Dez ações diretas de mulheres que mudaram o mundo

O grupo Sisters Uncut na estreia de “Suffragettes”

BIDISHA
DO “GUARDIAN” – NA FOLHA DE SÃO PAULO

Desde que o mundo é desigual, e que os governos permitem que a desigualdade floresça, mulheres vêm protestando. Nós realizamos marchas de protesto e greves de fome, escrevemos cartas e propusemos leis, e deixamos de lado as vias convencionais para conscientizar e expressar nossa raiva.

Pouco mais de um século atrás, a campanha para conferir o direito de voto às mulheres no Reino Unido estava chegando a seu pico de radicalismo, e mulheres perturbavam reuniões públicas, se algemavam a grades e destruíam obras de arte e o patrimônio público.

No começo deste mês, na estreia do filme “Suffragette”, manifestantes feministas protestaram no tapete vermelho em defesa do direito da mulher à provisão de refúgios.

A ação direta e os protestos das mulheres mudaram o mundo –como a greve das operadoras de máquinas pesadas na fábrica da Ford em Dagenham, Inglaterra, em 1968, que levou à histórica Lei de Igualdade no Salário de 1970. Eis alguns dos melhores exemplos, em um século de campanhas.

1. Sexta-Feira Negra, 18 de novembro de 1910
As ativistas que apelavam pelo sufrágio feminino marcharam até a Câmara dos Comuns do Parlamento britânico a fim de protestar contra a hostilidade do primeiro-ministro Herbert Asquith ao direito de voto para a mulher.

Em reação, dezenas de policiais as espancaram, agrediram, molestaram sexualmente e humilharam. A plena dimensão da violência sancionada pelo Estado dos homens contra a mulher foi explicitada, e as sufragistas retaliaram com uma campanha de quebra de vitrines e ataques ao patrimônio, pela qual terminaram encarceradas.

Suas táticas funcionaram e, depois de uma suspensão do ativismo durante a Primeira Guerra Mundial, as mulheres britânicas conquistaram o direito parcial de votar em 1918, e direitos plenos uma década mais tarde.

2. Miss América, 7 de setembro de 1968
Em Atlantic City, centenas de feministas norte-americanas se reuniram para protestar contra o mercado da carne dos concursos de beleza, o que resultou em um dos mais engraçados, mas também mais imprecisos, mitos fundadores da segunda onda do feminismo, o da queima dos sutiãs pelas mulheres para simbolizar sua emancipação do patriarcado.

Qualquer pessoa que tenha tentado queimar um sutiã –especialmente aqueles modelos pesados, opacos e cor da pele que existiam no pós-guerra– sabe que eles não queimam muito bem. As armações dos sutiãs foram arrancadas e jogadas nas Latas de Lixo da Liberdade, em companhia de sapatos de salto alto, cílios postiços, cópias das revistas “Cosmopolitan” e “Playboy”, panelas, esfregões e frigideiras –itens que as manifestantes descreviam como “instrumentos de tortura à mulher”.

O protesto deu origem a uma nova onda de críticas a uma série de coisas, como a objetificação da mulher e a feminilidade performática, os ideais de beleza e a exploração do trabalho caseiro, e essa visão da questão terminou incorporada à cultura.

3. Islândia, 24 de outubro de 1975
Estimuladas pelo ativismo do Meias Vermelhas, um grupo feminista radical, 90% das mulheres da Islândia fizeram greve nesse dia contra a exploração do trabalho doméstico gratuito da mulher pelos homens, e do trabalho feminino em geral –mal pago, mal reconhecido e mal recompensado com promoções.

Por um dia, elas não trabalharam e se recusaram a cuidar das tarefas domésticas e das crianças, e a limpar e administrar as casas. A Islândia ficou paralisada, como ficaria qualquer outro país em que isso acontecesse.

A greve demonstrou até que ponto a sociedade funciona com base em trabalho pelo qual as mulheres não recebem crédito. Passados mais de 30 anos, a Islândia é renomada como um dos países mais igualitários do planeta. Talvez todas nós devêssemos aprender com o Meias Vermelhas.

4. Willesden, Londres Norte, 1976-1978
Em um protesto que expôs preconceitos de raça e idade e a misoginia do movimento sindical, bem como a exploração da mão de obra imigrante pela indústria, Jayaben Desai liderou protestos das empregadas do laboratório fotográfico Grunswick Film Processing, em sua maioria mulheres, maduras e de origem leste-africana ou asiática.

As greves resultaram em violentos ataques pela polícia, mas em longo prazo a força das trabalhadoras asiáticas criou um desafio para o movimento sindical e promoveu maior diversidade, demonstrando ao governo e à mídia o poder dos trabalhadores unidos para defender seus direitos.

5. Afeganistão, maio de 2007
A líder política Malalai Joya recebeu todo o peso da condenação patriarcal ao denunciar os líderes de milícias e criminosos de guerra com os quais precisava dividir o espaço político do Legislativo afegão, e se pronunciou contra o apoio dos aliados ocidentais à liderança do então presidente Hamid Karzai.

Por sua bravura, ela foi privada de seu papel político, apesar do apoio de ativistas de todo o mundo. Ainda assim, o fato de que ela tenha se pronunciado colocou em questão a aprovação ocidental tácita a Karzai e desafiou a imagem ocidental da mulher afegã como passiva e simpática ao regime. Isso fez de Joya um exemplo para a dissensão política em seu país.

6. Mangalore, Índia, fevereiro de 2009
Depois que diversas mulheres que estavam se divertindo em um bar no dia dos namorados foram perseguidas, espancadas e chutadas por uma gangue de homens, alguns dos quais gravaram em vídeo o ataque, um grupo intitulado Consórcio das Mulheres Fáceis e Avançadas que Vão a Bares descobriu uma nova maneira de expressar apoio às mulheres e ridicularizar os agressores e aqueles que os defendiam.

A campanha “Pink Chaddi” enviou como presente de dia dos namorados milhares de enormes calcinhas cor de rosa ao movimento conservador Sri Ram Sena, ao qual alguns dos agressores afirmavam pertencer. O objetivo era voltar contra os agressores toda a vergonha sexual, humilhação e menosprezo que eles desejavam instilar em suas vítimas. Quando palavras de protesto não funcionam, às vezes uma calcinha gigante e cor de rosa diz o necessário.

7. Kampala, Uganda, fevereiro de 2014
A lei do governo ugandense para culpar as vítimas ao proibir “roupas indecentes”, conhecida em tom de zombaria como “lei da minissaia”, submeteu mulheres a agressões de homens que as despem na rua, e ainda as culpam pela violência que sofrem.

Os protestos das mulheres contra isso incluíram canto, dança, minissaias e cartazes que proclamavam “meu corpo, meu dinheiro, meu armário, minhas regras”. A despeito do governo repressivo, responsável por novas leis homofóbicas e misóginas, a resistência das ativistas de base está crescendo.

8. Lima, Peru, 7 de março de 2014
As feministas do Peru se vestiram de vermelho e se deitaram na rua diante do Ministério da Mulher.

A manifestação era uma celebração dos corpos das mulheres abusadas no país, que não recebem justiça ou reconhecimento, e simbolizava que o governo estava espezinhando os direitos da mulher. A linha formada pelas mulheres a um só tempo parecia uma linha simbólica de limite –não aceitaremos mais– e também uma exposição da vulnerabilidade das mulheres quando o direito a proteção contra a violência não é honrado pelos líderes políticos.

9. Pequim, China, março de 2015
O movimento feminista vem realizando jogadas astutas na capital chinesa, a despeito da repressão policial e da sabotagem. Este ano, um grupo de cinco “guerrilheiras terroristas” foi detido antes de protestos planejados para o Dia Internacional da Mulher.

O foco do protesto era a atitude do país quanto à violência do homem contra a mulher, assédio sexual e violência sexual, e a manifestação mais notável foi uma parada de mulheres usando vestidos de noiva brancos e ensanguentados.

Além da defesa desses direitos humanos fundamentais, também existe um florescente movimento “fazer acontecer”, inspirado pelo livro de Sheryl Sandberg e liderado por mulheres jovens e ambiciosas que pela primeira estão tendo de enfrentar o sexismo empresarial e do mercado de trabalho.

No começo do mês, na estreia do filme “Suffragette”, ativistas do grupo Sisters Uncut atravessaram as barreiras de segurança e protestaram contra o corte de serviços do governo às sobreviventes da violência doméstica e da violência sexual masculina.

Espero que elas atinjam seus objetivos imediatos de serviços adequados e protegidos, e dotados de verbas suficientes, para as vítimas e sobreviventes. E espero que a longo prazo, em todo o mundo, consigamos nossos objetivos de um mundo livre de desigualdade, exploração e violência masculina.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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