‘Diálogo entre leitor e texto ganhou a arena pública’

Foto: Simone Marinho

Por Silviano Santiago *
O GLOBO

Em artigo exclusivo, ensaísta analisa as transformações da crítica literária

RIO — Já no século XIX, sob o manto do Romantismo, a crítica literária brasileira ganhava lugar de destaque nas produções culturais das nações americanas libertas do poder colonial. Não só José de Alencar e Machado de Assis, nossos primeiros romancistas críticos, discutem a escrita literária do ponto de vista do projeto pessoal, como Sílvio Romero e José Veríssimo, talentosos historiadores da Literatura, desenham um sistema de periodização para as letras nacionais e arriscam julgamentos definitivos sobre autores e obras.

Machado contesta Alencar. Este defende com tal veemência uma língua selvagem e híbrida, falada no Brasil — tópico ainda atualíssimo —, que se vê obrigado a justificar sua prosa literária. Estamos nos referindo ao surpreendente posfácio à “Iracema”, intitulado “Carta ao Dr. Jaguaribe”. Já Machado prenuncia o argentino Jorge Luis Borges, ao afirmar que, na literatura brasileira, o protagonista não precisa ser necessariamente nacional. Em apoio, lembra as criações magistrais de Shakespeare.

Veríssimo contesta Romero. Este exibe sua preferência pelo nacional-popular, material sertanejo que coleta com diligência, enquanto o sensível José Veríssimo opta por visão estetizante da literatura. A preocupação com o social se choca com a inquietação pela forma no outro e perdura na segunda metade do século XX. Vê-se em Romero o professor Antonio Candido, discípulo dos cientistas sociais franceses. Em Veríssimo, o professor Afrânio Coutinho, divulgador entre nós do new-criticism norte-americano.

Não nos adiantemos tanto. A dívida impagável contraída pelos jovens de 1922 com a vanguarda europeia, aliada à festa pelo centenário da Independência, leva nosso primeiro Modernismo a bater continência à bandeira Pau-Brasil e a desfilar em ordem unida. O nacionalismo pragmático alimenta a criação e os manifestos literários, indistintamente. O entusiasmo dos jovens visa à compreensão do homem brasileiro (Macunaíma) e do Brasil indivisível (Brasília), apesar das incontornáveis discrepâncias étnicas e regionais.

A partir da Revolução de 30, o nacionalismo pragmático de 1922 será metralhado pelos vários regionalismos pessimistas e ideológicos que tomam de assalto a literatura. Opção pelo estético ou pelo político? Espírito de vanguarda ou escrita neorrealista? Valores nacionais ou regionais?

O desencontro no campo das ideias produz a mais brilhante geração de críticos literários brasileiros. Fiquemos com dois exemplos de dedicação monástica. Os sete volumes do “Jornal de crítica” de Álvaro Lins. E os 10 volumes do “Diário crítico” de Sérgio Milliet. Mas seria imperdoável esquecer o discreto Brito Broca e o enciclopédico Oto Maria Carpeaux. Os futuros pesquisadores universitários os chamarão de “impressionistas”, mas suas leituras aparentemente despretensiosas, publicadas em jornal da época, cimentam a literatura modernista e nos norteiam no novo milênio.

No pós-guerra, o primado da educação universitária sacrifica a crítica em jornal no altar do campus. A formação do crítico é especializada e a bola da vez é a história da literatura brasileira. A oposição entre velhos diletantes bonachões e sisudos moços eruditos reabre velhas polêmicas. Há que destacar o inflamável “No hospital das letras”, de Afrânio Coutinho. Nele, o controverso Embaixador Álvaro Lins é paciente ensanguentado pelas lesões sofridas.

A perturbação se generaliza. O espírito de Alencar e Machado retorna pela ação dos movimentos poéticos de vanguarda (Concretos, Neoconcretos…), alicerçados no gosto pela literatura universal e as artes da imagem. Doutores em Letras capricham em ensaios com metodologia definida e arriscam ser degolados pela oferta duma escrita poética ou ficcional. Professores viram críticos ou serão os novos poetas e romancistas? O pós-estruturalismo inventa a metacrítica. A literatura se pensa a si na própria criação, ou distancia mais e mais o leitor do livro?

Talvez estivéssemos ainda aí, não houvesse sobrevindo o computador e a internet. Nos lares, nas escolas e nos negócios, a imagem na tela — que desde a invenção do cinema e da televisão molesta a letra impressa — é sabotada pela presença contígua do teclado. Os dedos de qualquer usuário interagem com palavras enviadas pelo ciberespaço. Toda imagem é também texto, já que tudo no universo se representa e se escreve por signos — da Via Láctea à roupa da moda e ao DNA.

Espontâneo, versátil, opinativo e fragmentado, o diálogo entre leitor e texto (não mais só com o livro) ganha a arena pública e faz coro com os processos oficiais e populares de participação cidadã. Variadas formas de textos eletrônicos, críticos e poéticos se publicam nos sites, blogs e redes sociais. O jornal abandona circunstancialmente o papel e abre espaço para o comentário crítico a ser digitado pelo bom leitor. Os redatores incentivam jovens poetas e prosadores.

A interação é tão inclusiva hoje que o historiador espanhol Oliver Grau se assusta e nos lança uma pergunta sem resposta sobre a reflexão distanciada e crítica do intelectual, marco definitivo da era moderna. Será que ela ainda tem lugar nos espaços de ilusão vivenciados pela interação pós-moderna?

* Silviano Santiago é ensaísta, poeta e romancista, autor dos ensaios “As raízes e os labirintos da América Latina” e “Uma literatura nos trópicos” (Rocco), e do romance “Mil rosas roubadas” (Companhia das Letras), entre outros livros

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