Diálogo sobre a identidade cultural do Nordeste

Por Marcel Lúcio

A literatura brasileira possui uma forte tendência à tentativa de construção de uma identidade cultural para o país e suas regiões. Os escritores e leitores brasileiros têm a necessidade de afirmar, por meio do texto, a sua identidade nacional. Essa insistência em se reconhecer através do texto ficcional fez com que a estética naturalista se tornasse uma constante na literatura do Brasil. Segundo a crítica literária Flora Süssekind, em três momentos capitais da história da literatura brasileira, o naturalismo tentou espelhar, através da ficção, a realidade: na segunda metade do século XIX, com o realismo positivista; na década de 30 do século XX, com o romance social nordestino; e durante o período que vai dos anos 60 até os 80 do século passado, com a narrativa jornalística (romance-reportagem) a fim de desmascarar os desmandos da ditadura militar. Mas, não é só a literatura que tenta mitificar o real, as outras artes, como a pintura e a música, também participam desse fenômeno, além, é claro, de estudos sociológicos e científicos, da imprensa, de textos despretensiosos e, hoje, da atuação da mídia.

O problema no momento de se tentar construir uma identidade é a homogeneização envolvida no processo. Tende-se a esquecer que a realidade não é um todo igual, mas sim um lugar fragmentário e possuidor de muitas diferenças. Assim cai-se em uma posição sofista: afirmam-se determinados elementos e ocultam-se outros com o intuito de uniformizar os costumes e os modos de ser de um lugar. Geralmente, os elementos afirmados estão relacionados a interesses políticos e econômicos que movem a elite no contexto social. Por isso, deve-se desconfiar da busca cega pela verdadeira e unificada identidade. Existem interesses invisíveis que movem esse tipo de processo. E, contemporaneamente, motivados por uma série de acontecimentos históricos, os estudos na área de humanas cada vez mais tentam “desmascarar” a ilusão de identidade homogênea.

Daí, a necessidade de se observar que a identidade nacional de um país ou a identidade regional de um estado ou cidade estão em movimento, ou seja, em permanente processo de recriação, pois a identidade de um lugar é resultado de uma elaboração discursiva que almeja unificar as características mais díspares existentes em meio a uma comunidade heterogênea de sujeitos. Por isso, ao analisar a diversidade de manifestações culturais do Brasil, Alfredo Bosi assevera que reconhecer o caráter plural da cultura é um passo determinante para compreendê-la.

Nas palavras do pensador Stuart Hall, “Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”. Além disso, segundo o estudioso, “não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo a uma grande família nacional”. As sentenças que Hall emitiu sobre a cultura nacional e sobre a busca desta pela unificação dos costumes também podem ser aplicadas à cultura regional, como no caso do Brasil, país marcado por uma suposta unidade cultural nacional e que ao mesmo tempo se orgulha de possuir uma nítida divisão cultural regional.

No caso das características estipuladas ao que se convencionou denominar região Nordeste do Brasil, apoiando-se nas idéias do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, percebe-se que elas servem para perpetuar certas imagens e estereótipos – mitos – criados em meados do ano de 1910. Até essa data não se falava em Nordeste brasileiro, o Brasil era dividido apenas em Norte e Sul, classificação que já trazia em si as imagens preestabelecidas de pobreza para o primeiro e riqueza para o segundo.

Segundo Muniz de Albuquerque Júnior, a partir do momento em que a elite que dominava a região que viria a se chamar Nordeste percebeu meios de lucrar em cima de uma determinada divisão geográfica possuidora de costumes e problemas próprios, criaram-se mecanismos discursivos para representarem e instituírem o real da região. Foi assim que, como forma de arrecadar mais subsídios financeiros para si, a elite entendeu que poderia justificar a miséria do lugar por causa da seca, fenômeno natural, do cangaço e do messianismo, fenômenos sociais.

Era necessário, portanto, bastante capital para combater a seca, o messianismo e o cangaço. E, mesmo isso, não garantiria que esses problemas viessem a ser resolvidos, por isso, talvez, no futuro, mais capital fosse preciso. Até hoje, a região Nordeste precisa de dinheiro para combater a injustiça da natureza. O que não se percebe, apesar de estar claro, é a injustiça dos homens da região. Em crônica publicada em 1942, José Lins do Rego comentou uma viagem que fez ao sertão nordestino. Em meio a descrições da paisagem e do tipo humano da região, José Lins percebeu claramente a questão da representação criada para o sertanejo com a qual se deparou e sentenciou: “Sertanejo de hoje é muito criação das obras contra as secas”.

Para uniformizar o que se diz a respeito de uma região que se quer igual mesmo nas diferenças, determinadas formas de se ver o lugar foram criadas e passaram a ser reproduzidas pela sociedade e seus representantes, políticos, estudiosos, artistas. Nem sempre quem difunde os discursos de legitimação da realidade de um lugar o faz com interesse ou maquiavelismo, porque, uma vez que os discursos são tidos como verdadeiros, passam a ser citados como se fossem verdade imutável. O indivíduo, preso a seu momento histórico, não percebe que, sobre uma identidade nacional ou regional, existem fatores que não são a realidade, mas que instituem esta. É assim que autores e intelectuais combativos ao status quo terminam agindo, pensando fazer o contrário, em favor do sistema.

No entanto, os políticos são os grandes usuários da ideologia da identidade nacional ou regional, pois, ao exporem ao povo como motivo de sua carreira política a defesa dos valores do Brasil ou de sua região, alcançam a simpatia de muitos, que se sentem identificados, e deslocam a discussão da consciência de classe para a consciência nacional ou regional.

Por isso, observando a formulação do discurso de políticos nordestinos da primeira metade do século XX, Antônio Barroso Pontes, estudioso do cangaço, concluiu: “Na verdade, foram eles [os políticos nordestinos] que inadvertidamente pintaram para as áreas privilegiadas do Sul um Nordeste malsinado pela fome, doenças, sede e o drama do êxodo rural nas secas periódicas […]. E, à procura de meios financeiros […], o único retrato que exibiam da região era o espantalho do gado que morria nas fazendas, a carência de açudes, a falta de alfabetização de jovens e adultos, enfim um mundo de miséria apavorante”.

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Câmpus Natal Cidade Alta

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