A dialética da mediocridade

Vivemos tempos da miséria dialética. A considerar-se dialético tudo que se confronta, se enfrenta, se afirma e se nega.

Hegel resgata da era clássica a dialética empírica e lhe dá feição idealista. A lógica, então dominante, passou a ser um método investigativo superado.

Um discípulo de Hegel, Karl Marx, repensou a dialética e revisou Hegel. Dizia ele que Hegel acertara na superação da lógica, mas pusera a dialética de cabeça para baixo. E o marxismo não só distanciou-se como passou a ser a negação crítica do hegelianismo.

Mesmo que o marxismo deteste o revisionismo, não foi outra coisa o que Marx fez com Hegel. Retirando a dialética do idealismo para sua concepção materialista. Aliás, nesse aspecto Engels foi mais a fundo do que Marx.

A negação dos marxistas ao revisionismo vem dos diversos momentos em que foi preciso justificar o poder, mesmo negando princípios originários do próprio marxismo. Até Fustel de Coulanges, equivocadamente chamado de positivista, foi tachado de “precursor” do revisionismo. Daí negou-se a importância da sua obra clássica, “A Cidade Antiga”, que se debruçou sobre a religião, organização política e vida familiar nas Cidades-Estados da Grécia e Roma.

É verdade que a dialética tem vida muito mais antiga, desde os pensadores da era clássica. Aristóteles, Demóstenes, Heráclito de Éfeso são alguns ensaístas da dialética primitiva. Também operada por Tomás de Aquino, na Escolástica.

A tese, antítese e síntese superam e substituem as deficiências simplistas da lógica. Hegel tem o mérito histórico da sua transposição para o pensamento moderno. Marx e Engels cumpriram papel semelhante, na aplicação do método dialético ao pensamento político de transformação. Isto é, no materialismo histórico.

Cuja práxis prometida, negadora do idealismo, produziu o mais fantástico fracasso histórico de quantas revoluções houve.

Pois bem. O Brasil conseguiu, sem revolução, o feito de aprimorar a dialética do fracasso. A política brasileira é “A boneca de uma menina que não tem braços”, como a felicidade que Humberto de Campos definiu.

Socialismo, no Brasil, não é distribuição de renda ou divisão de propriedade. É repasto de esmola. Demagogia.
A dialética, no Brasil, não tem tese. Só antítese, sem síntese. Desordem institucional, bagunça política, desonestidade administrativa e farsa de controle.

O único governo que propôs reformas de base, inclusive agrária, foi João Goulart. E caiu por isso. Imprensado no meio da guerra fria, travada pelo império capitalista americano contra o império militarista da burocracia soviética.

A pátria dos quartéis vendeu-se. A pátria dos políticos prostituiu-se. O povo recebeu a sucata da pátria, cujo conserto, hoje, atropela-se na dialética da mediocridade. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. François Silvestre 22 de julho de 2016 15:44

    Tudo bem, mestre Tácito. Eu tava era com ciúme pra me amostrar no SP. Abraço.

  2. François Silvestre 21 de julho de 2016 19:16

    Tácito, por quê esse comentário não foi registrado nos “comentários”?

    • Tácito Costa 22 de julho de 2016 12:52

      François. O comentário foi postado normalmente. Chequei agora e vi que está com problema, aparece e em seguida desaparece na página. Estranho! Desconfio que outros também estão com o mesmo problema. Vou falar com Fábio para ele ver o que está acontecendo.

  3. Ruben G Nunes 20 de julho de 2016 22:14

    FrançoisSilvestre-velho, um Brau ao teu artigo!!! (brau é a saudação dos ciganos – meu vô-portuga era)

    Argumentos com fundamentos sólidos e não “palavras de ordem” de marxismo-de-galinheiro.
    Tenho a impressão que nós cruzamos (mas não fomos apresentados) lá no Bar do Louro, em frente ao velho Dia´rio de natal, lá pelos anos 70-75. Quem baixava muito por lá era o velho joyciano Eulicio Farias; também nosso poetinha Jarbas, o Newton Navarro, e a boa turma do Diário. Mas estamos no mesmo vol. I do Impressões Digitais do jovem Thiago Gonzaga.

    Sou professor aposentado de Filosofia Política (UFRN), com mestrado e doutorado em Hegel e Marx.
    E te digo uma coisa interessante. Eu era esquerdóide-fanatóide. Brigava com meu orientador da Unicampo, tradutor de Kant e Hegel. Mas velho, depois que fui a fundo no Marx filósofo e no Marx crítico – aliás bom crítico – do capitalismo. E fui, ao mesmo tempo, lendo o GrandeLivrodaHistória, me livrei do ópio marxista, como diz Raymond Aron. Em vez de marxista, passei a ser marxólogo. Continuo admirando a inteligência do velho Mordechai, mas tão só como forte crítico à alienação do capitalismo selvagem. Não como um ideólogo de sua própra concepção comunista, que apresenta muitas dificuldades teóricopráticas. A História confirma. Aliás, é o próprio Marx-filósofo, dos Manuscritos-Filosóficos de 1844, que poucos leem, que afirma que o comunismo é uma força necessária contra os exageros imediatos da exploração – “mas não constitui em si mesmo o objetivo da evolução humana – a forma da sociedade humana”. Dá pra entender pq alguns autores como o malucóide-inteligente Althusser (que matou a mulher com um travesseiro) e muitos academicóides-sociolóides, esquartejam o Marx – em Marx-filósofo que nada vale pra ideologia comunista; e Marx-economista que é o cão-ideológico para as interpretações capengas da esquerdopatia revolucionária, que não olha para o própio rabo-histórico.
    Um abraço
    Ruben G Nunes, romancista e desfilósofo

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