Dia da Mulher: para não dizer que não falei de Rose

Ela continua no mesmo lugar.

O que mudou foi a divisória levantada com alvenaria e compensados gastos para amenizar um córrego fétido, algo indescritível e inacreditável, que passa ao lado de sua casa.

A estrutura e os dejetos ficam embaixo de um viaduto, diante da antiga favela do Curtume, Bairro Nordeste, a caminho de Felipe Camarão, a menos de quinze minutos da Arena das Dunas.

Um lugar onde os urubus têm asas, onde dignidade humana é mero chavão textual de tecnocrata para avolumar projetos e projetos e projetos e projetos.

Nos últimos tempos, mudou também o número de integrantes da família, com a morte de seu bebê no quarto mês de vida, por infecção generalizada, e o assassinato da filha Janaína, em 2009, então grávida aos 13 anos de um dos traficantes da área – o alvo da emboscada. A rajada dos inimigos matou todo mundo.

Falo de Rosicleide Ferreira do Ó, uma mulher de 35 anos de idade devastada pela trinca mortal: bebida, crack e miséria.

Cerca de sete anos atrás, como repórter de Cidades do Jornal de Hoje, tive uma daquelas experiências em que o limite do jornalismo é testado: existe real interesse por aqueles seres ou era pura exploração da tragédia alheia?

Recebi a pauta do editor João Ricardo Correia – hoje na assessoria da Polícia Militar.

Tive meia hora para me aproximar de Rosicleide, entrar em sua casa e descobrir sua história. A reportagem deveria ter uma famigerada lauda – algo como 30 linhas no Word, tão limitante como dizer quem fez o quê onde quando como e porquê no primeiro parágrafo.

Enfim, a reportagem saiu.

Na manhã de hoje (07), no entanto, voltei para revê-la mais magra, às lágrimas por tudo, com mais tristezas para contar. E sem a pressão de um deadline.

Goste ou não, é disso que trataremos aqui.

15A casa

Rosicleide mora em um espaço com, aproximadamente, 40 metros quadrados. Metade coberto, metade ao ar livre.

Seus móveis se resumem a duas camas (uma de casal, outra, de solteiro), um tambor de óleo como aparador, um televisor quebrado, fogão e geladeira funcionando, um armário prestes a desmoronar e uma estante que nem os cupins conseguiram se instalar, de tanto fungo casca-grossa que domina o pedaço.

“Eu vivo da rua, peço um cumêzinho a um e a outro. É como estou contando. Tem até um senhor ali que me dá cumê, uma laranja, uma banana, qualquer coisa ele me ajuda. Às vezes, quando acordo, eu tenho que esperar alguém me dar alguma coisa, porque não tem nada. Faço fogo, limpo as coisas aqui”.

Quando chove, o pandemônio se instala na morada de Rosicleide. Ali ninguém pegou dengue, nem zika, por sorte. Ela fala que na vizinhança tem vários casos.

A origem

Quatro décadas atrás, os pais de Rosicleide saíram de Bananeiras, no lado paraibano da Serra da Borborema, coisa de 140 km de João Pessoa, em direção a Natal.

“Aqui tem mais condição. Ele era muito bom pra mim. Nunca deixou a gente passar fome. Era aposentado e balaieiro”.

Um dia, ao voltar da feira, bêbado às quedas, ele foi atropelado por um ônibus e deixou a família em frangalhos.

A mãe de Rosicleide, desde então, mora no bairro do Planalto com uma das filhas – de um total de quatro irmãos.

“Minha mãe é gêmea, Cosma e Damiana. Cosma já morreu. Agora só tem Damiana”.

A relação é conturbada. Raras são as visitas à progenitora.

“É muito longe pra ir lá. Posso ir a pé, mas minha irmã também é muito bruta. Uma vez ela me expulsou de lá”.

Morte, aborto, espancamento7

Ela estava disposta a dizer qualquer intimidade.

Contou que o dia mais triste de sua vida foi o da morte da filha adolescente – hoje mora com Jéssica (18), Jeferson (11) e Juliana (9).

Era mais uma madrugada cheia de pedras no cachimbo de plástico. Rose, como também é chamada, perambulava pelas ruas do Bairro Nordeste, por volta de três horas da madrugada. Sabia onde Janaína estava.

Convulsionada no olhar incerto e avermelhado, Rosicleide chorou ao relembrar o episódio.

“Tu sabe, né? Pegaram os dois dormindo. Ele botou ela pra fumar bagulho, porque ela não fazia essas coisas. Aí pronto. Ele batia muito nela. Uma vez ele bateu tanto, cortou o cabelo dela. Tive muito problema com ele. Ele queimou meu barraco e tudo. Queimou tudo. Me ameaçou de morte muitas vezes. Ele está no cemitério com ela. Mataram os dois”.

Pergunto se Rose ainda fuma – sete anos atrás, confessou.

“Eu fumava pedra, agora tomo só cachaça. Já fumei muita droga. Já tive duas overdoses de pedra. Não vou mentir. Agora não fumo nem maconha. Até o cheiro da maconha me dá dor de cabeça”.

Senti hálito de cachaça algumas vezes, durante o papo.

É capaz de vizinhos mandarem mensagens negando tudo. Mas, o que fazer? Conferir com várias fontes se isso é verdade? Ouvir os dois lados? Mandemos a cartilha jornalística pro escambau.

O drama quase reapareceu em Jéssica, sua atual filha mais velha.

Bonita, jovem, ela sofreu agressões múltiplas do companheiro, outro traficante da redondeza, de quem chegou a engravidar (ele está preso e ela perdeu o nenê).

Rose aponta para a filha e diz:

“Essa aqui ficou doida e não quis estudar mais. Já meu filho botei no colégio, que a madrinha dele e o padrinho é tudo gente de bem. Ela é a diretora do colégio”.

Seu ‘Jefinho’ pede dinheiro em ônibus e sinais de trânsito.

11 (1)O cão Arengueiro tinha estancado o latido.

Uma música nos chegava abafada, indefinida, como a trilha de um cenário distinto – ao sair, percebi que na seleção do vizinho tinha “Poker Face”, de Lady Gaga, e “How Can I Go On”, do duo de Freddy Mercury com a soprano catalã Monserrat Caballé.

De repente, entra um rapaz de franja aloirada e diz:

“Bicha, tá pegando fogo ali no barraco. Pegue água, mulher”.

Solta na conversa, Rosicleide esqueceu que um frango cozinhava em um fogareiro armado no centro da parte descoberta. Com dois baldes, ela cessou as chamas. Isso a fez reviver o dia em que o namorado de Janaína tocou fogo no barraco da ‘sogra’ e a ameaçou de morte.

“Aqui hoje é calmo, ninguém mexe comigo. Mas já foi ruim, não vou mentir. Mataram os bandidos tudinho daqui. A gente dorme tudo tranquilo”.

Mataram também uma amiga de Rose, na semana passada.

Palavras como empoderamento e feminismo passam longe de seu cotidiano.

Com frequência, apanha do pai de seus filhos – ele mora nas imediações, procura Rose sexualmente, vez ou outra, mas recusa assumir qualquer relacionamento.

“Às vezes, a gente briga, ele me bate. Essa semana mesmo a gente já brigou. Botei pra fora e não aconteceu mais nada. Mas quando ele está daquele jeito [bêbado], você já sabe como é que é. É costume já. Quando ele está assim, é muito perigoso, ele é muito agressivo”.

8O homem de 46 anos trabalha como pedreiro e pintor. Ainda que a violência seja rotineira, as filhas sustentam sua liberdade, segundo Rose. Denuncia-lo está fora dos planos. Insisti nessa questão.

“Não denuncio porque ele é pai. Ele gosta muito dos meninos. Dessa parte aí, não vou mentir. Uma vez pensei em denunciar ele. Ele tinha dado em mim com uma faca de serra. Aí eu tomei a faca e enterrei, escondi. Fui chamar a polícia. Quando chegaram aqui pra levar ele, essa bonitinha aqui, a outra li também, se agarraram no pescoço dele e nas pernas. ‘Mãe, não deixe levar meu pai’. Ficou por isso mesmo. Ele não é má pessoa. Só quando bebe que fica assim”.

O cheiro da fumaça se misturou ao do rio-esgoto predominante (sempre). Rose nos acompanhou até a ponte improvisada que liga sua casa à parte mais movimentada do trecho da Travessa dos Transmissores, no Bairro Nordeste. Ela ensaiou uma pose diante da fachada. Jéssica, Juliana e Arengueiro também saíram. Um vizinho gritou:

“Bota um fio dental aí”.

Uma sorridente Rosicleide disse na despedida:

“Sou feliz todo dia. Amo muito meus filhos, dorme tudo comigo. Não é porque você é assim que vai botar seus filhos no fogo. Você tem que tirar. Mas se não quer sair, não posso fazer nada”.

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Fotografias: John Nascimento

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