Dia das mulheres, exceto as negras

A noite não adormece nos olhos das mulheres

há mais olhos que sono onde lágrimas suspensas

virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.

Conceição Evaristo

Poderia apenas deixar o poema de Conceição Evaristo na integra aqui e dizer que este é uma homenagem a Beatriz Nascimento e para mim seria a síntese do que me atravessa enquanto mulher preta. Mas certas coisas precisam ser ditas, até mesmo gritadas, para que percebam. Muitos nem sabe quem foi Maria Beatriz Nascimento, então faço questão de dizer, mesmo que de forma sucinta e objetiva. Preciso tirar das minhas estranhas, do meu ventre negro, para que possa parecer palpável, tangível, o que é ser uma mulher preta, uma mulher dissidente numa sociedade racista, machista e misógina.

Beatriz Nascimento foi uma mulher preta, nordestina, nascida em 12 de julho de 1942, na cidade de Sergipe. Tornou-se historiadora, professora, roteirista, poeta e ativista pelos direitos humanos de negros e mulheres. Aos 52 anos, em 1995, Beatriz cursava mestrado em Comunicação Social, pela UFRJ e tinha aconselhado uma amiga (mulher branca, hétero e cis) a largar o companheiro, Antônio Jorge Amorim Viana (homem branco, hétero e cis), após várias reclamações de violência doméstica. Ele deu cinco tiros em Maria Beatriz, por entender que ela interferia em sua vida privada o teria ofendido em frente a seus amigos. Antônio fugiu e acabou sendo preso em um bar pela polícia civil em 9 de fevereiro de 1995. O assassino já tinha passagem pela polícia por acusações de homicídio, tentativa de estupro e uso de drogas, pelas quais já cumpria pena de 11 anos e seis meses. Porém, Áurea Gurgel da Silveira, amiga de Beatriz, prestou um testemunho falso em defesa do companheiro, alegando que a poeta era envolvida com o tráfico de drogas e com aliciamento de menores.

Veja bem, além de assassinada por tentar ajudar uma amiga em situação de violência, ela ainda teve sua honra molestada. Não bastasse a dor da perda de uma pessoa querida, a família sofreu retaliações diante a difamação e a calúnia sobre a imagem de Beatriz. O caso só se resolveria um ano depois do assassinato.  Antônio foi condenado a 17 anos de prisão pela morte de Beatriz. E Áurea foi acusada de prestar falso testemunho e respondeu processo.

Sergipana Maria beatriz Nascimento (1942-1995) foi eleita a Mulher do Ano em 1968 pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher; historiadora, poeta e ativista pelos direitos humanos de mulheres e dos negros, ela foi assassinada pelo companheiro com cinco tiros.

A poeta foi silenciada da pior forma possível, mas o que trago em reflexão está para além desta tragédia. O silenciamento, as violências contra as mulheres negras se dão nos menores aos maiores graus de desumanidade. Estamos na base da pirâmide social. A humanidade nos foi negada há muito tempo. Hoje, no dia internacional das mulheres, vi uma postagem em homenagem às poetas do estado, eram 20 homenageadas, porém apenas uma era negra, e que faleceu no século passado. Acabou a safra de poetas negras no estado? Quer dizer que desde do século passado não existe mais nenhuma? E mesmo no século passado, apenas uma existia? O dia é das mulheres, exceto as negras. Enquanto há um reconhecimento de espaço, ainda que inferior, às mulheres brancas, nós mulheres negras ficamos de porta para fora, ou de cozinha a dentro.

Algumas pessoas pode vir a contra argumentar, dizer que as coisas não são bem assim, e que todas as mulheres passam pelas mesmas violências, repressões e retiradas de direitos. De imediato retrucarei: será? Mirtes, mulher preta, nordestina, perdeu seu filho Miguel de 5 anos, que caiu do 9° andar, enquanto ela leva a cachorrinha da patroa (mulher branca, hétero e cis) para passear. Quantas mulheres negras não perderam seus filhos, sua juventude, suas vidas, enquanto serviam as mulheres brancas e suas famílias? Digo de antemão que não estou fazendo juízo de valores, ou muito menos comparando a dor de ninguém. Pois diferente do atual presidente, o “mimimi” é colado no lugar de respeito e de empatia. E por aqui eu chamo “mimimi” de dor. Apenas quero dividir com você leitora, com você leitor certas reflexões. Pois enquanto mulheres brancas lutam por revolução e corpos livres, mulheres negras lutam por sobrevivência. Enquanto muitas mulheres brancas se dedicam a estudos universitários, a maioria das mulheres pretas nem se forma no colegial, e quando conseguem ingressar à uma universidade, é por meio de cotas, bolsas, encarando jornadas triplas, quádruplas.

Por tanto, finalizo este artigo compactuando com a intelectual, autora, política, professora, filósofa e antropóloga mineira, Lélia Gonzalez. Da qual me coloca acesa na luta pela democracia racial e de gênero – Ao reivindicar nossa diferença enquanto mulheres negras, enquanto amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual. Por isso mesmo, trazemos conosco a marca da libertação de todos e todas. Portanto, nosso lema deve ser: organização já! – e só assim o dia das mulheres terá o mesmo sentido e significado para todas. Sigamos na luta! E como é bom estar de volta. Até a próxima!

Artista, poeta, jornalista, militante do movimento negro [ Ver todos os artigos ]

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