A direita assanhada

Por Adriano de Sousa
TRIBUNA DO NORTE

Nas eleições de 2016 assistiremos a fenômeno nunca antes visto nesta aldeia de tanto progresso e tamanhos progressistas: a direita ousando dizer seu nome. Sem recalques e com arroubos de superioridade moral traduzida na orgulhosa escanção de todas as sílabas: di-rei-ta. De repente ficou chique ser e dizer-se assim, como se a dita cuja fosse um parâmetro de ética e clarividência, o contraponto natural e desejável a “tudo que está aí”. Ou como se a crise generalizada do lulopetismo invalidasse de forma irreversível as bandeiras associadas historicamente à esquerda.

Os enrustidos de sempre, que se acanhavam sob eufemismos como conservador e (neo)liberal, saem de igrejas, quartéis e outros armários virtuais, e alardeiam-se, com a imunidade dos tolos, arautos do salve geral. Aqui e pelo país afora assanham-se candidatos a paladinos da moral e dos bons costumes republicanos. Muitos não resistiriam a um mero atestado de antecedentes na delegacia da esquina. Mas, surfando a vaga antipetista, imaginam colher altos dividendos eleitorais requentando a divisão do mundo em esquerda e direita. Até parece que estamos numa parada da UDN pré-1964, com menos talento na banda de música.

Nas mídias digitais multiplicam-se clones de reinaldões e mervaizinhos aspirando à condição de gurus da novivelha sinhazinha. À estridência de seus apitos, acorre a milícia do pensamento para afrontar o século XXI com nosso retardo colonial. Homofobia, demofobia, misoginia, intolerância religiosa, justiçamentos, racismo, patrulhagem ideológica na escola, redução da maioridade penal – tudo cabe na pauta do retrocesso. Pela marcha dos acontecimentos, ingressaremos em breve no século XIX e poderemos enfim sonhar com o fim da escravidão e o início da República. Se a sinhá permitir.

Há notas de açodamento no cálculo político que antecipa para 2016 o embate de 2018. Ignora-se que, numa eleição de prefeito, a vida como fato local tende a sobrepujar as circunstâncias da guerra fria artificial. A pauta do cotidiano pode obscurecer o confronto ideológico entre esquerda acanhada e direita assanhada. O ônibus, a escola e o posto de saúde carregam mais urgência do que definir se o paraíso futuro é branco ou preto, se a corrupção é azul ou vermelha, se o Bananão é mesmo verde e amarelo.

É verdade que há um sentimento difuso de rejeição a tudo que pareça de esquerda. Mas não é fácil modelar apenas com discurso e sustentar apenas com bravatas o figurino de reformador, à direita ou à esquerda (Lula, Dilma e o PT que o digam). A dificuldade cresce no cenário local, pois a proximidade revela mais facilmente o lobo de província sob a pele de cordeiro federal. O virtuoso à distância é tantas vezes vergonhoso na vizinhança. Quem grita “pega ladrão!” em Brasília pode acabar pego em Natal.

A polarização radical não é nova nem foi criada por sinhá. Ela está na raiz da narrativa engendrada pelo PT para legitimar seu programa de inclusão social à esquerda, enquanto valia-se de alianças políticas, de métodos operacionais e de receituário econômico à direita para implementá-lo. A ambiguidade talvez venha a ser mais danosa que o próprio combate da direita, porque decepcionou militantes e afastou simpatizantes, validou estratégias e valorizou forças que agora se voltam contra quem as nutriu.

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