Diálogo contemporâneo

– E aí, tudo bem?
– Tudo.
– Como ficou acertado, sobre a parte dele?
– Dois milhões. Informe que não foi possível conseguir mais, pois sempre aparece algum indispensável, que entra no bolo. Mas ele é prioridade.
-Tudo bem. É cobra criada, sabe das coisas. Mas é cismado, principalmente com essa onda de gente caindo pra todo lado. Como ele mesmo diz, uns caem outros se levantam.
– Ele tá certo. A primeira regra de segurança é não usar telefone. Nem computador. E-mails nem pensar. Tudo tem de ser no boca a boca, onde não haja câmaras ou “vizinhos” nas mesas. Os melhores lugares são Churrascarias ou shoppings. Restaurante fino é um perigo, tá assim de olho gordo.
– Por falar nisso, e aquele promotor que é seu amigo?
– Gente boa. Um mané, honesto. Não me arrisco com ele.
– Também pudera! As mumunhas legais lhe bastam.
– Pois é. Ele cuida do que lhe dá notícia de jornal.
– Que continue assim.
– Você precisa ver aquelas certidões que lhe pedi. Mas não me leve nem no escritório nem na minha casa. Muito menos aqui.
– Onde?
– No cinema do shopping. Sábado. Movimentado e tranquilo.
– Pode deixar. Tô só acertando com o rapaz do cartório, que também quer o dele logo.
– Tudo bem. Adiante o dele. Cuidado pra não escapar nomes.
– E o Deputado?
– Xii. Quer aquele prefeito na jogada. Mas pra ele só apoio e votos, dispensou a grana.
– Gente boa.
– De rocha.
– Ele também perguntou sobre a licitação.
-Tá tudo em cima. Por isso preciso que você adiante esses últimos documentos. Edital pronto, números assegurados.
– Até nos centavos?
– Claro. Milhões, milhares, unidades e centavos. Tudo anotado na placa, bonitinha, em frente da obra. Depois, vêm os aditamentos. O importante é ganhar na saída.
– Licitação é uma festa. Num se garante centavos nem em reforma de um banheiro…
– Isso num é problema nosso. Vamos cumprir a Lei, fazer a licitação e resolver tudo legalmente.
– Vai pedir o quê?
– Escalopinhos de filé ao molho de Champion. E você?
– Vou pedir uma massa. Ei, garçom! Por favor…
O garçom: “Pois não, doutores. Como vão as doutoras”?
– Vão bem. Me traz o cardápio. (Té mais).

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 1 de dezembro de 2014 11:30

    Não há Um “Diálogo contemporâneo”, mais claro que esse, no Brasil dos últimos dias…. Pena que muitos se fazem de cegos, surdos e mudos. Um abraço, mestre!

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