Diploma de jornalista virou artefato romântico

Diploma de jornalista ficou imprestável igual papel de jornal. É fato. E não há volta. Após cinco anos sem sua obrigatoriedade tudo continuou como dantes. Afora a poderosa Rede Globo e outras mega emissoras que se viram livres para contratar ex-atletas para exercer o papel de jornalista em comentários de futebol e quetais. Há quem diga, o poderio de Roberto Marinho influenciou na decisão do STF, amparada na liberdade de imprensa ou de expressão.

Nesses cinco anos os jornalões enxugaram o quadro funcional até onde pode, quando não fecharam as portas. A qualidade, claro, caiu sobremaneira. Ainda assim, são a salvação contra a enxurrada noticiosa espalhada nas redes sociais. Um desmantelo de blogs engolem releases e alguns fazem história. Hoje, os dois blogs mais acessados do Rio Grande do Norte são os do BG e do Robson Pires – nenhum é diplomado. E a notícia virou publicidade de assessorias.

Talvez este blogueiro tenha assistido o último período romântico das redações. Ainda vivi a revelação de fotos em estúdio; a construção do texto em sistema DOS; e o principal: o prestígio do emprego em uma redação de jornal. Trabalhei seis meses de graça para ingressar no Diário de Natal, em 2004. Durante nove anos vi de camarote estagiários, aos poucos, desdenharem dessa oportunidade. Ora, a equação não batia. Muito trabalho x pouco salário.

diplomaA realidade hoje vai além da obrigatoriedade do diploma. A profissão em si está decadente. Ao jornalista de hoje não basta apurar e escrever bem. Precisa dominar tecnologias e marketing digital. Se souber programar, nem se fala. E isso publicitários e designers fazem melhor. Então, pra eles, bastam ter uma redação razoável, um apreço à gramática e pronto: são os jornalistas dos novos tempos. É o retrato do tempo-hoje, com diploma ou sem. E as universidades nem se aperceberam disso ainda.

Esses “novos jornalistas” ganham espaço em pequenas mídias digitais. O problema (?) é que essas pequenas mídias são o futuro. Os jornalões, cedo ou tarde, sucumbirão. Ou não serão nem retrato do ontem. Aliás, como hoje já se vê. Acredito piamente que em 10 anos jornalistas estarão vagando perdidos por aí. Talvez por esse exercício de futurologia barato, o diploma se mostre necessário. Tão somente para assegurar o direito corporativista do emprego.

Bom ressaltar que em países ditos democráticos, diploma de jornalista nada vale. E foi esse, mais ou menos, o argumento do sapo Mendes, no STF, para transitar e julgar o processo. A ideia é deixar o cidadão criar suas publicações ou de se manifestar publicamente em qualquer veículo midiático sem impedimento. Tipo, se um sindicato de pescadores organizar um jornalzinho para disseminar ideais não precisariam de um “jornalista profissional”. É legítimo.

E é esse o mérito da liberdade que diferencia o caso do profissional de jornalismo de outros setores. Ora, o próprio jornalista, por exemplo, se for muito bom no assunto, também poderia ser professor de literatura ou redação. Entre outros exemplos. Mas a questão é a tal liberdade, que no fim, aprisiona o jornalista a se apegar ao tal diploma para assegurar o que já não é seguro; o que já pertence ao livre universo do mundo digital.

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