Discurso da loucura

Por Yuno Silva
TRIBUNA DO NORTE

Origem da palavra ‘ética’, e espécie de síntese dos costumes de um povo, o termo grego ‘Ethos’ indica traços característicos sob os pontos de vista social e cultural. Um conceito que também embasa o entendimento do modo de ser, o comportamento e o caráter de um grupo ou de um indivíduo. É por esse caminho que segue o estudo de Karina Ramalho, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem do curso de Letras da UFRN, que defendeu nesta segunda-feira (23) sua dissertação com o tema “O Ethos no discurso literário: a imagem do louco em ‘Crônica da Banalidade’, de Carlos de Souza”.

A novela “Crônica da Banalidade”, primeiro livro do jornalista Carlão, colunista literário desta TRIBUNA DO NORTE, foi lançada em 1988 e gira em torno de um músico decadente “que se mete em drogas e tal” e é praticamente um sem teto na grande metrópole. “O personagem (sem nome) mistura a personalidade de vários amigos, minha inclusive, e faz alusão sobre a experiência que tive como recém-formado em São Paulo”, disse o autor por telefone à reportagem do VIVER.

Graduada em Letras e ligada à área de Linguística Aplicada, Karina Dantas Villar Ramalho pretendia investigar o Ethos presente no discurso político durante a crise que assolou a gestão da ex-prefeita Micarla de Sousa. “Na medida que o Mestrado avançava, despertei para outros interesses; foi quando tive a oportunidade de conhecer a obra de Carlos de Souza”, contou Karina, que teve orientação da professora Doutora Cellina Rodrigues Muniz – estudiosa da imprensa alternativa, Cellina é contista e autora do livro “Na Tal cidade do Humor” (Sebo Vermelho Edições, 2013), no qual abordou com olhar analítico sobre o campo discursivo da sátira no jornalismo potiguar.

“Foi interessante poder tratar de um tema como a loucura, a partir da Literatura e da Linguística Aplicada, que geralmente fica restrito à área médica”, anima-se.

Ela vê como algo novo esse trânsito entre áreas tão distintas do conhecimento: “Já tinha feito algumas leituras sobre o tema, mas não tinha atentado que poderia juntar outras áreas de estudo à minha pesquisa”, disse Karina, que ainda não conhece pessoalmente o autor de “Crônica da Banalidade”, texto que pode ser encarado como “um conto esticado” segundo o próprio Carlão de Souza. “Elaborei uma entrevista, mas não pude aplicar devido questões de saúde. Quem acabou entrevistando o autor foi minha orientadora (por sinal, amiga pessoal do escritor)”, justificou a mestranda.

Transição

Karina Ramalho propõe uma reflexão baseada na construção gradativa da imagem do narrador-personagem. “Há, do início ao fim do livro, a construção dessa imagem de louco a partir do discurso. Um comportamento identificado a partir de dez cenas selecionadas onde se percebe a exclusão social, a alienação mental, o confinamento, o alcoolismo e a auto-exclusão”, explicou. Ela destaca atitudes extremas do personagem como a internação voluntária em um hospício.

“Esse texto foi escrito no auge do meu envolvimento com o jornalismo e com a boemia, isso no começo dos anos 1980, uma época de transições: eu estava lendo muita coisa doida de Jack Kerouac (1922-1969) e Charles Bukowski (1920-1994), andando com uma galera da pesada (no bom sentido) e testemunhando os últimos momentos da intensa boemia que permeava o jornalismo”, recordou Carlão de Souza, que tem quatro livros lançados: a novela objeto do estudo em questão, um título de poesia “Cachorro Magro”, uma peça de teatro e o romance de pinceladas históricas “Cidade dos Reis” (2012).

“Na minha vida adulta sempre fui boêmio, é uma faceta da minha personalidade que eu não tenho vergonha de explicitar”, frisou.

A dissertação de Karina Ramalho estará disponível para consulta pública, na biblioteca setorial do curso de Letras/Pós-Graduação da UFRN, até o final do mês de março. Já o livro “Crônica da Banalidade” só teve uma única tiragem, está esgotada, mas o autor avisou que ainda há exemplares para venda no Sebo Vermelho (Av. Rio Branco, 705 – Cidade Alta).

Resumo

Dissertação: “O Ethos no discurso literário: a imagem do louco em ‘Crônica da Banalidade’, de Carlos de Souza” (80 páginas), de Karina Dantas Villar Ramalho.

“Lançado em 1988, ‘Crônica da Banalidade’ (Clima), de Carlos de Souza, aborda o tema da loucura assim como outros romances o fizeram naquele período como ‘Recomendações a Todos’, de Alex Nascimento e ‘Dotô, casa comigo?’, de Ruben G. Nunes. Neste estudo, analisamos a construção do ethos de louco na obra de Carlos de Souza, que implica um trabalho de interpretação de marcas de caráter; que correspondem a uma gama de traços psicológicos, e de corporalidade, que correspondem a uma constituição corporal, maneiras de se vestir e de se movimentar no ambiente social, mostradas por um enunciador, sugerindo uma imagem de si. (…)

A imagem que o leitor constrói do enunciador emerge a partir de indícios textuais de diversas ordens, dessa forma mostramos como a imagem do narrador-personagem ‘louco’ se assenta na oposição loucura versus razão, reproduzindo o procedimento de segregação, típico das sociedades disciplinares, sociedades estas que selecionam, excluem e rejeitam os sujeitos que apresentam comportamentos ou discursos afastados da norma, exercendo, assim, um controle social e moral, simultaneamente. (…)

Consideramos esse trabalho relevante para a consolidação de pesquisas em Análise do Discurso (AD), especialmente por trabalhar na interface entre a Linguística Aplicada e a Literatura, tendo em vista que o objeto teórico não é a língua, mas o discurso, sendo este último um lugar que articula língua, visões de mundo e subjetividade.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo