Dia Internacional do Poetrix

Ilustração: Darina Biriulina

Neste 26 de setembro, comemora-se o Dia Internacional do Poetrix, data estabelecida no estatuto da  Academia Internacional Poetrix – AIP, associação criada em julho deste ano. Para entender um pouco sobre a gênese deste gênero minimalista, recuemos no tempo.

Num setembro de 1999, na Bahia, certo poeta, Goulart Gomes, publicou um livro de tercetos que, antes, ele imaginava que seriam haicais. 

Contudo, em conversa com outro poeta, Aníbal Beça,  de Manaus, já falecido, que foi um dos maiores especialistas brasileiros em haicai, soube que aqueles tercetos poderiam ser qualquer gênero, menos haicai.

A partir daí, Goulart Gomes deu tratos à sua imaginação e criou um neologismo:  poetrix (poe, de poema; trix, de três versos). E elaborou o cânone do poetrix, definindo-o assim:

“Poetrix (s.m.) é poema com um máximo de trinta sílabas métricas, distribuídas em apenas uma estrofe, com três versos (terceto) e título que, quanto à sua forma e conteúdo, deve ser composto segundo e conforme dispõe, orientativamente, a Academia Internacional Poetrix – AIP, através do seu documento denominado Bula Poetrix.”

Leia “O haicai guilhermino’, de José de Castro

Com esse charme especial, aos poucos, o  novo gênero foi conquistando adeptos pelo país afora. Criou-se um Movimento Internacional Poetrix – MIP, que durou 20 anos.

Vários concursos internacionais de poetrix aconteceram e diversas antologias foram publicadas com a participação de poetas de todos os quadrantes do Brasil e também de outros países.

Dentre estes, podemos citar Portugal, Espanha, Argentina, Uruguai, Colômbia, EUA, México, Suíça, Angola, e Venezuela. E o poetrix prossegue em sua jornada de expansão.

O mínimo é o máximo

Num setembro de 1999, na Bahia, certo poeta, Goulart Gomes, publicou um livro de tercetos que, antes, ele imaginava que seriam haicais. 

No mês de julho passado, com base na experiência acumulada no MIP, a partir  das ideias de Goulart Gomes e com o  apoio de vários poetas , criou-se a mencionada Academia,  no modelo francês: 40 cadeiras, das quais 22 já  se encontram preenchidas com  poetrixtas fundadores convidados pelo poeta baiano, pai da agremiação.

Uma curiosidade, e um tento lavrado, é que a AIP nasce com um equilíbrio de gênero em seu quadro: 11 mulheres e 11 homens, de todas as regiões do país, sendo alguns de fora (Argentina, USA e Portugal).

Desse total, dois são do Rio Grande do Norte: Gilvânia Machado, (autora  de Rendas & Fendas, livro solo de poetrix, 2014), ocupando a cadeira 08, tendo como patronesse a primeira haicaísta do Brasil, a paranaense Helena Kolody; e José de Castro, (autor de  Poetrix, livro  para adolescentes, MEC/PNDE, 2013) cadeira 11, sendo patrono de sua cadeira o escritor e poeta Paulo Leminski, também paranaense.

A academia tem como lema: “O mínimo é o máximo”, que  bem define o ideário dos que produzem poetrix. São poetas que sabem a importância da rapidez e da leveza que a poesia precisa para ter maior penetração e visibilidade, em acordo com os ensinamentos do escritor e teórico italiano Ítalo Calvino, recomendado pela Bula Poetrix.

No artigo 19 do seu estatuto,  a AIP consagrou o dia 26 de setembro como sendo o Dia Internacional do Poetrix, por ter sido a data em que o livro “Trix – poemetos tropi-kais”, de autoria de Goulart Gomes,  foi lançado em Salvador, trazendo 51 de seus poemas.

Vejamos alguns desses poetrix:

SERTÃO
sopa de pedras: nem ossos
de bichos mortos
já nos restam
(Goulart Gomes)

ASSALARIADO
vende a vida inteira
pelo pão de cada dia
a liberdade bóia, fria
(Goulart Gomes)

DECRETO
artigo consonantal
liberdade agora é lei
parágrafo final
(Goulart Gomes)

Assembleia virtual

Assim, na noite deste 26 de setembro, será realizada uma assembleia geral virtual de acadêmicos da AIP, a qual celebrará o Dia Internacional do Poetrix com um sarau, ocasião em  que serão aprovados os textos oficiais do Estatuto e do Regimento Interno dessa associação de poetas.

Pode-se dizer que o poetrix nasceu como uma evidente alternativa ao haicai, gênero milenar oriental. Vários poetas haicaístas foram escolhidos por acadêmicos da AIP que os homenageiam como patronos  de suas  cadeiras,  tais como  Matsuo  Bashô,  Aníbal Beça, Guilherme de Almeida, Paulo Leminski e Helena Kolody, estes dois últimos já mencionados anteriormente. 

Em  face à pandemia e à crise político-econômica  e sanitária que vêm assolando o nosso país, a AIP está organizando uma antologia virtual, que depois poderá ter versão impressa, com a temática “existir/resistir”, com o título “R(E)XISTIR”, que está sendo organizada pelo criador do poetrix, Goulart Gomes (ocupante da Cadeira 01 da AIP, que tem como patrono Matsuo Bashô) e pela poetrixta Aila  Magalhães (ocupante da Cadeira 02, que tem como patrono o poeta pantaneiro Manoel de Barros).

Esta obra caracterizar-se-á como um dos primeiros feitos da  Academia neste ano de 2020, compartilhando 432 poetrix, divididos entre 36 autores e autoras do nosso país e da Argentina, de Portugal e dos EUA. Uma significativa celebração aos 21 anos do Poetrix.     

Além dessa antologia, o Poetrix já recebeu uma homenagem através de um livro digital, com ISBN, lançado na abertura dessa primavera. Trata-se da II Mostra Poetrix – Tempo de  Voar, que  traz 155 poetrix de 31 autores, entre homens e mulheres poetas de várias regiões do Brasil e uma autora convidada de Portugal.

O livro vem com a assinatura da poetrixta Diana Pilatti (autora de Palavras Póstumas, Coleção II, Vol. 5, Mulherio das Letras, 2020) como uma das organizadoras e responsável pelo projeto gráfico. 

Simplicidade e versatilidade

Vários haicaístas foram escolhidos como patronos das cadeiras da AIP,  tais como Guilherme de Almeida

Por tudo isso, pode-se dizer que o poetrix é um dos gêneros minimalistas que, depois do haicai, vem recebendo a maior consagração no cenário poético contemporâneo, no Brasil e no mundo.

Estima-se, hoje, por volta de 200 mil poetrix postados na internet, número que segue em escala ascendente.

Muito ainda se ouvirá falar desse gênero que nos encanta, tanto pela sua simplicidade quanto pela sua versatilidade em trazer os mais variados temas, sob diversas abordagens e visões que nos são compartilhadas por uma gama de poetas espalhados pelo mundo afora.

Viva o Dia Internacional do Poetrix! Viva a poesia nossa de cada dia!

Referências e links

1. Dez dicas para um bom poetrix (Goulart Gomes)

2. Um, dois, trix…poetrix (José de Castro)

3. II Mostra Poetrix – Tempo de Voar (organizadores: Diana Pilatti e José de Castro)

4. Academia Internacional Poetrix
 

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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