O dia em que morri

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Derrota para Itália até hoje é lembrada como paradigma no futebol brasileiro; uma geração cheia de craques, como Zico, Sócrates, Júnior e Falcão, encantou o mundo com gols e jogadas geniais; para muitos, em vão, pois a felicidade do título seria inigualável, caso de 1994 e 2002; você concorda?

Ontem fez 34 anos que morri, no estádio Sarriá, curiosamente, em Barcelona.

Era uma segunda-feira, 5 de julho e fazia sol na capital da Catalunha.

Fui a Barcelona assistir a Copa de 82 e esperar o fim do jejum brasileiro, que durava desde 1970.

Mas fui mesmo só para ver o time de Telê com Zico, Falcão, Sócrates, Cerezo, Júnior e companhia.

No lado de lá estava a Itália, com alguns jogadores vindo do recém-escândalo no campeonato italiano, por compra de resultado e aposta.

Inclusive alguns foram presos, como Paolo Rossi.

Naquele dia, eu devia ter uns 58 anos, mais ou menos.

Havia visto Pelé, Garrincha e as Seleções de 1958, 62 e 70 e nunca havia estado tão confiante como naquela segunda-feira, 5 de julho.

Caminhei até o Sarriá, que não existe mais e era o estádio do Espanyol (Hoje é o ‘Jardins del Camp de Sarrià’).

Lá encontrei muitos cantando e dançando o ritmo daquela Copa para nós brasileiros: ‘voa canarinho, voa…’.

Não sabia que nós íamos voar de volta ao Brasil, em 90 minutos.

No estádio eu estava nervoso, pois já conhecia as ironias e brincadeiras sem graça dos deuses do Futebol.

Já havia visto a Hungria de 1954, a Holanda de 1974 e 78 serem derrotados encantando.

Mas imaginei que a Itália, classificada com três empates na primeira fase, não ia dificultar a minha e a nossa vida, brasileiros e amantes do futebol.

Até fiquei feliz que eles venceram e eliminaram a Argentina, assim como nós também o fizemos.

O jogo começou e a Itália parecia perfeita em campo.

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O mediano Paolo Rossi teve uma tarde de gênio, ao marcar três gols

Fizeram um 1 a 0 com Paolo Rossi.

Zico tentava se livrar de Gentile e, quando conseguiu, numa perfeita triangulação deixou o saudoso doutor Sócrates na cara do gol para empatar.

Mas Paolo Rossi parecia infernal e contou com o erro da defesa brasileira e matou. 2 a 1 Itália.

O Brasil foi atrás novamente e desperdiçou algumas chances, até Falcão empatar e disparar em direção ao banco de reservas com todas as veias do seu braço quase saltando.

Lembro que abracei pessoas que nunca vi, e comecei a chorar de emoção. Aquele gol vive no meu imaginário até hoje.

O jogo seguiu e a Itália parecia viver em outro mundo.

Nada de pressão, de medo e ansiedade.

Parecia desfilar sua objetividade em campo e marcar novamente era questão de tempo, para ir às semifinais.

Escanteio pela esquerda.

Onze jogadores do Brasil dentro da área e a bola após ser desviada encontra aquele que seria um dos maiores carrascos de nossa história futebolística: Paolo Rossi.

Nesse momento olhei para o céu, sorri e comecei a chorar. Já sabia que não empataríamos novamente.

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Reveja o primeiro gol do Brasil e note que pintura: Zico deixa Sócrates diante de Dino Zoff, então com 41 anos, para o 1×1 enganador

O empate era nosso. 3 a 2 Itália.

Meu peito apertou e após olhar para o céu novamente, percebi que uma nuvem sorria para mim com ar sarcástico.

Já sabia que 5 de julho era mais um dia de brincadeira sem graça dos deuses do futebol.

O último momento que me lembro daquele jogo, foi da defesa de Dino Zoff, com 40 anos de idade, após cabeçada de Oscar, aos 43 minutos do segundo tempo.

Achei que o Sarriá vinha abaixo. Metade da bola dentro do gol, metade fora.

Segue o jogo.

E concluí que isso é o futebol. O que seria o gol da vida de Oscar se transformou na defesa da vida de Zoff.

Nesse momento, acredito que Deus foi generoso comigo e me permitiu morrer, ali mesmo naquelas arquibancadas, embaixo do sol de Barcelona, um reduto do futebol bem jogado.

Morri e não vi mais nada, nem mesmo lá do céu.

Pensei que o jogo já devia ter terminado e que a Itália realmente havia nos eliminado da Copa.

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Final de partida, pressão brasileira, Zoff salva cabeçada de Oscar e garante classificação italiana para a semifinal

Lutei tentando acordar, imaginando que fosse um sonho. Tentei chorar e já não podia. Um portão dourado se abriu e, o que imaginei ser um anjo, tocava harpa. Não sei ao certo, mas parecia que ela tocava: ‘voa canarinho, voa…’.

Concluí: Morri.

Dia 5 de julho de 1982, após Dino Zoff fazer um milagre no Sarriá.

Recordei a manchete do ‘Jornal do Brasil’ que dizia: ‘Brasil joga pelo empate. Itália tenta milagre’.

O ‘milagre’ veio.

Não era um sonho. Não ia acordar. Não queria mais viver. E Deus foi justo comigo.

Lá das nuvens olhei em direção ao Sarriá e vi um menino chorando. Chorei de novo. Caminhei em busca de respostas e encontrei um anjo com asas, coroa e meio gordinho.

Perguntei por que ele estava chorando. Antes de ele responder, reparei que outros anjos e talvez ‘Santos’, choramingavam baixinho.

Ele me olhou com pureza e tristeza e disse: ‘era a vontade dos Deuses daquele departamento’, e apontou para o ‘Departamento dos Deuses do Futebol’.

Pensei em ir até lá, fui e bati na porta. Um deles abriu e disse:

“Já sei. Veio reclamar pelo Brasil de 1982? Você não é o primeiro”.

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Para brasileiros, a ‘lápide’ do Estádio Sarriá, em Barcelona, virou ponto de peregrinação. Fotografia: Bruno H.B. Rebouças

Respondi que não e disse:

“Só queria entender!”.

Carinhosamente, Ele me chamou de filho e disse:

“Porque era necessário. Se o Brasil de Telê vencesse, daqui a trinta e quatro anos, você não se lembraria desse jogo!”.

Deus me livrou da dor terrena de ver a Itália campeã em seguida, e ver a Seleção voltar ao Brasil e ser recebida por seus torcedores dilacerados. Soube depois que Telê foi aplaudido na sala de imprensa.

E que o ônibus do Brasil ficou atrás do da Itália e os jogadores ficaram esperando os italianos comemorarem o triunfo quando um dos jogadores disse:

“Calma pessoal, isso aqui é um sonho. O jogo é amanhã”.

Voltei ao local onde era o Sarriá em 2013. Virou um parque e um complexo de prédios. Fui com expectativa que a cabeçada de Oscar entrasse aos 43 minutos do segundo tempo e finalmente nos empataríamos aquele jogo.

A história passou.

Os escombros do antigo Sarriá nem existem mais. Um senhor lembrou-se do jogo, enquanto jogava golfe.

Dois casais flertavam e algumas pessoas passeavam com seus cachorros.

O fato é que nunca mais, nós ganharemos a Copa de 82. E mesmo hoje, com toda minha expectativa, a Itália continua passando à semifinal.

*P.S: Reencarnei quase quatro anos depois, em 20 de março de 1986. Tinha apenas cinco meses quando os Deuses do futebol aprontaram outra de suas brincadeiras sem graça. Ainda bem que não vi Zico, Sócrates e Platini perderem, no mesmo jogo, três pênaltis.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

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