Discussões ideológicas entre dois roqueiros paulistas radicados em Natal


Deve ser a mais alucinante das drogas, isso de ser artista. Ainda mais se sua criação for curtida por muita gente.

Imagino uma Interstellar Overdrive tão intensa, que o risco de não aterrissar é enorme.

Já quem firma o pé no chão dos simples, uma hora precisa escolher um caminho.

Uns correm para a esquerda, outros, para a direita.

Existem os inertes.

Destes excluímos Paulo Sarkis e Eduardo Passaia, dois caras que ajudaram na formação da cena musical natalense, nas últimas décadas.

Ambos ‘milicianos’ do rock e do blues, com várias ‘lombras’ artísticas sentidas entre multidões.

Ambos manifestantes no bojo de uma insatisfação generalizada em todo o território brasileiro.

Um em cada lado da contenda.

É a conclusão de quem os acompanha nas redes sociais.

Por isso, enviei perguntas para a dupla sobre a situação política atual, com a ideia de condensar e expor o pensamento de dois músicos com público cativo (suas bandas estão entre as que mais enchem casas noturnas da capital potiguar), dois caras que travam contato com gente de toda idade e classe social.

Dois caras que nasceram ou cresceram entre os 70s e os 90s, época do Tri no Estádio Azteca, da Crise do Petróleo, do punk e da disco, governos estaduais e municipais biônicos, Diretas Já, Sarney e Césio-137, do Cruzeiro virar Cruzado e do começo do Plano Real.

Dois paulistas radicados em Natal – portanto, oriundos do epicentro dos protestos contra o PT, o ex-presidente Lula e o Governo de Dilma Rousseff.

Aquele baixista do Mad Dogs; este, guitarrista do Uskaravelho.

Tudo bem que Bono e Sting mancham a causa, mas ver roqueiro engajado na luta ideológica é bem mais interessante que a militância tradicional, tão cega de amor quanto um sócio-torcedor.

Nada de rinha de cachorros ensandecidos, nem de caixa acrílica com besouros peçonhentos numa batalha mortal.

O zeitgeist desta nota introdutória é o de distanciamento das paixões e aproximação com o debate.

Pois defender bandeiras passa longe de se alistar no Exército.

Se existe dogma jornalístico que funciona é o de andar sempre na pista central da Ideológica Highway, a que lhe deixa espaço para corrigir derrapadas e favorece a visão geral do entorno.

Lula e a condução coercitivaEduardo Passaia

Na abertura, colisão frontal sobre a condução do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva para prestar depoimento na 24ª fase da Operação Lava a Jato.  Como eles entenderam o episódio?

Eduardo Passaia: “Com toda naturalidade do Mundo, como qualquer pessoa que tem conhecimento jurídico, pelo menos mínimo, e espírito democrático. Afinal, na mesma operação Lava Jato, antes de Lula, tiveram 116 conduções da mesma maneira, e nenhuma foi sequer contestada em STF ou STJ, bem como nem os advogados do Lula contestarão a dele, pois foi inteiramente legal. Além disso, ficou claro que, diante de tantas evidências de tentativas de se esquivar da justiça, com oficial não achando-o, com demonstrações explícitas de ocultação de provas, etc. Lembremos que o próprio Lula, em sua casa, disse que só sairia de lá algemado. Que ele tentou de diversas formas, e conseguiu, não prestar o depoimento no MPSP. Fora todos os argumentos corretíssimos que o Moro mostrou em sua ordem”.

Paulo Sarkis: “Penso ter se tratado de um ato de exceção que depõe contra o estado democrático de direito. Como se sabe, o presidente Fernando Henrique Cardoso também teve que depor em 2005 sobre ilícitos em seu governo e contas no exterior em seu nome. Mas o tratamento foi bem outro. Ele foi ouvido em seu apartamento e seu depoimento foi tratado com sigilo. O que acabamos de assistir com Lula foi um espetáculo político montado pra TV e imprensa em geral no sentido de se descredibilizar a pessoa do ex-presidente”.

Paulo SarkisO impeachment parte de uma elite golpista?

E.P. “Isto é chover no molhado. Qualquer tentativa de fazer com que isto pareça qualquer coisa que não sejam crimes, e da pior espécie, pois além de desvios gigantescos de grana pública, mexe com a nossa democracia, é de total falta de caráter e respeito com a justiça. Parece piada, alguém que defenda o PT vir a público e falar em Golpe das Elites. Parou, né? Está na hora desta gente parar de achar que falam pra inocentes úteis, que balançam a cabecinha vazia para tudo que o partido manda, e lembrar que existem pessoas que sabem ler e interpretar o que aparece todos os dias nas manchetes do Mundo todo. Ou será que o Mundo todo está contra o PT? A Suíça está contra o PT? A justiça americana está contra o PT? Os aposentados americanos estão contra o PT? Realmente não se pode levar a sério quem defenda este partido ou pessoas ligadas a ele”.

P.S. “É notório que a paciência das elites pra com a ascensão social de outras classes inferiores já se esgotou. Afinal, da pobreza alheia é que as classes dominantes tiram seus serviçais. Esse modelo se repete também entre países ricos e pobres. Os países ricos precisam manter o terceiro mundo mais pobre assim como quem tem 20 empregadas em casa não quer deixar essa mordomia. Então se pedaladas fiscais e propinas eleitorais são motivos de impedimento, nenhuma eleição valeu até hoje”.

Medo de desobediência civil?

E.P. “Não! Tirando esta turma do poder, a influência deles vai pro ralo. Sem contar que temos polícias e forças armadas preparadas pra manter a ordem, em caso de subversão por parte de qualquer um dos lados. Mas nem precisamos dizer quem é adepto da violência em manifestações, né?”.

P.S. “Não acredito em impedimento e não temo violência”.

E a ideologização denunciada, a ‘Geração Gramsciana’

E.P. “Acho um crime contra o futuro. Nossas escolas e faculdades se tornaram antro de doutrinação socialista. Mas o mais grotesco disto é saber que professores, que deveriam ser intelectuais, optam por defender um regime que nunca deu certo em lugar algum do Mundo. E pior ainda são as desculpas esfarrapas para isto. A mais engraçada é a de que nunca o socialismo foi realmente empregado. Dá realmente pra levar a sério? Resumindo, pensar em socialismo hoje, é piada de péssimo gosto, quando lembramos o que aconteceu com os países que a adotaram. Fica clara a intenção de derrubar alicerces de nossa sociedade. A família é um deles”.

P.S. “Bobagem, vivemos uma democracia bastante aberta. Seres socialistas, na minha opinião, são os europeus, que já conseguiram reduzir o abismo social entre as classes.

Sobre minorias: evolução natural ou política de Estado?

E.P. “Creio que seja uma mescla das duas coisas. Mas isto se deve a um partido ou a uma sociedade? Isto não começou há 13 anos. Políticas de afirmação não são novidades de agora. As pessoas que não desejam uma igualdade de classes, gêneros, etc, é alguém fora do eixo. Mas pensar nesta igualdade, promovendo cotas de todas as maneiras, baseadas em argumentos de dívida histórica ou coisas absurdas assim, nada ajuda no nosso desenvolvimento. Atacar a consequência, nunca vai curar a causa. Hoje temos uma grande quantidade de pessoas entrando nas faculdades, porém sabemos como saem de lá. Por que continuamos piorando nos índices mundiais de educação? Seja no ensino primário como ensino universitário? Nossos números são ridículos, pífios, e assim continuarão por um bom tempo, afinal as ações que temos em nosso currículo escolar são desastrosas. O MEC só se preocupa com questões ideológicas. Um terror pro futuro de nossas crianças. Não podemos esquecer aquela bravata infeliz e completamente esdrúxula de que a elite não quer ver pobres na faculdade, ou no avião ou asneiras deste tipo. Só em cabeças doentias, pra imaginar algo deste tipo. Só pra lembrar, elite anda de jatinho, como o Lula, que nem paga por isto. Quem paga pra ele, são empreiteiros da elite, que usaram de sua influência pra desviar grana da Petrobrás, não é mesmo?”.

P.S. “São ambas as coisas, mas sem uma atuação mais firme do estado fica mais difícil. Acho que os governos do PT foram os mais progressistas nesse sentido”.

Velha políticaHá séculos, famílias comandam Estados, mas nunca se roubou tanto?

E.P. “Acho que contra números não há argumentos, né? Quanto a nossa política local, são sempre os mesmos, mesmas famílias. E quando existiria uma chancezinha de alguém da esquerda aparecer, eis que surgem políticos que defendem bandidos condenados”.

P.S. “Não acredito [na tese do maior roubo da história]. Acredito que nunca deixamos de ter donos. Os coronéis continuam mandando nos estados e no país. Acho que hoje se rouba até menos”.

Illustrations by Anton SemenovÓdio crescente, agora todos opinam

E.P. “Falar em ódio, após o que vimos nestas eleições por parte do PT? Deveriam se envergonhar, claro, mas não acho que isto seja natural por parte deles. Quanto a termos pessoas mais interessadas na política, foi uma das coisas boas que surgiu nesta eleição. Creio que hoje tem muito mais gente interessada em política. Isto é bom, pois a esquerda se fortaleceu em cima desta ignorância”.

P.S. “Porque isso interessa aos golpistas. O fascismo é baseado em caça a bruxas e corruptos, sempre foi assim na historia da humanidade, se você quer acabar com um pensamento, uma tendência, um grupo, uma pessoa, coloque o povo em fúria com escândalos na imprensa”.

O futuro assusta?

E.P. “Saindo o PT, nós já teríamos como na Argentina, a recuperação da credibilidade, pois sabemos que como está, o mundo não nos leva a sério. Teríamos um governo de verdade. Teríamos retorno dos investimentos internacionais, como já foi demonstrado pelo mercado, com notícias propícias a saída do PT do poder. E espero que a partir de agora, passemos a fiscalizar com toda a responsabilidade do mundo, tudo que diga respeito aos bens públicos. Assim como estamos fazendo com a Assembleia Legislativa. Creio ser um início de mudança”.

P.S. “Caso o PT saia nas urnas em 2018, ganha mais uma vez a democracia. Caso saia antes por impedimento,  estaremos assistindo a um dos maiores retrocessos da nossa história, pois pelo menos até agora não se tem notícia de que Dilma tenha cometido um crime”.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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