Dia da Poesia, razão do poema

Posto que os poetas envelheçam, a poesia parece sempre jovem e juvenil por trás das formas e palavras dos poemas. É que a aura de poeta talvez não se transfira do veterano ao neófito, num ato mecânico, mas se duplique ao simples aceno de um novo poeta, tão logo o reconheça, ao mesmo tempo em que se mantém firme na fronte e na alma do poeta antigo.

É a essa juventude impávida, exibida festivamente pela poesia, que se dedicam as celebrações de mais esse Dia da Poesia, nesse 14 de março próximo, que remete à data de nascimento do poeta Castro Alves, ele próprio autor de alguns versos mais lembrados da poesia vernacular, talvez por se apresentarem revestidos de uma retórica exaltada (“embriaguez verbal”, nas palavras de Antonio Candido), com justa razão, pelas questões sociais de sua época, especialmente o Abolicionismo.

Não foi fácil a luta do jovem baiano. Na época em que Castro Alves poetizou o drama do africano, a luta era pelo reconhecimento de sua humanidade, quando nem mesmo a Igreja reconhecia nele uma alma, tal a dificuldade de vê-la por trás da pele escura. Os navios que os traziam, como mercadoria barata às nossas costas, chamavam-se ominosamente “tumbeiros”.

Nossa época não se mostra menos conflituosa do que aquela em que Castro Alves escreveu seu bestiário poético que permanece como uma chaga aberta, uma flor sanguinolenta da nossa poesia. Referimos, claro, ao “Navio Negreiro”, mas seu estro incorporou outros temas não menos candentes.

Com obras como “O Poema Sujo”, de Ferreira Gullar, “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade, “Invenção de Orfeu”, de Jorge de Lima, “Oração pelo Poema”, de Alberto da Cunha Melo, “Demopoesia”, de Jaumir Andrade (fiquemos, por enquanto, com estes), neste “tempo de homens partidos” – como definiu o poeta de Itabira -, quem o traduziria com mais exatidão que os poetas?

Quando se cogita da necessidade da poesia, são essas questões concretas que vêm de imediato à lembrança: é graças à poesia que a clareza habita nosso mundo, ressaltando as diferenças e as semelhanças, ensinando a sentir e a expressar o sentir; educando os modos de ver a diversidade do mundo.

Daí as muitas razões que apontam para a necessidade de poesia em tempos áridos, mas não estéreis, secos, mas não ocos, em que nos é dado viver. E, outra vez, é graças à poesia que dispomos de algum antídoto contra a banalização que se infiltra nas frestas do dia, mal amanhece, no afã de corrompê-lo. E o faria, não existisse a poesia.

Ainda que fosse por pura gratuidade, o Dia da Poesia se justificaria plenamente na província de Dom Luís, ele próprio um poeta recalcitrante e arredio das musas, mas poeta, enfim. Desde Ferreira Itajubá e Ascenso Ferreira, primeiras vozes natalenses a serviço da poesia, passando pela fugidia Auta de Souza e preparando a aluvião de cultivadores da primeira musa, em nossos dias, que se multiplica em números nervosos, instáveis, porque impossíveis de precisá-los, tal a frequência com que novos adeptos se aprestam a servi-la.

Seus nomes são legião, por isso não os declinaremos aqui. Mas cada poeta, daqui e de alhures, começa a ver com mais naturalidade a passagem da poesia ruas afora, mesmo por trás de um disfarce, mesmo resultante de uma coincidência entre palavras. Não seria o caso de dizermos que as palavras parecem estar, em nossa época, sob constante tentação poética, produzindo poemas que paulatinamente recaem sobre a mesa dos poetas?Enfim, a poesia tem razões de que nosso tempo carece. É oportuno ouvi-las.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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