Diversidade não é o mesmo que representatividade

Quando Obama foi eleito presidente,

um prisioneiro disse que “um negro na Casa Branca

 não compensa um milhão de homens negros na Casa Grande”.

Angela Y. Davis

A representatividade é uma pauta que vem sido bastante discutida nos últimos anos, em vários espaços sociais. E a importância desta pauta é indiscutível, basta percebermos a comoção que foi o falecimento do ator afro americano, Chadwick Boseman, em 28 de agosto, aos 43 anos, após uma batalha de quatro anos contra o câncer colorretal. O ator ficou mundialmente conhecido ao interpretar o Super-Herói, Pantera Negra, da Marvel.

Esse triste acontecimento deixou bem nítido o quanto a representatividade é significativa e constrói a subjetividade coletiva e individual das pessoas.

No entanto, essa representatividade é, por vezes, confundida com a diversidade. Muito se tem a ideia de que basta colocar pessoas de diferentes raças e etnias que simplesmente ocorrerá a representatividade. Porém, isso não corresponde com o real.

O atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, é um exemplo bem explicito disso. Ele é um homem negro no comando de uma instituição que, teoricamente, defende as pautas da população negra quilombola, mas sua gestão tem apresentado um grande descaso e desrespeito a essas pautas.

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E esta prática, institucionalizada, da ideia da diversidade tem sido muito comum, numa tentativa de aparentar uma justiça racial. Como se dissessem: cumprimos a cota, é o suficiente.

Ou senão, quando abrem os espaços midiáticos para pessoas de outra raça/etnia que não seja branca, já estabelecem que se fale de assuntos raciais. Como se apenas esse assunto nos coubesse.

Não há cientistas, filósofos, poetas, sociólogos, metres, doutores… de outra raça, senão a branca. Então, nos limitemos e nos demos por satisfeitos.

A ‘minoria’, que é maioria

“Muito se tem a ideia de que basta colocar pessoas de diferentes raças e etnias que simplesmente ocorrerá a representatividade.”

A fala da Angela Davis sobre o ponto de vista do prisioneiro a respeito da eleição do Barack Obama, um negro na Casa Branca não compensa um milhão de homens negros na Casa Grande, traz uma reflexão profunda sobre a relação da representatividade com a representação social. É compreender que estamos tratando de estruturas alicerçadas no racismo.

Então o nosso principal enfoque deve ser a representação social. Enquanto não houver paridade racial na legislação, na execução e no judiciário do país, nunca teremos representatividade de maneira real, natural e fluida.

Não podemos nos contentar em sermos minoria, principalmente quando somos maioria.

Por tanto, devemos, cada dia mais, nos organizarmos para estarmos inseridos nesses espaços de poder. E sermos linha de frente na luta pela justiça social e racial.

Mudar as estruturas é urgente, para que Obama, Chadwick e Marielle não seja casos isolados de representatividade.  Sigamos, a luta nos espera!

Ilustração de capa: Kiki Ljung

Artista, poeta, jornalista, militante do movimento negro [ Ver todos os artigos ]

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