Dimas Ferreira, poeta das pedras do Gargalheiras

Amanheço com a notícia, passada por Sérgio Vilar, da morte do escultor Dimas Ferreira na segunda-feira, 21 de março. Acari e Rio Grande do Norte perdem um grande nome de suas artes plásticas, um artista que aprendeu seu ofício na marra e viu beleza na aridez granítica da pedra. A pedido de Vilar, reproduzo aqui um artigo publicado na oitava edição da finada revista Palumbo, à época editada por Mário Ivo Cavalcanti, nos idos de 2010. Nele, Dimas fala sobre sua arte e de como desenvolveu, sozinho e na marra, sua técnica de escultura que ganhou o Brasil e o mundo. O encontro se deu durante uma viagem ao Seridó com Abimael Silva e o encontro com Dimas foi o ponto alto do rolé. Fica esta pequena homenagem do Substantivo Plural.

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À beira do Gargalheiras, distante menos de légua da Vila de Acari, chãos dos sertões do Seridó, o espelho d’água reflete as lâminas da serra. A pedra nua e o concreto do açude escovado pelas sangrias compõem um retrato em que o trabalho da natureza se une ao engenho e arte do homem. Um passante, admirado com a cena, talvez nem perceba ali do lado, na mata ao pé da serra, que um homem retoma sozinho, a cada dia, a peleja para encontrar a beleza secreta da pedra. Pois é ali onde Dimas Ferreira construiu sua oficina, onde o granito áspero e ancestral se rende à imaginação para transmudar-se em cangaceiros, santos, bichos.

Mal o sol se insinua por trás do pico, Dimas singra a estrada de terra que arrodeia o lago, em sua bicicleta. Passando as primeiras casas depois do bar, sai da estrada por um rastro de pneus discretamente marcado no matinho seco, e se embrenha na caatinga para mais à frente chegar à oficina, uma pequena latada onde guarda suas ferramentas. Um lajeiro aflora grandes blocos de granito. Ali, após uma demorada escolha, o artista decide qual deles deixará de desafiar os céus para adorá-los, assumindo a imagem de Nossa Senhora da Guia. Pelos próximos dias, uns 50 deles, a rotina será atacar cuidadosamente a rocha, com o marrão e o ponteiro. De sol a sol, a persistência sertaneja do escultor criou centenas de figuras nos últimos 25 anos. Pois não é de hoje que Dimas Ferreira, 55 anos (“parece que é isso, não lembro não”), quebra pedras.

Dimas esculpe no granito. Foto: Alex Gurgel
Dimas esculpe no granito. Foto: Alex Gurgel
A necessidade o levou logo cedo ao trabalho. “Desde os 14 anos, comecei a trabalhar no corte de paralelepípedo. Andei muito, estive em Campina Grande, rodei o Nordeste quase todo cortando pedra”, diz. Os anos e a prática fizeram-no passar à ‘canteria’, um serviço mais elaborado. “É pedra para piso, para portal, é uma pedra aperfeiçoada, num sabe? Faturava melhor.” Mas ainda era pouco para o que ele queria. “Trabalhei muitos anos cortando a pedra. Todo tipo de pedra, eu cortei. Começando da brita, até paralelepípedo, meio-fio. Mas sempre chegava aquela vontade de mudar, né? De fazer melhor. E eu tinha um pensamento assim: ‘Acho que dá para fazer uma escultura numa pedra dessa.’ Aí, tentei. Pelejei demais, tentei muito até que consegui fazer as primeiras. E fui fazendo, mas foi muito difícil aprender. Depois do corte, para passar pra isso, foi muito difícil.” Já contava com mais de 30 anos.

“Teve peça de eu trabalhar quase um mês, quando chegar quase no final, pá, torar. Aconteceu muito. Eu voltava, fazia a mesma coisa. Aí naquele setor onde ela quebrou, já trabalhava com o maior cuidado, para não ter problema. Passarinho de asa aberta é complicado, as asas. Primeiro, quando tava fazendo, quebrou-se uma asa. Aí eu torei a outra e já modelei ele e deu certo. Mas só que não valeu a pena, porque era de asa aberta que a pessoa queria. Aí eu fiz um. Quando você passa, vê em cima do muro da casa de Hugo [Macedo, fotógrafo, que mora no Gargalheiras próximo à oficina de Dimas]. Fiz um bem grandão.” Difícil de fazer e difícil de vender também. “Quando comecei a trabalhar, cansei de juntar oito, nove peças, sem ter patrocinador para isso, sempre no esforço mesmo. Mas aí consegui aparecer.” As esculturas de Dimas começaram a chamar atenção dos jornais e algumas aparições na tevê despertaram o interesse de compradores. “Desenvolveu muito meu trabalho”, garante.

Hoje, só prepara peças sob encomenda. De todo tipo. “Santo, passarinho… já fiz pilão de pedra. E muitas e muitas coisas, que aparecem, vêm no pensamento e eu vou e faço. O São Francisco já vou fazendo bem oito. Nossa Senhora Da Guia, já fiz três ou quatro.” As peças maiores, estátuas de corpo inteiro, são as preferidas. O valor conseguido com peças pequenas não compensa tanto frente ao serviço duro. Enquanto um cangaceiro de 1,80m pode chegar a R$ 4 mil ou R$ 5 mil, as tartarugas em granito, um sucesso de vendas do artista, saem por 10% desse valor. E já que Dimas não deixa Acari, seu trabalho ganha o mundo. Tem clientes na Paraíba, Pernambuco, Ceará. Colecionadores e intelectuais potiguares estão entre os principais compradores. “Vendi muitas peças também para um… como é que chama, meu deus?… um alemão! Vendi mais de 14 peças. Não sei o que foi que ele fez com essas peças. Uma pessoa que é diretor de turismo aqui no estado me disse que já tem peça minha do outro lado. Só não sei aonde.”

Escultor foi um dos maiores nomes da escultura no RN. Foto: Alex Gurgel
Escultor foi um dos maiores nomes da escultura no RN. Foto: Alex Gurgel
Por experiência, basta Dimas botar o olho na rocha e saber se ela serve e para quê. “Muitas vezes acontecia que pra mim eu tava vendo o que eu tava fazendo na pedra. Chegava, olhava e pronto: É aqui mesmo.” As peças mais elaboradas são antes rascunhadas em papel. Ou direto na pedra. “É tudo no riscote, é só riscando e fazendo. Eu mesmo desenho. Aí vou trabalhando por ali e pronto. Vai se embora.” Ele garante que já tentou trabalhar com outros materiais, mas não deu certo. “A pedra-sabão é uma pedrinha que você até com uma colher você esculpe ela. Eu não tenho interesse de trabalhar nela. Tem um pedaço de pedra ali, faz uma base de uns cinco a seis anos. Uma pessoa mandou pra eu fazer um negócio. Fiz só começar, parei e deixei lá, pronto. Não tenho interesse em trabalhar em outra coisa não. Só nessa pedra doida.”

A técnica requer força, mas também concentração e jeito. Dimas já tentou ensiná-la, mas faltou paciência. “Eu dou a dica. Vou lá e digo: ‘risca agora’. Aí ele passa o dia todinho trabalhando, né? Quando chega num certo ponto, não sabe mais para onde é que vai. Lá vai me chamar de novo…” Inclusive lembra que tentou colocar um primo para trabalhar com ele. “Nós fizemos uma peça bem ligeira. Era um desenho numa pedra. Pra Flávio Freitas. Eu desenhei na pedra um peixe. Aí botei ele para trabalhar. Mas só que eu tava aqui na rua, e quando cheguei lá ele tava adiantando, já quase botando a perder. Mandei ele parar. ‘Você só começa a bater quando eu chegar.’ Porque não adianta. Não sabe, bota a perder, quebra… a pedra depois que quebra não conserta mais não.”

Dependendo do porte da peça, que pode passar de dois metros de altura e alcançar três toneladas, contrata um ajudante para desenterrar a matéria-prima. O resto é tudo com ele. “Outro ferreiro não aponta pra mim. quem aponta as minhas peças sou eu mesmo. Porque o bico de furar a pedra não é de esculpir. O de esculpir é diferente. É que nem um bico de um pato”, avisa. Com a encomenda pronta, é só entregar. “Quando termina a gente faz um jeito de colocar em cima de um caminhão. Uma vez de Mossoró veio um guincho para pegar, num sabe? Uma peça grande que eu fiz lá para Isaura Rosado, aí veio um caminhão grande e trouxe uma talha. Uma talha ela funciona como que seja um munck. Põe o tripé e é a maior rapidez para colocar. Mas quando não tem, eu já tiro num local onde dê para fazer uma carregadeira.”

Manter uma oficina no meio do mato tem vantagens, mas também alguns perigos. Quando resolveu trabalhar no Gargalheiras, Dimas encontrou vizinhos indesejáveis: cobras. “Tinha cobra demais. Quando chegava lá, todo dia a gente matava.” Para combater as visitas, o jeito foi arranjar inquilinos para a tenda. “Comecei a criar uns gatos. Cansava de chegar e ver os gatos matando as cobras. Aí nunca mais. Faz uns nove anos que não vejo uma cobra ali. De jeito nenhum. Eles matam.” Os felinos viraram companheiros para todas as horas. “Eu gosto demais de criar gato. Acho bom demais. Os bichinhos não fazem mal a ninguém. Agora são ladrãozinhos pra danado, viu? Eu levo comer para eles, aí boto comer. E pra meio-dia tem comer de novo. Mas se eu deixar uma coisa fácil, eles já tão roubando”, brinca.

A paixão de Dimas pelos bichanos já é conhecida em Acari e ele se acostumou a receber doação de felinos. “Tem um pessoal aqui que criava umas gatas. Aí quando chegava o período delas de dar cria, já combinava pra eu levar. Fui levando, levando… mas tem gente também que já foi sem eu ver, chega e solta a gata.” No entanto, o Gargalheiras é também lugar de mistérios. É o que garante o artista: “Tem vez que tem mais de 20 gatos. Tem vez que tem 18, tem vez que tem 13. Tem um bicho ali que come gato. Não sei o que é não. Ali tem cobra grande, num sabe? Devem ser elas que pegam. Por que eles vão lá pro açude. Tem dia que de tardezinha fica um bocado na beira d’água. Por certo eles pegam um peixe, alguma coisa, né? Foi não foi desaparece dois gatos, três.”

A mão de obra é pesada, mas a dureza de trabalhar à beira do açude vale o esforço. “Eu só paro em dia de domingo. Aí não vou não. Mas vou todo dia, da segunda ao sábado. Passo o dia todinho por lá. Almoço por lá. Eu num gosto de fazer nada assim, preso numa casa. Lá eu já sou acostumado e não queria mudar para o centro de uma cidade. Faz um bocado de tempo que trabalho ali. É um setor bom. Tem canto aqui na região que tem pedra melhor. Mas eu me acostumei com aquele setor. Eu não tenho transporte, se tivesse, tirava a pedra num local e levava para fazer lá. Porque a minha tenda já está montada ali. Aquilo para você transferir de um canto para outro é sacrifício demais.”

A arte de Dimas Ferreira está longe de suscitar delírios e algum espectador pedir: ‘Parla!’ Tal qual o sertanejo descrito por Euclides da Cunha, suas esculturas apresentam a rocha viva que se esconde sob o ‘incaracterístico solo arável, altamente complexo’. Espalhados pelas veredas em derredor, suas criaturas de pedra, com suas formas sutis e arredondadas, parecem de fato pertencer à paisagem agreste. Sobre os lajeiros, parecem os xiquexiques descritos pelo escritor d’Os Sertões: aprazem-se no leito abrasante das lajes graníticas feridas pelos sóis. “Você veja bem: eu trabalho no meio do mato. Pra mudar para trabalhar dentro de um escritório, de uma casa, é uma coisa que me perturba demais. Eu não gosto. Meu setor eu gosto acolá. Ali eu tô dentro da vegetação e ali a inspiração de todo jeito dá. Parece que é uma coisa mandada. Meu negócio é aqui, no meio da natureza. Porque esse meu trabalho veio da natureza, eu não recebi aula de ninguém não.”

FOTOS INÉDITAS CEDIDAS POR ALEX GURGEL AO SUBSTANTIVO PLURAL

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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