Dilma foi à festa da Folha! E daí?

Por Ivan Trindade – @ivantrindade

Volta e meia me vem essa impressão.

A impressão de que a esquerda brasileira ainda não entendeu que governa o país desde 2003.

Parece até que não venceu três eleições seguidas e que na última não elegeu pela primeira vez em mais de 100 anos uma mulher presidenta, e com mais de 55 milhões de votos.

Parte da esquerda segue com um imenso complexo de vira-latas.

Na noite de ontem, Dilma Rousseff foi à festa de 90 anos da Folha de São Paulo.

Não foi um almoço reservado ou um jantar na calada da noite com o dono do jornal, mas um evento oficial em que estavam presentes quase todas as grandes autoridades dos poderes executivo, legislativo e judiciário do país.

Dilma lá esteve como Presidenta do Brasil e fez um discurso bem protocolar, louvando a longevidade da publicação e deixando claro mais uma vez a posição do Brasil em defesa da liberdade de informação.

Nada mais normal.

No Twitter, porém, como dizem os americanos: “All hell broke loose” (traduzindo, o miniblog virou um inferno).

Diversos militantes, a maioria mesmo, viu na presença de Dilma uma afronta às bandeiras da esquerda, uma rendição, uma chancela ao PIG por parte do governo.

Li até gente dizendo que o discurso da presidenta tinha sido um desrespeito aos que lutaram e tombaram nos anos de chumbo.

Li também que a Lei de Meios, o famoso marco regulatório para a mídia brasileira, tinha ido para as cucuias.

Um desbocado disse que Dilma estava lambendo o cú do Otavinho.

Lendo tudo isso, me veio à cabeça uma expressão: menos, muito menos, minha gente.

Não sou ninguém, não tenho entrada em nenhum circulo interno do governo e só tenho 208 seguidores no Twiiter.

Minha opinião vale quase nada, mas preciso colocá-la.

Será que não aprendemos nada com Lula? Nada nos ficou dos 8 anos de governo do presidente mais popular da história e, a bem dizer, de toda a sua trajetória de vida?

Será que não aprendemos que hostilizar os adversários em questões de menor importância apenas tumultua o ambiente e cria um clima de discórdia que prejudica os reais debates importantes para o país?

A quem serviria uma ausência de Dilma na comemoração dos 90 anos da Folha?

Um setor da esquerda certamente vibraria com a postura de confronto da presidenta.

Por outro lado, o gesto certamente seria interpretado pelo PIG como um ato de agressão à imprensa, uma demonstração de falta de espírito democrático por parte do governo.

Sabemos o quanto demagógicos e exasperados os Merrvais, Tios Reis, Cantanhedes e etc podem ser.

Para um governo com apenas dois meses de gestão seria desnecessário. Não seria uma boa luta e precisamos muito travar e vencer as boas lutas e não perder tempo com simbolismos bestas.

Lula gosta de dizer que nunca precisou almoçar ou jantar com dono de jornal.

É verdade, mas o ex-presidente foi à inauguração do RECNOV (central de dramaturgia da Record).

Podemos até argumentar que a Record não é a Globo ou a Folha, mas não podemos exagerar e achar que a TV do Bispo Macedo é uma força de esquerda preocupada com as causas históricas do campo progressista.

É uma empresa capitalista e, um detalhe, subvencionada por uma igreja pentecostal bastante conservadora.

Todos sabemos que a Record se aproximou do governo para combater a Globo. É uma estratégia empresarial e nada mais.

Também causou horror a frase de Dilma chamando Otávio Frias, fundador da FSP, de exemplo de jornalista, ou coisa assim.

Ora, uma homenagem da chefe de estado a um homem importante, mesmo que polêmico. Quase uma figura de linguagem.

Só para lembrar, em agosto de 2003, quando da morte de Roberto Marinho, o então recém empossado presidente Lula chamou o falecido de “grande homem” e “homem de vanguarda”.

Enfim, gostei de ver Dilma lá, falando como Presidenta do Brasil, de vermelho ( isso sim um simbolismo legal), para aquele monte de gente que fez de tudo para que ela nào estivesse ali.

Para mim foi a demonstração de que aqueles ali sentados não tem mais a força que tinham. Por três vezes o povo deixou claro que pensa por si mesmo e que não segue cegamente o que uma “elite formadora de opinião” diz.

A luta contra os abusos e absurdos do PIG segue. Todo apoio aos irmãos Bocchini contra a insana censura da Folha à Falha de São Paulo e mãos à obra para termos no Brasil uma internet banda larga universal e um novo marco regulatório para a mídia.

São todas boas lutas e não temos energia para desperdiçar com os suspensórios do Otavinho.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro × 5 =

ao topo