descobrir como, sem ela, um jornalista podia continuar livre, independente. Não era uma questão coletiva, mas individual. E presente nas situações de guerra e em ditaduras. Ou seja, uma questão sempre atual.

Pela prescrição camusiana, o jornalista, para ser livre, precisa manter-se lúcido, desobediente, irônico e obstinado. Ser lúcido é resistir aos estímulos da ira e ao culto da fatalidade, e desse modo evitar a difusão de notícias que possam excitar o ódio ou provocar desespero. Como não pode dizer tudo o que pensa, se omitir o que não pensa ou aquilo em que não crê estará cometendo um ato de desobediência à altura das suas possibilidades – ou praticando uma “liberdade negativa”, de longe a mais importante de todas, segundo Camus, na medida em que abre caminho para o surgimento da verdadeira liberdade. Não servir à mentira é servir à verdade pelo avesso.

A ironia, na visão de Camus, é “uma arma sem precedentes contra os poderosos”, complementar à dissidência, com a vantagem de nos permitir muitas vezes dizer a verdade e não apenas rejeitar o que é falso. Referia-se à ironia socrática (jamais praticada por Hitler, ressalta), em detrimento do tom indignado e dogmático em geral assumido pelos dissidentes, presa fácil para qualquer censor. A mesma verdade dita de forma irônica tem o dobro de chance de passar pela censura. “Isso explica por que jornais como Le Merle e Le Canard Enchainé conseguem publicar tantos artigos corajosos”, complementa Camus. Isso também explica o sucesso do semanário carioca Pasquim, durante a ditadura militar.

Por fim, a obstinação, “virtude cardeal” sem a qual as outras não se sustentariam eficazmente. São muitos os obstáculos impostos pela guerra e as ditaduras, mas os mais esmorecedores não seriam os mais severos, e sim os outros, mais insidiosos: “a tolice perseverante, a pusilanimidade organizada e a estupidez agressiva”, a serem combatidos obstinadamente.

Os quatro mandamentos do jornalista livre são temas que atravessam toda a obra romanesca de Camus e estruturam sua reflexão filosófica. Há trechos do artigo revelado por Macha Séry que reapareceriam, quase literalmente, em O Homem Revoltado. Durante os quatro meses em que trabalhou sob o tacão de Lorit, o capitão censor, Camus defendeu as causas certas, combateu a miséria alimentada pelo colonialismo francês no Magreb, o excessivo determinismo social de alguns pensadores (“os acontecimentos políticos e sociais são provocados por humanos, e de seu controle não escapam”) e os “mercadores da morte” da indústria armamentista. Em 10 de janeiro de 1940, Le Soir Républicain foi fechado, deixando Camus desempregado, pronto para trocar o Norte da África pela França, onde em breve iniciaria uma carreira fulgurante, obstinadamente lúcida, livre e dissidente.

Para ele, o jornalismo foi muito mais que uma profissão, uma ocupação circunstancial, foi uma escola de vida, como o futebol e o teatro, suas outras paixões. Das coisas que nela aprendeu e transformou em lição para seus pobres discípulos, destaco uma que em muitas redações ainda não pegou: “Informar bem em vez de informar rápido, precisar o sentido de cada notícia com um comentário apropriado, instaurar um jornalismo crítico e, acima de tudo, não admitir que a política predomine sobre a moral nem esta descambe para o moralismo”.

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