Dizem que a web está morta, mas ela acaba de nascer

Por Rafael Cabral
Estadão

Firefox, Chrome, Internet Explorer, Safari, Opera – de que adianta compará-los? A internet morreu, ninguém mais visita websites e a navegação do futuro será cada vez mais centrada em ambientes digitais fechados que usam a conexão da mesma forma que aparelhos eletrodomésticos usam a eletricidade – necessária para que existam, mas sem sentido sozinha.

É essa a previsão que estampa a capa da edição de setembro da revista Wired, em matéria assinada pelo editor Chris Anderson. O argumento é que a maior parte de nossas ações online não se dá mais dentro dos navegadores ou pulando de página para página, mas em programas ou aplicativos independentes.

Esse pensamento parece a junção de duas ideias erradas. A primeira subestima o potencial de crescimento da internet e das aplicações na nuvem. A segunda é o otimismo exagerado – e calculado – com o potencial de ferramentas claramente alternativas como o iPad.

Executivos da editora Condé Nast, responsável pela revista, não estavam fazendo muito dinheiro com sites e queriam suplantar esse modelo de negócio com vendas de assinaturas para dispositivos móveis. Mesmo antes que o tablet da Apple fosse anunciado, desenvolvedores já trabalhavam no elaboradíssimo app da Wired, que não decepcionou e foi um sucesso. Mas não dá para se fiar apenas nesse caso.

Uma pesquisa divulgada pela Nielsen na semana passada descobriu que apenas 13% dos norte-americanos pagariam por um aplicativo, seja ele qual for. Estamos falando do país que tem a maior base de smartphones do mundo e, aos poucos, monta também um mercado para tablets.

Por lá, apenas 35% das pessoas com celulares têm o mínimo de um programa instalado nele, incluindo nesta conta aqueles que já vêm com a máquina. Dos que desembolsaram algo por um programinha, 60% não passam dos US$ 2,99. A explosão dessa economia ainda parece mais um desejo da mídia do que uma realidade.

Não bastasse tudo isso, o site Boing Boing descobriu que a Wired estava lendo seus próprios dados de forma errada. O estudo da Cisco usado como base do artigo mostra, na verdade, que entre 1995 e 2006 o tráfego na web aumentou de 10 terabytes para 1 milhão deles (ou exatamente um exabyte). Em 2010, já são consumidos 7 exabytes de banda – número que, é preciso dizer?, desmente completamente a manchete.

Pelo menos podemos dizer que a revista está sozinha nessa. A Technology Review, mais antigo título de tecnologia ainda em atividade, colocou entre as suas apostas para o futuro a “programação na nuvem” – uma linguagem mais sofisticada que, baseada em aplicações online, permitirá que programas elaborados sejam acessados instantaneamente em vez de baixados.

Os adeptos dessa corrente acreditam que a rede vai ser cada vez mais usada e destrinchada em aplicações antes impensáveis. Imagine o tanto de APIs abertas de serviços em tempo real e de geolocalização que podem se fundir com outras (comércio, educação, etc), gerando produtos inovadores a um clique de distância.

Além disso, gigantes como o Google planejam investir pesado na nuvem. O sistema operacional online Chrome OS, focado em netbooks, deve sair até o final do ano. Ele funcionará interligado ao navegador – que, de mera janela para internet, passa para uma posição central. Para escrever um texto, por exemplo, você clicará no ícone do Google Docs e uma página HTML se abrirá. Quase toda a computação será dentro da web. Quando tudo estiver conectado o tempo todo, será possível dizer que a internet morreu? Pelo contrário, aí que ela acaba de nascer.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três × um =

ao topo