Devotos

Por Rangel Alves da Costa

Que Deus seja o manto dessa moradia, diz a velha senhora. A outra acende uma vela para São Jorge Guerreiro; a solteirona amarra a fita amarela aos pés de Santo Antonio na esperança de logo arranjar casamento; a beata não sabe mais nem qual santo se apega, pois devota da Virgem Maria, se ajoelhando aos pés de Santo Expedito, jamais deixando de invocar a Santíssima Trindade.

A devoção toma conta do sertão, do sul, do agreste, corta estrada e vereda, entra na casa do remediado e do pobre. Não há moradia no azulejo, tijolo ou barro, que não tenha um habitante cuja devoção não seja exemplo maior da fé e da religiosidade de um povo imensamente apegado à proteção das santidades.

Crença em santo milagreiro, em beato santificado, em mártir do catolicismo, nas divindades criadas pelo próprio povo. E isto porque para receber devoção não precisa que o devotado seja necessariamente reconhecido pela igreja, pois a fé do povo no poder milagreiro de cada um, de repente eleva um desconhecido aos altares.

Pelos quatro cantos do país assomam inúmeras devoções a pessoas desconhecidas por muitos e principalmente pela Igreja. Cruzes são erguidas, pequenos templos construídos, os sinais são passados de boca em boca, os milagres divulgados e recompensados pela devoção. E de repente uma multidão começa a se prostrar diante da santidade criada pelo próprio povo.

Muitas pessoas que passaram quase despercebidas pela vida, mas que no percurso terreno foram caracterizadas pelas boas ações, por uma vida dedicada a ajudar o próximo, ou mesmo porque morreram de forma inesperadamente trágica, não é difícil que tendam a operar milagres mesmo depois de muito tempo de falecimento. Logicamente que a Igreja irá relutar em reconhecer tais milagres, fato que não tem nenhuma valia para fins de devoção.

Muitos defendem que o milagre é consequência imediata da fé. Comungando neste sentido, afirmo ainda que muitas vezes nem é preciso que haja uma cura ou uma transformação física ou espiritual para que o milagre seja confirmado e o povo passe cada vez mais a acreditar no poder milagreiro daquele que foi escolhido para interceder perante Deus nas suas súplicas.

Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço perante os fiéis sertanejos, é devotado dividido em duas frentes. Durante as comemorações alusivas ao seu nome, ali estarão presentes os devotos, aqueles que fervorosamente acreditam na sua santidade e no seu poder milagreiro, e também os que estão ali já para pagar promessas pelas graças recebidas. A devoção destes já se extrema no sentido de certificar o milagre advindo do Santo do Juazeiro.

E tais milagres ultrapassam as fronteiras da crença para se transformar em realidade, em fato verificável. Por mais que se diga que tudo não passa de uma ilusão mística, fanática e ignorante do povo, ainda assim não há como desconhecer a força da fé, e nessa fé a certeza do milagre. E as provas são mostradas nas salas dos ex-votos, estando ali expostos milhares de membros do corpo humano que foram curados pelo Padim Ciço.

Por isso mesmo é que a devoção assume um patamar muito acima da simples crença, do conhecimento religioso e da prática religiosa. Diria que a devoção é a crença numa divindade, santidade ou ser que se apresenta diante do devoto de forma quase que humanizada, amiga, protetora, apta a atender seus anseios e seus rogos. Assim acontece com Frei Damião, o Santo das Missões, hoje reverenciado e tido como milagreiro em toda a região nordestina.

Diria ainda que devoção é a particularização de fé, de modo que há uma escolha e uma certeza que o escolhido, ou devotado, pode operar milagres. Talvez seja este o sentido mais aproximado quando dizem que a fé opera milagres. E tem realmente tal poder, ainda que os mais céticos afirmem que tudo não passa de uma ilusão nas mentes iletradas. Contudo, se é na mente que reside o poder transformador da pessoa, então nada mais sensato que a mesma exteriorize um poder de cura. E esta realmente aconteça.

Até hoje nem Padim Ciço nem Frei Damião foram reconhecidos como santos pelo Vaticano. A donzela da cruz sequer é mencionada pela igreja. Beatos e santos populares surgem por todos os lugares e o que se observa é o resguardo total da Congregação Vaticana. Mas a verdade é que em casos de devoção, de veneração popular, tanto faz que a Igreja estude os milagres ou não. Ou que os reconheça.

Não precisa. Devoção não é religião, mas pura fé. E quando a fé se extremiza, então o povo escolhe o santo que quer. E o melhor de tudo é que os milagres continuam acontecendo. E ninguém vai provar o contrário daquilo que o povo humilde fervorosamente acredita.

 

 

Advogado e escritor

blograngel-sertao.blogspot.com

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