DIA DA POESIA: A palavra na madureza dos poetas

A palavra, tal qual o fruto, também amadurece. Nem sempre adocica, mas chega ao ponto ideal. É o momento do encaixe da palavra exata, o último tijolo na construção já erguida. Acredito no poema perfeito. Se não para você, para outros. Se não para outros, para você. Perfeição é quando desperta sorriso, sensação de leveza, surpresa; arrebatamento. E aqui estão alguns dos semideuses da poética potiguar. São poetas tingidos dessa madureza. Alguns no outono, outros nos crepúsculo da palavra. Mas todos reconhecidos, publicados e talentosos. São apenas 26 de centenas. E com alguns presentes ao leitor, como um poema inédito de Adriano de Sousa e de Cefas Carvalho, além de lembranças de Sanderson Negreiros, Alex Nascimento, Antônio Francisco… E nossas divas, tantas! Para começar, duas metalinguagens de mesmo título, com Marize Castro e Diva Cunha. Amanhã, postaremos os deuses do nosso Olimpo poético. Boa leitura!

A POESIA

A Poesia deve ser clara, leve
nada, tudo, alada.

A vida já é tão pesada
farsa, fétida, horror.

A Poesia deve ser cor, silêncio
sibilo de estrelas.

A vida já é veneno, seta
tantos cancros já medram, tantas relvas já secam.

A Poesia deve ser ar, matéria-prima
reinvenção, verdade.

A vida já é fealdade, podridão
cólicas, cadáveres.

A Poesia deve ser estiagem, flor, perfume de criança
poemas de Emily, contos de Mansfield.

(Marize Castro, Lábios Espelhos, Editora Una)

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POESIA

Espero o poema
a chuva do céu
os pássaros nas árvores
a manhã pintada de novo

espero o sol redondo do poema
sua circunferência legítima
raiando o dia em fatias finas

espero de prontidão
nas portas, nas janelas
no leite quente das manhãs
no pão dormido das almas

espero no silêncio das vozes
no ranger dos passos na escada
nas águas correndo subterrâneas
na cidade acesa como uma vela

espero o poema
no rigor de todas as esperas

As camisas úmidas da poesia
moldam o corpo

A carne cresce em silêncio
flor carnívora

Entre ela e as palavras
um sumo forte escorre

(Diva Cunha, Resina, Editora Una)

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DE UM POEMA INACABADO PARA OSWALDO LAMARTINE

Os cabras do sertão
matam-se como vivem:
feito bichos brutos
que a vida escorna
sem piedade
e a Caetana recolhe
menos por interesse
mais por obrigação.
(…)

Lâmina é para o que não tem
onde cair morto
(…)
gume de faca cega
ou de foice enferrujada
a cortar o fio frouxo.
É antiestética:
as tripas expostas descompõem
o solene que há de haver
no quadro final.
(…)
E há o excesso de cor
tingindo de drama e grito
o derradeiro suspiro.

Remédio é para preguiçosos,
que não querem morrer deveras:
querem apenas dormir
para acordar neste outro mundo
onde mortos e vivos
já não disputam
o mesmo palmo de chão.

Veneno é para os mofinos,
com gasturas na alma:
poetas sem poesia,
donzelas de romance,
manteúdas abandonadas,
esposas traídas,
mocinhas descabaçadas,
toda sorte de loucos varridos.

Corda é anti-higiênico,
dá trabalho ao papa-defunto.
O cristão vaza-se em mijo
e merda
baba feito epilético
desperdiça uma ereção.

Bala de 38, sim,
é serviço limpo:
morte matada,
não morrida,
sem estética ou filosofia.
Bilhete de mão firme,
caligrafia de asceta,
sem rascunho ou emenda:
o ponto final
pingado a seco
direto no coração.

(Adriano de Sousa, poema inédito)

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SILÊNCIO E MAIS

quando fico sem palavras,
é saudade instrumental.

(Iara Maria de Carvalho, Milagreira, Casarão da Poesia)

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VENEZA DORME

perder-se
num labirinto
aquático
tornar-se
um casanova
sifílico
levar a
gôndola a
endereço
estático
impor-se
alta fama:
raquítico
mas se o mar
te leva?
o adriático?
mas se o rio
te traga?
ar de asmático?
e se o doge
te impõe
um vão destino?
menino…
menino…
tadzio,
tadzio,
nada é trégua
nada é régua
veneza é só
um sopro
n’água
não te engane
desta vez
a tua mágoa
veneza é
cristal partido
de murano
veneza é certeza:
naufrágio
insano
nem são marcos
a salva
em seus canais
no campanário
dos olhares
abissais.

(Lívio Oliveira, O Teorema da Feira, edição do autor)

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NATUREZA MORTA

Os filhos já estão donos de si
e de sua confusão.
As contas do fim do mês são
menores, como são medíocres
os dias que passam.
A vida se passa lá fora, nos rumores de tudo
que acontece.
Na sala de jantar, a natureza morta
estampa o silêncio
do amor evaporado.

(João Batista de Morais Neto, O Veneno do Silêncio, Editora Sebo Vermelho)

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AQUELA DOSE DE AMOR

Um certo dia eu estava
Ao redor da minha aldeia
Atirando nas rolinhas,
Caçando rastros na areia,
Atrás de me divertir
Brincando com a vida alheia.

Eu andava mais na sombra
Devido ao sol muito quente,
Quando vi uma juriti
Bebendo numa vertente.
Atirei, ela voou.
Mas foi cair lá na frente.

Carreguei a espingarda,
Saí olhando pro chão,
Procurando a juriti
Nos troncos do algodão,
Quando surgiu um velhinho
Com um taco de pão na mão.

O velho disse: – “Senhor,
Não quero lhe ofender,
Mas se está com tanta fome
E não tem o que comer,
Mate a fome com este pão,
Deixe este pássaro viver.”

Eu disse: – Muito obrigado,
Pode guardar o seu pão…
Eu gasto mais do que isso
Com a minha munição.
Eu mato só por prazer,
Eu caço por diversão.

O velho disse: -“É normal
Esse orgulho do senhor
E todo esse egoísmo
Que tem no interior.
É porque falta no peito
Aquela dose de amor.

Se eu tivesse botado
Ela no seu coração,
Você jamais mataria
Um pardal sem precisão,
Nem dava um tiro num pato
Apenas por diversão.”

Eu fiquei muito confuso
Com as frases do ancião.
Aquelas suas palavras
Tocaram meu coração
Derrubando meu orgulho
E a vaidade no chão.

Me vali da humildade
E disse: – Perdão, senhor,
Desculpe a minha arrogância,
Mas lhe peço um favor,
Que me conte essa história
Sobre essa dose de amor.

O velho disse: – “Pois não.
Vou explicar ao senhor
Porque mesmo sem querer
Sou o maior causador
De hoje em dia o ser humano
Ser tão carente de amor.

Isso tudo aconteceu
Há muitos séculos atrás
Quando meu Pai fez o mundo
Terra, mares, vegetais.
Me pediu pra lhe ajudar
No último dos animais.

Pai me disse: – ‘Filho, eu fiz
Da formiga ao pelicano;
Botei veneno na cobra,
Bico grande no tucano,
Agora estou terminando
Este animal ser humano.

Mas ficou meio sem graça
Este animal predador…
O couro não deu pra nada,
A carne não tem sabor,
Na cabeça tem juízo,
Mas, no peito, pouco amor.

Por isso que eu lhe chamei
Pra você lhe consertar,
Botar mais amor no peito,
Lhe ensinar a amar
E tirar dessa cabeça
O desejo de matar’.

Depois disse: – ‘Filho, vá
Amanhã lá no quintal,
No casa dos sentimentos,
Perto do pote do mal…
Traga a dose de amor
E bote nesse animal’.

De manhã eu fui buscar
Aquela dose sozinho,
Mas na volta me entreti
Brincando com um passarinho
Perdi a dose do amor
Numa curva do caminho.

Quando eu notei que perdi,
Voltei correndo pra trás,
Procurei em todo canto,
Mas cadê eu achar mais.
Aí eu fiz a loucura
Que toda criança faz.

Voltei, peguei outra dose
Igualzinha a do amor,
O vidro da mesma altura,
O rótulo da mesma cor…
Cheguei em casa e botei
No peito do predador.

Mas logo no outro dia
Meu pai sem querer deu fé
Do animal ser humano
Chutando o sapo com o pé
E no outro ele mangando
Dos olhos do caboré.

Vendo aquilo pai chorou,
Ficou triste, passou mal,
Me chamou e disse: – ‘Filho,
O bicho não tá normal.
O que foi que você fez
No peito desse animal?’

Quando eu contei a verdade
De tudo aquilo que eu fiz
Pai disse tremendo a voz:
– ‘Eu sei que você não quis,
Mas você botou foi ódio
No peito desse infeliz.

Esse bicho inteligente
Com esse ódio profundo,
Com pouco amor nesse peito
Não vai parar um segundo
Enquanto não destruir
A última célula do mundo.

Depois daquelas palavras,
Chorei como um santo chora.
Quando foi à meia-noite
Eu saí de porta afora
E nunca mais eu pisei
Na casa que meu pai mora.

Daquele dia pra cá
É esta a minha pisada,
Procurando aquela dose
Em todo canto da estrada,
Pois, sem ela, o ser humano
Pra meu pai não vale nada.

Sem ela, vocês humanos
Não sabem dar sem pedir,
Viver sem hipocrisia,
Ficar por trás sem trair
Nem distante do poder
Nem discursar sem mentir.

Sem ela, vocês trucidam
E batizam os crimes seus.
Na era medieval
Queimaram bruxas e ateus
E perseguiram os hereges
Usando o nome de Deus.

Sem ela, foram pra África
E fizeram a escravidão…
Com os grilhões do preconceito
Escravizaram o irmão
Com a espada na cintura
E uma bíblia na mão’.

O velho disse: – “Perdoe
Ter tomado o tempo seu.
Consertar vocês, humanos,
É um problema só meu.”
Aí o velho sumiu
Do jeito que apareceu.

E eu fiquei ali em pé
Coçando o queixo com a mão,
Pensando se era verdade
As frases do ancião
Ou se era tudo fruto
Da minha imaginação.

E naquele mesmo instante
Vi passando na estrada
A juriti que eu chumbei
Com uma asa quebrada,
Mas não tive mais coragem
De atirar na coitada.

Joguei fora a espingarda,
Voltei olhando pro chão
Procurando aquela dose
Nos troncos do algodão
Pra guardá-la com carinho
Dentro do meu coração.

Se acaso algum de vocês
Tiver a felicidade
De encontrar aquela dose,
Eu peço por caridade
Derrame todo o sabor
Daquela dose de amor
No peito da humanidade.

(Antônio Francisco, Dez Cordéis Num Cordel Só, Editora Queima-Bucha)

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A MEMÓRIA

a memória —
perfumaria da alma —
e suas pequenas inutilidades
pesam constantemente
sobre as vigas frágeis
do corpo

a maldição da memória
reinventa o tempo —
que já não carece ser
inventado —
e torna amargo
qualquer sabor pueril

apenas o tempo —
nem outra coisa —
é menos útil que
uma lembrança precisa

(Theo G. Alves, Pequeno manual prático de coisas inúteis, Editora Flor de Sal)

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SISMOLOGIA

entendo de vazios
de fomes
e de cios
alimento bestas
engulo abelhas
e trovões

entendo de abismos
desfiladeiros, depressões
de sismos
de frações
e de inteiros

entre terremotos
abalos sísmicos
e devaneios
forjo meu paraíso
nos escombros
e nos entremeios

(Cefas Carvalho, poema inédito)

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CANÇÃO DO BECO DA QUARENTENA

Aqui, arcos de sólido abandono,
Restos da hora.
Inúteis delíquos à luz dos círios de outrora.

Aqui, o beco inicia seu caminho de ser
Cântaro de sombras
A amparar solidões amordaçadas.

Estreito caminho desabitado por pássaros
E primaveras; passos da tarde, leves de antigos,
Paço do perdão.
Caminho de íntimos cansaços,
Vacilações da morte em vida
– escolha entre os milagres mais desesperados.
Desespero calado como se não houvesse navio para
[partida.
De repente, se entreabre a noite
Sobre a decaída, na ternura adolescente da mulher
Que apalpa o ventre com longos dedos, a chorar,
Para enternecer e entender os filhos.
(E eles morreram devagar).

Mais do que simples espaço da noite aflita,
Longo traço de vida marca esta mulher esperada,
Capaz de ainda se arrepender, de madrugada.

Então, o beco não mais termina em aspereza,
Amanhece puro, como de surpresa.

(Sanderson Negreiros, publicado em Poesia Viva de Natal)

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MANHÃZINHA

toda vez que a lenha estalava no fogo
o cheiro do café gritava,
acordando todo mundo.

(Wescley J. Gama, Com a força das folhas que estiveram vivas, Coleção Mossoroense)

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DESMEMÓRIA

Para cada dia vivido
um é desmanchado:
“Menina, você não é feita
de açúcar, pode tomar chuva!”
Mas meus dias eu apago.

Então o medo da morte.
Menos a surpresa de uma rota desconhecida
mais a incerteza de um narciso invertido:
sob as águas mirar da vida recém saída
a memória recuperada.

Andar ao mesmo tempo
por duas estradas
por quantas estradas
espelhos entre espelhos
de chuva receios.

(Anchella Monte, Entre Tempos, Sarau das Letras)

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SEM TÍTULO

falves_silva33

(Falves Silva)

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GALERIA

O que em Tarsila instiga
ao tempo em que embevece
é da terra o tropical olor
exalado das firmes pinceladas

A vertigem das cores
em Frida Khalo
é da dor lancinante grito
na alma latina enraizada

No delicado traço de Tomie
o oriental saber a lucidez
contributos no novo continente
às cores da arte universal

(Rizolete Fernandes, Sarau das Letras/Trilce Ediciones)

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MARIA EGIPCÍACA

Nem a deuses, nem a homens,
Meu corpo eu dei a travessias
e clarividências.

Eu não era dos homens
quando suas espadas me penetravam,
nem era das mulheres
quando com suas línguas me invadiam.

Meu corpo aceitou muitos espíritos,
mas a nenhum deles pertenceu
porque uma mulher nunca é de alguém
a não ser que ela mesma o proclame.

Vaguei no deserto quarenta anos,
não quarenta dias.
Alegre e triste fui, triste e alegre.

Depois desbotei tristeza e alegria
e a cidade celeste abriu-se
e um profeta guiou-me a sua entrada.

(Carmem Vasconcelos, O Caos no Corpo, Editora Ideia)

………………

MEU ÚLTIMO POEMA

Meu último poema
chegará tarde, muito além desse tempo de
juventude mansa.

Dirá verdades que a vida me obrigou a esconder
como quem esconde um cristal.

Saciará a sede de quem vive e completará a
minha história num universo de alegria e luz.

(Maria Maria Gomes, Proposta de Chuva, Editora 8)

………………

PORTA-RETRATO

Pus
na mesinha de cabeceira
um porta-retrato
com fotos de
meus vivos e mortos.

A maioria
adormece comigo.

(Demétrio Diniz, Cinquenta Poemas, Editora Guararapes)

………………

LEI DA RUA

sou fuga
abismo de rinhas
e esquecido sonho

vou
como quem reflete
bêbados e selvas

ergo
o arco que dilacera
morros e vestes

e
espelho retorcido
recolho grama
e fumo.

(Carlos Gurgel, Dramática Gramática, Departamento Estadual de Imprensa)

………………

UM POEMA PRA NATAL

minha terra não tem palmeiras
nem corinthians
nem a torcida do flamengo

minha terra tem ribeira
esquecida
e sol no quengo.

onde canta o sabiá?
em algum cipreste
que se preste
pra derrubar.

minha terra arranha o céu…
sabe o que disse a barreira?
do inferno são os outros!
edifícios são tão fáceis…

(Carito, Atestado de Órbita, Jovens Escribas)

………………

PORÇÃO

Sempre fui
de caminhar descalça
ferindo as pedras
rangendo a voz
pisando duro o escuro
da noite.

Sempre fui
de macerar espinhos
de estancar o sangue
de remoer estalos.

Fui gerando no mormaço da manhã
a sombra de uma mulher
em surdina.

(Jeanne Araújo, Corpo Vadio, Editora Penalux-SP)

………………

HAIKAI

Ser tua perna arqueada.
Ser teu barco flecha e arco.
Ser teu zen. Mais nada.

(Jarbas Martins, 44 Haikais, Editora 8)

………………

ERA

O que um dia foi ternura e canto
Resultou em bruma
Aquela que foi bela e tua
Em pele, em pelo, em carne, em alma
Hoje é fantasma
O que era febre e entrega alucinada
Hoje mendiga na vidraça

(Iracema Macedo, Poemas Inéditos e outros escolhidos, Editora Sebo Vermelho)

………………

A RIBEIRA

A Ribeira, palafita,
Feita de carne e de água,
Barcos antigos aportam.
O vento inventou as velas
Zunindo, o Canto
Do Mangue.

O porto carrega destinos
De água
O Rio e o mar, riomar
Os navios de metal
Atracam, orgulho de bandeiras,
Porque a barra é barra e ponte
De água.

Não me convencem
Os edifícios fixos
Com facies de eternos,
Porque na Ribeira
Só o que passa
Permanece.

As mulheres da Ribeira
Moram nas casas antigas
(Porque é antigo o pecado)
Buscam os homens riomar
Feitos de água.

Alguns
Descobrem o noturno
Pela rua de São João
Pela travessa da Lua
Em busca de Wanderbar
(Que tem sacada pro rio)
Todos somos carecidos
Da assistência emocional.

A sinopse integra
O bairro aquoso
Da cidade triste
A Ribeira palafita.

(Diógenes da Cunha Lima, Poesia Viva de Natal, Editora Nordestal)

………………

ETERNAMENTE INVERNO

E mais fácil esconder um crime
Do que uma paixão.
Quando você disse que
Não me queria mais,
Senti um frio amargo
Como no dia em que sentei
No batente da calçada
Depois de olhar meu pai morto,
Mas você estava vivo:
A quem enterrar?
Seus olhos molharam
Algumas vezes enquanto falava,
Chorando por mim — senti —,
E eu imóvel, pálida, silente,
Sofrendo por você sofrer,
Encurralada por dentro, pensando
Em que número infinito pararia
A dor de um
Por outro que doía.
Contida parti,
Estranha me-encerrei
No quarto,
E tudo ali,
De livros a óperas
A pinturas a roupas
A tudo ali,
Me era tão alheio e inexistente
Quanto a Via Láctea
Antes de você.
Mas era o meu mundo
E sempre havia sido,
E esse sobretipo de mundo
Não se acaba
Pelos antes ou pelos depois
Que a gente cria em sete dias
E então descansa.
Continuei-me quieta e triste.
Tive reflexões de mais cores
Do que pode um prisma suportar.
Pensei sobre minha repulsão
A discutir sobre sentimentos,
Este torneio cansativo de pecados,
Espantosa gargalhada em funeral.
Pensei em Ronald Golias professando:
A águia subiu, subiu, subiu,
Depois desceu, desceu, desceu;
O águia, se ias descer,
Pra que subiste tanto?
E pensei que Golias me faz feliz
Até quando sei que não sou.
Pensei que você é
O melhor homem do mundo, e
Pensei coisas belas, medianas e
Vergonhosas.
Pensei que o tempo e eu
Havíamos parado de agonia,
Mas não,
Amanhã faz um século e um minuto
Que senti aquele frio,
Mas só amanhã.
O tempo não foi
Nem santo nem remédio,
Também não é doença
Esta saudade. Quem sabe,
A morte, enganando longamente
O dia seguinte.
Mas isso só amanhã.

(Alex Nascimento, Almas de Rapina, Fundação José Augusto)

………………

ARMA VIRUMQUE CANO

Canto o passar do tempo
e flor do tempo
– a carne.
Na primavera do corpo
o verão arde.
O sol que nasce e deita
sobre peito e prodígio.
Eu canto o dia breve.
À noite, silencio.

(Paulo de Tarso Correia de Melo, Sabor de Amar, Sarau das Letras)

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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