O dia fraturado

Ainda que muito me esforce, quase nunca consigo concluir as tarefas do dia. Talvez porque eu estabeleça metas além das possibilidades. Talvez por alguma desorganização interna, que às vezes desmonta também o entorno exterior. Ou porque é mesmo da natureza humana essa incompletude e esse acúmulo de lacunas obrigacionais. Não é fácil. Não sou nenhum mestre do Feng Shui mental. Minhas horas, com tantos acúmulos evidentes ou aparentes, trazem sempre uma antevisão do caos, apesar de pequeno, um microcosmo em balbúrdia, como um quarto ou uma biblioteca, tudo cheio de objetos, gavetas, alfarrábios, palavras perdidas e espalhadas por sobre as camas, por sobre as mesas, por sobre as mentes.

Até gostaria de aprender algumas lições, orientar minhas desorientações cotidianas. Gil já dizia: “Se oriente, rapaz”. Por mais que eu busque, no entanto, e trabalhe por manter certa ordem nas coisas materiais e imateriais, elas teimam em se rebelar, saem do lugar a todo instante, ditam um discurso caótico, como num motim em embarcação que fura tempestades, e que fica sem comando durante os lapsos de esquecimento e de quebra da autoridade, em meio à confusão das enxurradas que vêm de cima e de baixo. E de todo lado. Pra qual lado ir?

O problema maior é que, enquanto as coisas se desalinham, o tempo continua a correr. Não vejo aquelas duas barrinhas paralelas, com a ordem calmante da pausa. O tempo está em eterno frenesi, como as águas das cheias, cheio de redemoinhos e outras armadilhas. Se não se toma cuidado é forte a possibilidade de ser tragado pelas ampulhetas gigantes que se enfileiram às margens dos nossos dias. As areias descem numa calmaria e ritmo que nos enganam, como as dunas móveis, até que nos afogam, sejamos incautos ou não sejamos. É aquele tempo de Cazuza, que não pára e nos compara o nosso presente com o que foi ontem, com o que passou.

Com o tempo correndo e as coisas tomando novas ordens, mudando de lugar e se ocultando, com São Longuinho atuando ou não, vou verificando que as pessoas também vão saindo dos lugares em que as tínhamos na mente, no coração, nos olhos. Quantas vezes olho e fulano, beltrano e sicrano já não se encontram ali, onde estava fácil de ver e ouvir. E para onde foi um ou outro? Aí, começa a pesquisa, a busca que somente cessa quando se tem a certeza que está noutro plano, partiu. Ou está com outros planos, partiu o meu coração. A partida pode se dar em vida ou fora dela. O que fica é o buraco, que trabalhamos para preencher. Pura ilusão: certos buracos jamais são preenchidos, a não ser de vazio.

O dia fica mesmo fraturado, não há mesmo o que fazer. Vale tentar uma nova arrumação, uma reforma íntima, uma revisão de metas, uma releitura de tudo, todos os livros, todas as horas, todas as honras e desonras havidas ao longo do dia partido. Vale, sim, reler os livros que ainda sequer foram lidos. Botar umas cores novas, umas variações das intranquilidades, para que algo surja diferente e ousado. Isso! Ousar no dia, enquanto ele ainda passeia pela cidade! Quando a noite vier, ousar também, não dar chance à mesmice, empreender mesmo na desesperança e na angústia. Minha mãe sempre me diz: “Comece o trabalho, seja a partir de que ponto for.” Eis a minha bússola, quebrada como o meu dia. Para onde ela apontar eu vou. Mas é preciso saber fazer as escolhas corretas, mesmo que não haja escolha, porque ninguém mais as fará. Ninguém. Por você. Por mim.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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