Dia de silêncios

Por Janio de Freitas
FSP

A falta de manifestações agressivas no 31 de março abre caminho para resolver impasse até aqui intratável

A AUSÊNCIA DO 47º ano sucessivo de manifestações mutuamente agressivas, no 31 de março, de representantes militares da ditadura e de parte dos seus opositores, tem significações maiores do que deu a perceber de imediato.

Pelo lado dos opositores ao golpe e aos 21 anos de regime de violência e antidemocracia que se seguiram, sua conduta, se traduzida em palavras, explicaria que “agora vemos, afinal, uma disposição honesta, no comando do governo, de não se curvar aos temores e radicalismos militares em relação aos seus feitos e à história, quando se fizeram poder absoluto”.

No lado dos militares, os três comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica reproduziram para os subordinados a instrução do ministro Nelson Jobim contra ordens do dia e outras manifestações sectárias. Mas o primeiro daqueles comandantes, general Enzo Peri, tem no caso um destaque particular. O general Augusto Heleno Pereira, com a ira que o acometeu desde que voltou da missão no Haiti, estava prestes a transgredir a instrução do ministro. O general Peri calou-o, e aos componentes do ato planejado, com uma intervenção firme. Como não houvera ainda em relação ao assunto.

O general Augusto Heleno tornou-se conhecido quando a Procuradoria da República constatou ser destinada a ele, servindo no Palácio do Planalto durante o governo Fernando Henrique, a quantidade injustificável de telefonemas do então juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, que à época fazia fortuna com o dinheiro da construção do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo.

A manifestação no dia 31 seria a última participação do general antes de oficializada, com a passagem para a reserva por prazo no posto, sua troca das fardas por uma roupinha paisana e doméstica. Mas sem motivo para frustração pelo silêncio como encerramento. Na reserva, terá mais oportunidade de se manifestar. Espera-se que até para explicar, de maneira mais convincente do que já fez, também os telefonemas do Lalau, mas sobretudo suas relações com a ONU no Haiti e sua volta imprevista e sem a extensão possível. Este último tema é de interesse amplo.

Seria exagerado considerar que a passagem pacífica do 31 de março prometa alguma coisa. Mas é inegável que pode facilitar, e muito, a relação entre o radicalismo militar e a condução de fatos como o trâmite da Comissão da Verdade no Congresso e, depois, suas atividades, se aprovada. É uma porta para a oportunidade de abordagem de um impasse venenoso e até aqui intratável.

EXPLICA-SE

Sem sair do assunto, duas memórias que explicam não só o ataque a negros e gays mas cada palavra e cada gesto de Jair Bolsonaro, sempre. Esse Bolsonaro notabilizou-se como autor de um plano para estourar, na origem do sistema, o abastecimento de água do Rio. Sua pretensa razão, como integrante de um grupo de oficiais jovens do Exército, distribuído por vários Estados: obter aumento de vencimentos. O plano foi exposto pela então mulher de Bolsonaro, em sua casa, por iniciativa dele de procurar a “Veja”.

Para quem não pode entender a eleição e as repetidas reeleições de Bolsonaro como deputado federal fluminense: em seguida àquele episódio, Bolsonaro foi incentivado a candidatar-se, com a garantia de eleitorado mais do que suficiente – os militares servindo no Estado do Rio. Desde então é como um candidato oficial com seu eleitorado cativo.

Muito verdeoliveiramente sadio.

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