Dinheiro não

Por Caetano Veloso
O GLOBO

Bethânia estourou no Opinião em 64. Guilherme Araújo logo me procurou para convidá-la a gravar na Elenco. Vianinha aconselhou-nos a preferir a proposta da RCA: apesar do prestígio, a Elenco era um selo tateante. O jovem comunista nos convenceu a optar por uma sólida multinacional. Eu não entendia nada do assunto. Claro que, no coração, preferia a Elenco. Mas não estava capaz de seguir o coração. Deu tudo certo. Por linhas tortas, Bethânia gravou na RCA um disco com características profissionais que pouco me agradavam (a mestria de Cipó brilhava mas não era o gosto que eu imaginava que nossa chegada ao Rio sugeriria), o primeiro compacto virou hit e ela se tornou a estrela de primeira grandeza que nunca mais deixou de ser. E até hoje corrige o gosto vigente em discos finos que produz na Biscoito.

O compacto de estreia tinha de um lado o “Carcará” de João do Vale e, do outro, meu “De manhã”. Entrei na profissão sendo o lado B de um megassucesso. Ganhei pouco por isso. Sem ideia. Comecei a ouvir conversas de que éramos todos roubados.Sentia imenso cansaço à mera menção dos problemas de direitos autorais. Voltei a viver na Bahia e esqueci o assunto. Quando voltei para o Rio, em fins de 66, acreditei que tinha sido arrastado por Alex Chacón, um chileno que vive no Brasil e me ofereceu morada num apartamento na Nossa Senhora de Copacabana. Foi Alex quem me passou um sabão ao perceber meu desprezo pelas questões relativas a proventos. Ele me disse que eu tinha obrigação de atentar para o assunto, que este não dizia respeito só a mim, mas a todos os meus colegas. Se eu não recebesse o que me era devido e me calasse eu estaria prejudicando uma classe inteira. Fiquei envergonhado. E passei a me esforçar para me interessar pela questão. É ainda com vergonha que confesso que nunca cheguei a ser bem-sucedido nesse esforço.

Saudei a entrada de Ana de Hollanda no ministério Dilma por um sentimento imediato de familiaridade. Eu tinha escrito o nome do avô dela um pouco antes, para ironizar minhas características cordiais de brasileiro. Era uma saudação cordial. Mas neste caso conteúdos importantes de outra natureza se impõem. Tratei-a pelo apelido de família, num exagero de intimidade que nem sei se lhe agradaria. Mas era expressão de alegria genuína. Eu a conhecia da casa de seus pais no Pacaembu, como irmã do meu justamente adorado colega Chico, e sabia que esse ambiente de origem significava compromisso de dignidade, selo de confiança. Não medi a importância de sua chegada ao posto por contraposição ao ministério de Gil, que tinha continuidade em Juca Ferreira. Gil era também um selo de confiança. As posições contrastantes que Ana possa ter, como ministra, com as do grupo que a precedeu não pesam tanto quanto o fato de saber que a função segue em mãos honradas.

No entanto, o problema dos direitos, que me traz sempre de volta a cara de Alex Chacón, apareceu no centro da troca de titulares do MinC. Pouco quero dizer sobre a horrenda matéria de “Veja” sobre Ana: apenas alertar os brasileiros para o fato de que nem na Inglaterra nem nos Estados Unidos (ou na Alemanha ou na França) um veículo equivalente à “Veja” publicaria a respeito de alguém de importância pública equivalente à de Chico Buarque nada em tom nem remotamente tão desrespeitoso. É uma questão de educação. Cabe a cada um perguntar-se se isso é sintoma de nossa promissora originalidade ou mera mostra de desejo neurótico de autodepreciação.

Já Ronaldo Lemos, na “Folhateen”, e Hermano Vianna, aqui, escreveram de modo a dar lição a publicações como “Veja”. Deram as boas-vindas à nova ministra, contando desde já por que discordariam dela: se ela recuasse na questão da reforma da Lei do Direito Autoral.

Com esse exemplo de bom jornalismo eu desejaria poder dialogar. Não me incomodaria de ocupar o precioso espaço que tenho neste caderno nem o ainda mais precioso tempo de quem me lê. Só não me alongo em decisivas argumentações porque não estou meticulosamente informado sobre como funciona o Ecad hoje. Mas é o que temos e detentores de direitos devem ser ouvidos.
Eu precisaria também ter uma ideia clara sobre o que é melhor fazer no mundo da reprodutibilidade digital e da difusão cibernética. A pirataria e a internet mudaram a cara do negócio da canção. Há propostas para fazer a legislação acompanhar essas mudanças.

Mas o direito de autor ainda é sagrado em toda parte no mundo capitalista.Orgulho- me por Gil ter acolhido
o tema.O Brasil está ligado. Hermano Vianna é pioneiro na discussão. Meus queridos colegas Fernando Brant e Ronaldo Bastos são defensores dos autores que veem seus direitos ameaçados. Sempre me posicionei mais ao lado destes últimos (talvez como tardia homenagem a Alex mas também pelo repúdio instintivo ao sonho de “morte do autor” dos libertários dos anos 60). Assim como Vianna, Ronaldo Lemos se sente atraído pelo mundo novo da internet e do tecnobrega. E eu com eles. Mas não gosto de ler projetos de lei em que direitos do autor são confundidos com os do consumidor (já disse isso aqui). Ana só declarou que quer reconsiderar o projeto de lei. Colegas meus odeiam o Creative Commons (um sistema de licenças americano que flexibiliza o direito autoral, segundo o desejo de cada autor). Vianna e Lemos gostam. Eu não sei. Só não pode é a gente parecer moderno e virar otário. Posso desprezar o dinheiro. Mas tenho que saber que ele não é somente meu.

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