Diários de Motocicleta

Alberto Granado, entre Gael García Bernal e Rodrigo De la Serna

Por Walter Salles
O GLOBO

RIO – A notícia apareceu primeiro na internet, com a frieza característica dos meios eletrônicos: “Morre o companheiro de Ernesto Guevara na viagem de motocicleta através da América Latina.”

Logo, começaram a chegar mensagens emocionadas de todos os cantos por onde filmamos: Argentina, Cuba, Chile, Peru. A mesma pessoa que nos havia unido em torno de “Diários de motocicleta”, que ele havia idealizado junto com seu amigo Ernesto, nos reunia uma vez mais: Alberto Granado. As muitas cartas recebidas coincidiam: que sensação de vazio para aqueles que tiveram o privilégio de conhecer Alberto.

As imagens de nosso primeiro encontro voltam à tona. O jovem de 80 anos que nos recebeu em Havana para uma longa entrevista era luminoso. Para o roteiro do filme, relembrou cada etapa da odisseia vivida através de um continente que lhe era então desconhecido. Era um grande contador de histórias – cada caso soava melhor do que o outro, o que triplicou o trabalho do roteirista.

Alguns meses mais tarde, levei Gael García Bernal e Rodrigo de la Serna para conhecê-lo. A foto acima foi tirada nessa ocasião. Alberto era cinéfilo, conhecia bem os filmes que Gael havia feito e tinha visto “Central do Brasil” no Festival de Havana. Já Rodrigo era um estreante no cinema, mas isso não arrefeceu o entusiasmo de Alberto. Apoiou desde o início um ator ainda desconhecido, confiando no seu instinto. Também não se importou com o fato de que um ator mexicano iria viver o seu amigo Ernesto, argentino de origem e cubano de coração. Confiou naquele grupo improvável composto por um brasileiro, um mexicano e um argentino estreante.

Passamos vários dias com ele, e fomos aprendendo a conhecê-lo melhor. Alberto era um homem de fortes convicções, sem nunca ser impositivo ou dogmático. Tinha um humor desconcertante. Uma vez, nos ofereceu vinho “feito em casa” às 9h da manhã. Gael perguntou se era branco ou tinto. “Nessa ordem”, respondeu Alberto. “É feito de arroz. Nos três primeiros dias é branco, depois vira tinto.” Cada ocasião era propícia para seu brado de guerra: “Que buena ocasión para un brindis.”

Um ano depois, quando o filme começou a ser rodado e ele veio nos visitar, usava essa frase para comemorar um bom dia de filmagem, ou para nos ajudar a esquecer alguma frustração maior. Nunca fez reparos ao roteiro, ou a uma cena que estivesse sendo construída. Filme montado, não pediu uma mudança sequer. Fez questão de nos dar liberdade total na adaptação da sua própria vida.

Isso não quer dizer que Alberto não tenha sido determinante para “Diários de motocicleta”. Poucos dias antes da filmagem, ele percebeu o quanto estávamos tensos e liberou Gael de um peso que ele (e eu) tinha dificuldade em carregar. “Não quero me intrometer no filme”, disse para Gael, “mas se você me permite uma observação, não tente mimetizar Ernesto. Você tem a mesma idade que ele tinha quando fizemos a viagem, 23 anos, é igualmente inteligente e sensível, está lendo os mesmos livros que ele lia. Encontre a sua própria voz para viver essa história, e assim você fará justiça a ele.”

Foi uma chave fundamental para Gael – e para “Diários”. Adaptar aquela história não era uma questão de reproduzir exatamente cada etapa do relato, mas encontrar a essência da viagem. Daí surgiu a ideia de que o filme deveria ser, antes de mais nada, sobre uma escolha – a da margem do rio em que aqueles dois jovens iriam passar o resto de suas vidas.

Quando acabou a montagem do filme, algo parecia estar faltando. Fui até Havana com uma pequena equipe e pedi a Alberto para filmá-lo se lembrando do momento em que, após oito meses na estrada, os dois amigos se separaram. Filmamos um único plano. Alberto olhou para o horizonte, na direção que lhe pedi – onde o avião que levava Ernesto estaria. Foi a única vez que o vi tomado por um sentimento de gravidade e de tristeza. É o plano que fecha o filme. Até hoje, penso que aquele olhar foi determinante – ancorou o filme.

Alberto não pôde acompanhar a estreia de “Diários” no Festival de Sundance – o visto americano lhe foi negado. Mas veio para Cannes, e de lá fez questão de seguir para uma série de outros festivais. A cada nova cidade, era o último a fechar a noitada, e sempre bailava um tango com uma pessoa diferente – era exímio dançarino. Se o filme chegou à marca de 12 milhões de espectadores, foi em parte graças a Alberto e aos amigos que ele fez no caminho.

Os anos passaram, e a família de “Diários”, como todas as famílias de cinema, partiu para outras aventuras. Mas continuamos em contato com Alberto e sua família, e nos correspondíamos com constância. Até que a notícia que não queríamos ler se materializou.

“Às vezes, é preciso perder alguém para compreendermos o quanto essa pessoa foi determinante em nossas vidas”, escreveu-me Rodrigo de la Serna, ao saber da morte de Alberto. Foi uma sensação que ainda não havíamos vivenciado, a de perder ao mesmo tempo um amigo e um ponto de referência.

Alberto viveu de forma plena e coerente. Bioquímico especializado no combate à lepra, aceitou o convite de Ernesto Guevara para ir trabalhar em Cuba e nunca abandonou o amigo – ou a sua memória.

Não era uma pessoa melancólica. Para Alberto, não havia lugar para esse sentimento. Foi o que sua mulher, Delia, me lembrou quando falamos por telefone, pouco depois do seu desaparecimento.

“Foi uma morte tranquila e feliz, como uma extensão de sua vida. A biblioteca da nossa casa está cheia de flores e de música. Acabamos de ler uma carta de Gael para toda a família. Há muita claridade e luz.”

Antes de desligarmos, Délia me perguntou se havia uma garrafa de vinho por perto. Pegou um copo de tinto em Havana, e eu, outro aqui no Brasil. “Que buena ocasión para un brindis”, exclamou, ecoando o brado de guerra de Alberto.

Bebemos então à memória da pessoa única que foi Alberto Granado. Assim terminou a nossa conversa.

Um amigo chileno me lembrou que, ao perder uma pessoa próxima, o escritor Eduardo Galeano disse: “Uma parte de mim morre com ele, uma parte dele vive em mim.”

É verdade. E quanto mais penso em Alberto, mais recordo uma das aventuras mais extraordinárias que o cinema me possibilitou viver.

* Walter Salles é cineasta e dirigiu “Diários de motocicleta” em 2004

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × 2 =

ao topo