Dilemas éticos

Por Alcione Araújo
ESTADO DE MINAS ‏

Declinam a fé e a confiança nas lideranças religiosas, degradam-se as referências políticas, a família perde autoridade num modelo em transição, a educação se reduz a adestramento para o emprego, a impunidade prova que o crime compensa. A sociedade assiste aos valores indo para o ralo e cogita de crise ética, incerta do que seja isso. Porém, certa de que toda decisão tem consequências para pessoas, instituições e sociedades. Quer uma orientação para escolher certo, mas não há regras para resolver os dilemas éticos. O pai, o mestre e o guru não sabem mais!

Max Weber falava em ética de convicção (causa que usa meios injustos não é justa) e de responsabilidade (boas causas sociais podem aceitar meios discutíveis): como o policial infiltrado que participa do crime para obter provas contra o criminoso.

Responda: 1) Pessoa muito pobre e analfabeta pode decidir sobre o seu destino? 2)Você torturaria uma pessoa para salvar a vida de 100? 3)Vale tudo para vencer na vida? Vencer a licitação? Vencer a eleição? 4) Até onde pode-se fazer promessas para atrair o cliente? 5) Dono de imóvel condenado o venderia como bom? 6) Fosse corretor, trairia o dono e diria ao cliente? A ética tira chances nos negócios? Éticos se dão mal? A rigor, age-se segundo as conveniências e violar a ética não tem consequências, nem será descoberto, diz-se: “É só essa vez”! Será a ética um luxo?

O filósofo Joshua Greene criou o dilema: o trem descontrolado vai atingir cinco pessoas que trabalham na linha. Pode-se evitar a tragédia movendo a alavanca que o desvia para outro ramal, onde atingirá uma pessoa. Você moveria a alavanca? A maioria diz sim: atitude correta é a que salva mais pessoas. Porém, há riscos: você mataria 1 milhão para salvar 5 milhões? Decisões assim avalizaram estados que arrasaram minorias em nome da maioria. E cada vida é inestimável por si!

A mesma situação, porém só com uma linha. Um objeto grande na frente do trem pode pará-lo. Um homem leva enorme mala junto à linha. Você o empurraria? A maioria diz não. Greene notou que no caso anterior usou o pensamento profundo, que dá reações emocionais, até nos que o jogariam no trilho. Em outra versão, usou a catapulta para lançá-lo – a maioria voltou a querer matar um e salvar cinco. Querem matar com máquina e não com as mãos.

É a seleção natural. Em zilhões de anos de evolução, quem matava a frio atraía violência, era morto pelo grupo e tinha menos filhos. Quem se segurava tinha amigos e mais filhos: cresceu o instinto que nos detém antes de matar, ele reflete o ambiente da evolução, não o atual; vivíamos em cavernas de lança na mão, e não usando botões e alavancas. Daí não associar alavanca e fazer alguém morrer – move-a num caso e não mata no outro.

Contando com o sigilo, o amigo lhe diz que atropelou alguém e vai se refugiar na casa da prima. A polícia o interroga, quer saber onde ele está: que diria você? Ouviram pessoas de vários países: o russo o delatou, americano mentiu para protegê-lo e o brasileiro criou histórias para inocentá-lo e culpar o pedestre, que era suicida! Certo e errado varia em cada país, mas todos têm seus dilemas éticos!

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