Dia 19 de março. Dia de ser José.

sertanejo

Conheci de perto um sertanejo, homem dado à fartura, como ele mesmo dizia: – homem de barriga cheia. A ele chamei de pai e quando era criança, no dia 18 de março, ele pegava uma tábua que escolhia no quintal, pedia-me um pedaço de giz e nela fazia um calendário. Demarcava os meses e sobre eles uma pedra de sal. Eu, menina curiosa, perguntei-lhe certa vez: – pai o que está fazendo? Ele respondeu sorrindo, mascando fumo de rolo: – curiosidade mata, mas eu vou te ensinar: amanhã bem cedinho o mês que amanhecer moiado, lá onde a pedra de sal derreteu, isso quer dizer que são os meses de chuva; se não moiá não tem chuva.

Para o sertanejo, homem crente nas lendas e apegado à poesia natural da existência, se chover neste dia o inverno será atendimento a tantas rezas e cantigas e preces.

Então ele comemora feliz, molha os olhos, assoa o nariz de tanto chorar contente, faz planos de comprar cavalo, encher os seleiros de sonhos e Maria fica contente, olha os fiinhos, que, no canto da parede, amarelos buchudinhos e mudos, desejando os menininhos um taco pão dentro da rede, sonham com um carrinho, um brinquedo da cidade: – antes que a morte chegue, pai, terei uma- bliciketa??

Maria toda feliz, limpa os olhos e o nariz, pega a lenha, faz um fogo, bota água e café na lata, um cuscuz e poucas batatas, todos assentados no chão comemoram esta data. Fazendo planos, sorriem: agora nós vamos ter fava… AH!!! MEU DEUS, ISSO NÓS VAMOS.

O caboclo toma o café, olhando os fiinhos, sorri. Chegou enfim a promessa de deserto virar verde, do gado mugir saciado, de tudo no campo florir, depois, como chefe da casa, senta cheio de fé, acaba o seu café e pita um cigarro com graça.

A vida é tão simples e tão bela, às vezes tem feijão na panela, outras só mesmo farinha, que hoje nem é mais na cuia; é numa lata amarela.

É bonito ver no quintal um mói de pano no varal, roupa fresquinha, lavada numa dança desigual, os panos parecem com o povo colorido, e nada novo, mas tudo é bonito ali, no meio daquele povo tudo é motivo de festa, porque vai chover de novo.

Os bichinhos então lhe perguntam: papai se chover nós compra um carro preu não ir a pé pra escola? Pois pai, de tão longe que é, a sola dos meus pés já quase esfola.

Enquanto aqui na cidade, quase nada é diferente, se brincar é bem pior: as valetas entupidas, a sociedade briga, num arenoso momento é o grande sentimento.

(…)

Na cidade é diferente, só os bons ficam contentes, mesmo assim com outra sorte, para andar é preciso ter bote. Nasce lixo em toda parte, ninguém sabe como descarte, há muita tristeza e dor.

AQUI CHOVE!!! Tomara que o inverno traga fartura, mas não é culpa de Deus se o mundo virar mar, cada cidade tem o governante que escolhe.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 19 de Março de 2014 15:46

    Lindo texto, minha amiga Ednar, “…Então ele comemora feliz, molha os olhos, assoa o nariz de tanto chorar contente..” E querem tão pouco, não é? Um abração e parabéns!

  2. Ednar Andrade 19 de Março de 2014 22:11

    Querem pouco,sim.

    E a dignidade ali sobra .Enquanto na cidade, falta em muita gente.

    Agradecida,amigo Anchieta*

    Vejas onde mora a diferença:

    Na cidade é diferente, só os bons ficam contentes, mesmo assim com outra sorte, para andar é preciso ter bote. Nasce lixo em toda parte, ninguém sabe como descarte, há muita tristeza e dor.

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