Dez segundos

Vivemos numa tentativa insana de sermos queridos, perfeitos e amados o tempo inteiro. E isso é impossível. Sendo assim, nos frustramos. Os outros se decepcionam. Pessoas imperfeitas banhando-se num mar de superficialidade, carregando nos filtros das fotos, planejando o melhor sorriso, secando a barriga para a calça entrar, se escondendo dos outros e às vezes até de si mesmas, porque a verdade é uma areia movediça que ninguém consegue se firmar muito tempo em cima, sem se atolar.

Eu inventei de fazer um Snapchat. Acostumada com as fotos do Facebook, com a galera dizendo “linda”, “jovem”, “você está muito bem”, foi um susto quando me vi em movimento diante de uma câmera que capta imagens durante dez segundos, as quais ficam registradas nessa rede social somente por vinte e quatro horas. Depois, as imagens se perdem. É como se existisse uma chancela tecnológica que dissesse: “Ok, você pode falar qualquer bobagem hoje, que amanhã ninguém mais vai poder ver”. Na gravação, percebi que quando eu falo, faço vincos no queijo, testa e perto da boca; tem umas partes mais claras e escuras no meu rosto e com o cabelo mais curtinho agora, estava parecendo um poodle. Foi um baque. Tal qual a voz que sai de nossas bocas e que ouvimos dentro de nós não é a mesma que os outros ouvem, a imagem que fazemos de nós mesmos também não é igual àquela que vemos nas fotos ou na gravação. Ficamos atônitos com nossas imperfeições, somos até mesmo mais intolerantes com nossa imagem do que com a dos outros. E assim vai-se tecendo uma rede de pessoas intolerantes, escravas da autoimagem, surpresas com a normalidade. Eu tirei muita onda de mim mesma nessa nova rede social. Mas, cá pra nós, sou melhor no anonimato. Amo-me mais quando não estou me vendo.

De mais a mais, o que é que dá para fazer em dez segundos? Nem um hai-cai dura tão pouco. O tempo é necessário para que dê tempo de as coisas acontecerem. Tem uma moça brasileira famosinha nessa nova rede social. Ela é bonita, fala coisas engraçadas, é espontânea, cria bordões e tem o dom de não se aprofundar em nada. Tudo tem a eternidade de dez segundos. E, acreditem, ela tem milhões de seguidores país afora e ganha muito dinheiro com isso. Pede coisas e, como num passe de mágica, as marcas se derretem por ela e mandam entregar em sua casa os produtos. De TV a sapatos; de roupas a viagens para o Marrocos. Ela é uma celebridade. Investe alguns dez segundos de sua vida para se “comunicar” em monólogo com milhões de pessoas e isso, de repente, se tornou algo lucrativo. Bom para ela. Tem talento. O que me estarrece é o desafeto pelo real. Essa abertura aos dez segundos, enquanto as horas se derramam em solidão e silêncio.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Sheyla Azevedo 20 de Julho de 2016 14:34

    As ilustrações desse site são lindas… são de lascar!

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 20 de Julho de 2016 15:40

    Essa é a parte mais difícil, nem sempre acerto, e quando não acho nada que se aproxime, saco uma ilustração abstrata. rs. Aí não tem erro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP