O discreto John Fante e o quixotesco Bandini

Por Marcel Lúcio*

No Brasil, a obra e a vida de John Fante são praticamente desconhecidas. Mesmo na literatura ocidental, as narrativas desse escritor norte-americano não recebem a visibilidade que merecem.

Nascido no Colorado em 1909, Fante estudou em escolas dirigidas por jesuítas e na Universidade do Colorado. Começou a publicar seus contos em jornais no ano de 1932. Seis anos depois, lançou seu primeiro romance: Espere até a primavera, Bandini.

Dividido entre a atividade literária e a criação de roteiros cinematográficos, escreveu e publicou ainda: Pergunte ao pó (1938), Dago red (1940), Cheio de vida (1952), A irmandade da uva (1977) e Sonhos de Bunker Hill (1982). Faleceu em 1983, vítima de complicações provocadas por uma diabetes. Nos últimos anos de vida, impedido de escrever pela cegueira originária da doença, ditou textos para sua esposa, Joyce Fante, e, dessa maneira, conseguiu concluir seus últimos escritos.

Em 1985 e 1986, a editora norte-americana Black Sparrow lançou postumamente o livro de contos selecionados O vinho da juventude e os romances Rumo a Los Angeles, 1933 foi um ano ruim e A oeste de Roma. A maioria dos livros de Fante foi traduzida para a língua portuguesa através da Editora Brasiliense. Nos últimos dez anos, a editora gaúcha L&PM vem republicando algumas obras do autor.

A seu respeito, muitos escritores se pronunciaram. Charles Bukowski, famoso romancista e poeta norte-americano conhecido como “o velho safado”, afirmava ser John Fante o autor que mais o influenciou. No prefácio a uma edição de Pergunte ao pó, Bukowski disse: “Então, um dia peguei um livro (Pergunte ao pó), abri e lá estava. As linhas rolavam fácil pela página, havia uma corrente. E aqui, afinal, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam misturados numa esplêndida simplicidade. Começar aquele livro foi um selvagem e enorme milagre pra mim. Ele ia ser uma influência permanente no meu modo de escrever”.

Na literatura brasileira, grande parte dos autores dos anos 70 e 80 do século passado foram leitores de Fante. O poeta Paulo Leminski, tradutor para o português de Pergunte ao pó, comentou sobre a escrita de Fante: “O fluxo verbal da prosa é afetado por aquele grau de imprevisibilidade, a que associamos o nome de poesia. Só com técnicas narrativas, aliás, não teria atingindo o agudo de pungência, docemente lírico e amargamente cínico, que caracteriza sua narrativa, entremeada de ex-abruptos dramáticos, mas contidos”.

A partir dessa observação de Leminski, percebe-se o cuidado que Fante possuía em relação à linguagem. Assim, não só no plano do conteúdo, mas também no plano de expressão destaca-se a literariedade presente na obra do romancista que escreveu como poeta, John Fante.

A respeito da presença da poesia na prosa, Autran Dourado, em seu Breve manual de estilo e romance, teorizou: “Uma poesia só é boa quando se aproxima da grande prosa e uma prosa só é boa quando se aproxima da grande poesia”. Dessa maneira, através da citação de Dourado, enriquece-se a percepção crítica de Leminski em relação à obra de Fante.

O escritor Caio Fernando Abreu, admirador de Fante, sentenciou: “John Fante não foi exatamente um gigante da literatura, nem escreveu sobre grandes tragédias da alma humana: detinha-se sobre o pequeno, com muito cuidado. Com doses generosas de sentimentos raros: perdão e amor”.

Discretamente, sem alarde de grupos literários e marketing editorial, a obra de Fante permanece.

***

No romance mais comentado de John Fante, Pergunte ao pó, Arturo Bandini, narrador-personagem, conta as suas aventuras e desventuras na tentativa de se tornar um escritor bem-sucedido em Los Angeles, nos anos trinta do século passado. Descendente de italianos, o jovem Bandini, de apenas 20 anos, residia num quarto de hotel de terceira categoria, situado em Bunker Hill, bairro periférico da cidade. Apesar de se julgar um talentoso escritor, a notoriedade e o reconhecimento editorial não aconteceram. Esse é o conflito desencadeador da narrativa, na qual herói e mundo marcham para lados opostos.

Partindo da ideia de herói e realidade do romance possuírem caminhos diferentes, podem-se notar características e situações presentes na obra Pergunte ao pó que a relacionam à categoria do romance do idealismo abstrato, teorizada e defendida pelo crítico George Lucáks no conhecido ensaio Teoria do romance. O romance do idealismo abstrato, segundo Lucácks, apresenta como enredo basicamente os desencontros e fracassos de uma personagem errante frente a um mundo hostil. O confronto interior e exterior ocorre porque a alma do herói diminui ao ser invadida por uma ideia fixa que não corresponde à realidade.

Assim, Bandini, desfavorecido em todos os aspectos sociais e econômicos, não perdia a esperança por ter em mente a certeza de que era um grande escritor e em curto período ficaria famoso e ganharia muito dinheiro. Tal pensamento servia como consolo e força para lutar, como se observa no seguinte trecho de Pergunte ao pó: “Então muito tempo se passou enquanto eu fiquei estático na frente de uma loja de cachimbos, olhando, e o mundo inteiro desvaneceu-se, exceto aquela vitrine, e eu continuava ali, fumei todos aqueles cachimbos, e me vi como um grande autor com aquele cravo italiano na lapela, e uma bengala, saindo de um grande carro preto e ela estava lá também, orgulhosa de mim pra caralho, e dama com o casaco de raposa prateada. Nós pedimos o melhor quarto e daí tomamos uns coquetéis e dançamos um pouco, tomamos mais um coquetel, eu declamei algumas frases em sânscrito, e o mundo era tão maravilhoso, porque de dois em dois minutos uma coisa linda olhava para mim, o grande escritor, e não adiantava, eu tinha que dar um autógrafo no seu cardápio, e a garota da raposa prateada fica puta de ciúmes”.

De acordo com o trecho, percebe-se que, mesmo em situação adversa, encontrar-se em frente a uma loja e não ter dinheiro para comprar seus produtos, Bandini recriou a realidade e se colocou em posição favorável, imaginando os benefícios que adquiriria quando se tornasse um grande escritor.

Em outra ocasião, Bandini, sem um centavo no bolso, recebeu a cobrança do aluguel de seu quarto e respondeu desta forma à senhora Hargraves, proprietária do hotel: “– Acabo de receber uma carta do meu empresário – disse a ela. Meu empresário em Nova Iorque. Ele diz que eu vendi mais uma; ele não diz onde mas diz que vendeu uma sendo assim, não se preocupe, Senhora Hargraves, não esquente muito, o dinheiro vai estar aqui em dois dias”.

Na verdade, Bandini não tinha empresário algum em Nova Iorque nem havia recebido carta alguma. Conhecia apenas, através de cartas e foto, um editor, J. C. Hackmuth, que certa vez aceitou, para publicação em sua revista, o maravilhoso conto que alguém jamais havia escrito “O cachorinho riu”, de Arturo Bandini. Porém, de qualquer maneira, a idealização do herói conseguia fazê-lo enfrentar sua dura realidade – a alimentação básica de Bandini era constituída por laranjas que ele comprava fiado na venda de um japonês: laranja no café da manhã, no almoço e no jantar.

Para Lukács, a alma do herói do idealismo abstrato “repousa imóvel para além de qualquer problema, no ser transcendente que alcançou; ali, nem dúvida, nem busca, nem desespero capaz de a fazer sair de si e de a mover podem nascer nela, e os combates vãos e grotescos que trava para sua realização no mundo exterior mantêm-se sem influência alguma sobre ela”.

Lukács acredita que o herói do idealismo abstrato não desenvolve sua alma, pois ela já está plenamente moldada e descansa sobre a ideia fixa que toma conta do herói. Assim, nada faz com que o herói mude seu ponto de vista. É exatamente essa situação que acontece com Bandini: por mais que a realidade apresente provas de que ele não é um grande escritor coisa nenhuma, ele continua cego, com a sua ideia de que é um grande escritor.

Ao prosseguir a teorização sobre esse tipo de herói, Lukács afirma que, como interiormente sua alma (concepção de mundo) já está finalizada, “A vida de semelhante homem não pode ser, por consequência, senão uma série ininterrupta de aventuras escolhidas por ele mesmo e nas quais se precipita, porque lhe importa mais fazer face à aventura do que viver”.

Tal fato ocorre com Bandini que, no decorrer da narrativa, meteu-se nas mais inusitadas aventuras: decidiu transar com prostitutas, depois de algumas tentativas falhas, arrependeu-se e foi para a igreja rezar, mesmo se dizendo ateu; incentivado pelo vizinho e com o maior receio, furtou leite da bicicleta do leiteiro, porém o leite não lhe serviu porque estava coalhado; viajou para Long Beach sem propósito algum; entrou no carro do vizinho sem saber o destino, quando pensou que não estava metido no roubo e assassinato de um bezerro. E assim infinitamente. Sempre aventuras, afinal, Bandini “ignora qualquer contemplação, qualquer tendência e qualquer aptidão para orientar os seus atos para o interior. Não pode senão ser um aventureiro”.

Segundo o estudioso Ference Fehér, no ensaio O romance está morrendo?, “O tema do grande romance é o fracasso da adaptação, é o chão que foge, doravante, sob os pés do herói”. Assim, a função do romance moderno seria retratar o herói em conflito com o mundo exterior. Pergunte ao pó representa bem a essa inadequação entre o herói e o mundo. E, após inúmeras aventuras desconectadas, resta a Arturo Bandini a sensação de vazio, de falta de sentido da vida. John Fante, por sua vez, cresce e se consolida como um dos grandes tradutores da condição do homem contemporâneo.

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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