No diário de bardo

Os meus olhos perseguem o sol alaranjado, até o seu repouso por detrás da linha do horizonte, onde também vejo cata-ventos cada vez maiores e em movimento que não cessa, talvez seja lá pertinho de Touros. É o que enxergo através da janela. Ainda resta colada ao céu uma última nuvem visível, contornada por azuis em degradê e muito branca no centro. A ponte já anuncia o acendimento de suas luzes multicoloridas. Automóveis e motocicletas transitam em maior volume, as pessoas retornando aos seus lares após a labuta intensa. O mar parece mais calmo. O dia vai chegando ao fim. É preciso o descanso. É preciso contemplar o resultado poético da jornada. O suor que ainda brilha sobre a testa molha as esperanças e lhes alimenta com os seus sais. É o que enxergo. É o que sinto.

Enquanto sigo no intercâmbio de palavras, signos e sentimentos, lendo o último fascículo de “K”, de Rodrigo Hammer, apreciando cenas cinematográficas e reais, bem reais, ainda percebo os vestígios que o sol deixou. Há ali aquelas cores que nos restaram. E o brilho nas pessoas. Não é a noite mais escura essa que se inaugura. Há ainda a esperança e a ousadia de fazer-se música o mundo e – etéreo – transformar-se no que quiser, no que quisermos, transportar-se em feliz viagem, pode ser para Machu Picchu ou Isla Negra, no sentido de Marvão, Toledo, Chamonix, ou de São Miguel do Gostoso, onde derem os ventos que soprarem as caravelas dos sonhos e desejos, que vão seguindo suas trilhas marítimas cheias de perigos e maravilhas.

Quero ainda, na volta, subir na bicicleta artística e ultra veloz de Fabio Di Ojuara, o austríaco, criador de mundos de ferro e frases de papel. Quero ainda vestir as roupas e os sorrisos e as dores dos palhaços tristalegres do pintor Fabio Eduardo, sonhando com as águas que cairão no Seridó encantado. Quero tanto ler os poemas de Dorian Gray Caldas nos rodapés de suas marinas transbordantes de delicadezas. Quero os mundos novos de todos os artistas, diante dos olhos, dos ouvidos, das mãos que lhes tocam os sentidos e os sons. Todas as melodias das orquestras e das vozes corais. Quero ouvi-las nos corais da Praia do Forte. Quero a beleza das palavras brutas e polidas de Adélia Danielli. Quero os rugidos da história nas antigas fotos natalenses que Eduardo Alexandre Garcia, o Dunga, expõe na virtualidade comunicativa e comparativa dos tempos e das populações sociais. Quero viver uma Natal e um país que existam nas pulsações, sem pudores afetados, mas com a ética do labor e da criação contínua.

Tudo eu remeto ao início. O fim não é o agora. Não é o fim da ágora. É o ponto primeiro, o Grande Ponto. Ainda roemos o “osso buco do começo”, que ganhamos de Haroldo de Campos e do poeta pleno de imagens, Augusto Lula. Vale também reencontrar os Vândalos tocando Rock’n Roll diante da estátua de gesso ou plástico, para quem canta Eustachio Lima. Novos livros a ler de Iracema Macedo, de Marize Castro, de Carmen Vasconcelos, de Anchella Monte, de Iara Maria Carvalho, de Maria Maria Gomes, De Jania Souza, de Jeanne Araujo, de Lisbeth Lima, de Diva Cunha, de Nivaldete, de Rizolete, de Ana de Santana, de Cellina Muniz, de Michelle Ferret, de todas. ELAS. Elas, sempre. Novos uivos do “Far from Alaska”. Novos voos do “Mahmed”. Novos enlevos do “Octo Voci”. Novas levadas do ‘Plutão já foi planeta”. Tudo tão longe e tão perto, ao alcance das pinceladas psicodélico-possibilistas de Marcelus Bob e dos acordes do rockurbano-rural de Wescley J. Gama. Tanto vigor ainda nas palavras de João Andrade, Muirakytan Macedo, Carlos Gurgel, João Batista Morais, Marcelo de Cristo, Cefas Carvalho, Alex e Carlão de Souza, Mário Gerson, Eduardo Gosson, José de Castro, Theo Alves, Alexandre Alves, Thiago Gonzaga, Gustavo de Castro, Adriano de Sousa, Pablo Capistrano. Mil e tantos outros. Lições de Jarbas Martins, Carlos Miranda Gomes, Tarcísio Gurgel, Falves Silva, Nelson Patriota, Manoel Onofre Júnior, Tácito Costa, Ivan Maciel. Muitos mil a mais, que nem cabem neste traço ou num só abraço. É hora de digerirmos as nossas dez mil crenças. É hora. É agora. Oremos. Criemos. Vivamos. E olhemos através da janela.

Comments

There are 5 comments for this article
  1. Eduardo Alexandre 30 de Maio de 2016 19:46

    Muito legal, Lívio. Alento.

  2. Rizolete Ferandes 31 de Maio de 2016 9:46

    Fui citada, tenho o direito de me pronunciar: lindo devaneio a partir da janela – lugar por excelência para VER. E essa foto maravilhosa, então!
    Parabéns, bardo!
    Rizolete

  3. Lívio Oliveira 31 de Maio de 2016 17:35

    Obrigado, amigos. Pela leitura e pelo trabalho artístico-cultural em prol do nosso povo.

  4. thiago gonzaga 1 de Junho de 2016 11:45

    Texto muito bonito..
    Aliás, como todos os outros que vc tem escrito.

  5. Lívio Oliveira 1 de Junho de 2016 20:16

    Valeu, Thiago, pelo apoio.

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