O dilema de Salter

Por Alejandro Chacofft
REVISTA PIAUÍ

Um dos melhores escritores norte-americanos do século XX lidou até o fim com a frustração de não ser famoso

No começo dos anos 70, James Horowitz, um piloto da Força Aérea americana que deixara o emprego para virar escritor, recebeu uma mensagem encorajadora sobre um de seus manuscritos. Roger Angell, editor de ficção da revista The New Yorker, mandou-lhe um bilhete: “Venha ao meu escritório para a gente conversar.”

Alguns anos antes, Horowitz, um judeu nova-iorquino formado pela prestigiosa academia militar de West Point, trocara seu sobrenome para Salter. A reinvenção não era só estética. Ele havia atuado como piloto na Guerra da Coreia, tinha feito amigos no campo de batalha, gostava do que fazia. Não conhecia ninguém no meio literário. Já tinha 32 anos. Precisava do simbolismo de um novo nome. Um pouco como o marinheiro Joseph Conrad, que, aos 36 anos, abandonou os mares para escrever, Salter abandonara os céus.

Ele encontrou-se com Angell no Centro de Nova York, em uma salinha cinzenta. Angell elogiou o conto, disse que tinha gostado muito. “É muito bom mesmo”, disse o editor, “mas eu não posso publicar.” Salter ficou surpreso. Não estava entendendo nada. “Na New Yorker temos duas regras”, Angell explicou. “A primeira é que nunca publicamos contos com obscenidades. A segunda é que nunca publicamos contos sobre a escrita, ou sobre os próprios escritores.”

Salter ficou mal com a rejeição e alguns anos depois contou a história a seu amigo Saul Bellow. Bellow, escritor prestes a ganhar o Nobel – consagrado, rico, em seu quarto e penúltimo casamento –, lembrou-se então de um encontro que tivera com Angell no começo da carreira. Ele procurara o editor da revista para oferecer partes de seu segundo livro, A Vítima. Angell recusou o manuscrito. “Na New Yorker temos duas regras”, ele disse. “A primeira é que nunca publicamos contos com obscenidades. A segunda é que nunca publicamos contos sobre a morte ou sobre os que estão morrendo.”

Como ficcionista, Salter construiu, ao longo de décadas, uma reputação por ser um narrador conciso e lírico, pouco conhecido do grande público, mas admirado – cultuado – por outros escritores e críticos literários. Muitos o colocavam entre os melhores do século XX. O epitáfio que mais circulou depois de sua morte no dia 19 de junho, aos 90 anos, foi uma descrição do jornalista Nick Paumgarten, num perfil de 2013 da mesma revista que não aceitara seu conto décadas antes. No artigo, Paumgarten diz que Salter não é um “escritor de escritores”, mas um “escritor de escritor de escritores” (a writer’s writer’s writer).

Paradoxalmente, quanto mais esse epitáfio circula, mais falso ele se torna. Aindaassim, houve algum excesso de solenidade nas apreciações póstumas sobre Salter na imprensa americana, como se os obituaristas do New York Times e do Washington Post tivessem lido muitas reportagens sobre o escritor, mas não a sua ficção. Ou então leram e não gostaram. Seja como for, os elogios – ao mesmo tempo grandiloquentes e desapegados, como num buscador de sinônimos do Word – parecem mascarar uma verdade um pouco dolorida: Salter dificilmente será, algum dia, um escritor com muitos leitores. Seus interesses são repetitivos e particulares demais; seu manejo de unidades do tempo, que pode mudar de dias a anos no mesmo parágrafo, exige uma atenção obsessiva do leitor; não há ganchos em suas histórias. Como Angell reclamara há décadas, seus personagens frequentemente são escritores, ou artistas, com as ansiedades e preocupações próprias de escritores ou artistas. Salter escreve muito sobre si.

Mas acusar um escritor de ser narcisista é como acusar um pugilista de ser violento. E os supostos defeitos de Salter, no contexto certo, transformam-se em atributos. Sua arte é a de despir, de eliminar o que não é essencial. Suas histórias não possuem tramas elaboradas, às vezes sequer possuem tramas. A ausência não tem a função de abrir espaço para as elucubrações internas dos personagens, como nos modernistas célebres (Proust, Joyce, Mann), mas sim permitir um acúmulo de episódios. A tensão nas narrativas é construída de gestos e pequenos diálogos, fragmentos que parecem vagamente relacionados.

A experiência de ler Salter é mais sensorial do que intelectual. Uma frase ou sequência de frases pode ser lida e apreciada isoladamente, pela estética ou pela concentração de conteúdo, mesmo quando não se trata de aforismo. Ele tem o domínio da frase curta que expressa unidades complexas (um estado de espírito, uma fisionomia, uma época), e às vezes lhe bastam apenas uma ou duas linhas para definir um personagem.

Do seu conto “American express”: “Ela faria qualquer coisa que a mãe não tivesse feito, e viveria exatamente como a mãe viveu, no mesmo tipo de apartamento, nas mesmas cadeiras macias.” Em “Am Strande von Tanger”, descrevendo o protagonista: “Ele está se preparando para a chegada do grande artista que um dia espera ser, um artista no sentido verdadeiramente moderno da palavra, ou seja, sem grandes feitos mas com a convicção pura de sua genialidade.” Em seu livro de memórias, Burning the Days, Salter descreve uma tia: “Ela era calma e lúcida. Tinha a paciência vasta dos insanos.” E sobre os colegas militares, ele diz: “Havia garotos da roça com nomes do tipo Homero e Ulisses, garotos que não eram frívolos e cuidavam bem de seus carros.”

A preocupação com a linguagem é minuciosa, trabalhada. Em uma entrevista para a revista literária The Paris Review publicada em 1993, a mesma na qual ele descreve o encontro com Angell, Salter define-se como um frotteur: alguém que segura a palavra e a esfrega na mão, vira e desvira, testa-a várias vezes antes de colocá-la na página. Faz certo sentido, pois Salter sempre foi um escritor lento. Em seis décadas, publicou apenas seis romances, duas coleções de contos e um livro de memórias – além de alguns poucos roteiros de filmes e um livro de culinária em coautoria com a mulher.

Em “Am Strande von Tanger”, talvez seu melhor conto, um casal de expatriados americanos está em Barcelona, e uma amiga alemã vai visitá-los. O tempo não está firme; ninguém sabe se vai dar praia. Os três finalmente resolvem sair de carro, e depois vagam pela orla. Tomam vinho, conversam. Jantam. Tomam mais vinho. Conversam mais um pouco. O dia termina.

Se a descrição soa banal, é porque é quase impossível descrever um conto de Salter. Na história em questão, só se entende o que aconteceu nas últimas linhas. Não é raro que os contos se resolvam assim, na prorrogação. Mas o efeito é menos de um cubo que se fecha, dando um sentido final à história – como na forma clássica do conto – do que o de um ajuste no globo ocular, no qual os detalhes anteriores ganham densidade e contornos mais nítidos. Ao terminar um conto de Salter, o impulso é voltar ao começo para lê-lo outra vez, lê-lo melhor.

Cada autor que se torna conhecido tem uma resposta psicanalítica própria para lidar com as rejeições do passado. E a New Yorker, pelo que representa nas letras americanas, às vezes é alvo de comportamentos reativos. V. S. Naipaul disse certa vez ao seu biógrafo: “A New Yorker não sabe nada de escrita. Nada. Escrever um artigo lá é como enviar uma carta pelo correio da Venezuela: ninguém vai ler.” Saul Bellow apontava seu livro As Aventuras de Augie March como a virada de sua carreira, o momento no qual ele parou de tentar provar para os outros e para si mesmo que conseguia escrever “como um colaborador da New Yorker”. Há certa ironia no esperneio. Bellow, Naipaul, Salter: no fim, todos foram pauta da revista ou tiveram seus perfis publicados.

Salter – sem dúvida o menos consagrado desses três – se entristecia por não conseguir deixar de ser um escritor de intelectuais, mas sempre encarou a indiferença do grande público com estoicismo marcial. E sempre pareceu mais digno do que outros no anonimato. Bellow, seu amigo, foi em certo sentido o seu oposto: talvez o mais celebrado escritor americano do pós-guerra, era sensível a críticas menores, enxergava conspirações por todos os lados; parecia achar que nunca era suficientemente admirado. A amizade entre os dois acabou aos poucos. “Não gosto de ser coadjuvante”, Salter disse, quando Paumgarten lhe perguntou sobre o assunto.

A rejeição tem o poder, quando infligida ao longo de uma vida, de cevar misantropia e reclusão. O autor rejeitado encara o reconhecimento tardio como uma chance de se vingar do público, o inimigo malévolo e amorfo. Mas Salter nunca se tornou agressivo ou recluso. Sempre deixou claro que queria ser amado. Aceitava dar entrevistas longas; aceitava fazer noite de autógrafos de seus livros. Em uma das poucas vezes em que foi chamado à tevê, no programa de entrevistas do jornalista americano Charlie Rose, em 2013, dividiu a mesa de debate com editores da Paris Review. Salter não buscava a publicidade, mas admitia que desejava a fama. Quando jovem, conheceu a glória como piloto – e sabia que não era algo menor: queria reproduzi-la na página.

Em uma das passagens de seu livro de memórias, Salter descreve um outono em Nova York, durante o mês em que Truman Capote lançou A Sangue Frio (um livro que ele admirava bastante). Capote havia oferecido uma grande festa na cidade. A lista de convidados não foi divulgada, mas soube-se que eram políticos ilustres, estrelas de cinema, magnatas. Salter acabara de terminar seu terceiro romance, Um Esporte e um Passatempo, e ao passar na frente do hotel com seu carrinho conversível, comprado durante uma temporada em Roma, ele observou as luzes, os holofotes, as mulheres “de ombros de fora, seus vestidos levemente erguidos para que subissem as escadas”. No livro ele descreve a cidade de madrugada, perto do amanhecer, quando as pessoas já estão indo embora da festa: “Na escuridão, o zumbido baixinho dos pneus na rua vazia era como uma fria mão que afaga. A cidade era só o céu que mal reluzia. Meu livro ainda não tinha sido publicado, mas seria. Ele não tinha dimensões, não havia limites para o que ele poderia ser. Estava bem guardado no meu bolso, como uma herança.”

Um Esporte e um Passatempo não se tornou o sucesso que Salter esperava, e vendeu apenas algumas mil cópias. Mas silenciosamente, sem alarde, ganhou leitores ao longo do tempo. Por muitos anos, Salter publicou quase toda a sua ficção em apenas três revistas – Paris Review, Esquire e a extinta Grand Street –, mas os editores dessas revistas tinham um fervor religioso por sua escrita.

Em 2002, já aos 77 anos, Salter teve seu primeiro conto publicado na New Yorker. O título, “Última Noite”, dá nome à coleção final de contos que o autor publicou, embora seu derradeiro trabalho de ficção tenha sido um romance, Tudo que É, lançado em 2013.

“Última Noite”conta a história de um tradutor beletrista, sua mulher e uma jovem amiga do casal. Aos poucos fica claro que a esposa está com uma doença terminal e não quer enfrentar a decadência do seu corpo. Pede ao marido que lhe aplique uma injeção. Os três saem para jantar num restaurante; a vontade da esposa é que sua última noite seja prazerosa, sem grandes percalços.

O conto não é o melhor de Salter. O uso atípico de uma trama é forçado; a reviravolta do final, melodramática; e a prosa, embora concisa como de costume, tem uma limpidez excessiva, como se as frases do autor tivessem sido diluídas com solvente – uma prosa New Yorker, por assim dizer. O parágrafo final vale-se de uma leve ironia e de um cinismo que, em quase qualquer outro escritor em atividade hoje, seria autêntico – menos em Salter. Justo nele, que nunca teve problemas em ser sincero na página, nem medo de soar sentimental, qualidades que escritores mais jovens fadados ao recurso irônico certamente desejam. O texto parece uma capitulação.

Mas há outro simbolismo no conto, que pode ser lido mais generosamente a favor de Salter. Afinal, é um texto sobre a morte, e sobre aqueles que estão morrendo – como no texto recusado de Bellow. O protagonista é um literato, como no manuscrito que Angell rejeitou no começo dos anos 70. E, se não há obscenidades, certamente há referências sexuais, e pelo menos uma menção a seios, algo que – embora já não pelo pudor, mas sim pelo provável medo do clichê – a revista não costuma publicar.

O conto pode refletir tanto o triunfo de um artista que se manteve fiel a seu ideal, como também a capitulação frente à ânsia por ganhar leitores. Esse dilema, que nunca foi trivial para Salter, no final das contas não tem resolução. Talvez as duas leituras do episódio façam sentido; talvez nenhuma. Talvez, como Naipaul sugeriu um pouco absurdamente a seu biógrafo, poucos tenham lido o conto. Talvez Bellow tenha inventado uma anedota só para agradar o amigo magoado. É um fim ambíguo, como os fins das histórias de Salter tendem a ser. Talvez seja melhor terminar assim.

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