DNA hitchcockiano

Por Serge Kaganski
FSP
tradução CLARA ALLAIN

Céline e Godard: antissemitas?

ALFRED HITCHCOCK é o cineasta mais influente do mundo e da história? No âmbito de uma retrospectiva da obra dele, a Cinemateca Francesa programou um segmento apaixonante intitulado “Depois de Hitchcock”. Encontramos ali cineastas que devem algo ao “mestre do suspense”, em maior ou menor grau.

Entre os que aprenderam suas lições sobre suspense (Kenneth Branagh, Martin Scorsese), aqueles aos quais sua faceta onírica, romanesca e sexualmente perturbada inspirou (François Truffaut, Jean-Claude Brisseau), aqueles que compartilham a metafísica do mal (Henri-Georges Clouzot, Claude Chabrol…), os que emprestaram dele figuras estilísticas (Mario Bava e Dario Argento), os que o copiaram experimentalmente (Gus van Sant em “Psicose”) e os que gostariam de ter sido Hitchcock no lugar do próprio (Brian De Palma), a balada cinematográfica é rica e profusa.

Poderiam ter sido acrescentados ainda a esse programa a maioria dos “blockbusters” hollywoodianos (os filmes de James Bond devem tudo a “Intriga Internacional”) ou as experiências artísticas de Douglas Gordon ou Pierre Huyghe. Sim, a influência de Hitchcock sobre as imagens contemporâneas é total.

RETORNO A CÉLINE

Na ocasião do cinquentenário da morte de Louis-Ferdinand Céline, o mais genial e controverso escritor francês do século 20, as polêmicas reaparecem. Depois da velha pergunta -“Céline, gênio ou canalha?”-, eis a nova dúvida que agita os meios culturais franceses: “É o caso de publicar oficialmente seus panfletos antissemitas?”

Muitos editores e escritores não suspeitos de compartilhar um centésimo das ideias de Céline respondem que sim. É preciso que se saiba que a proibição de publicação não vem do Estado, mas dos herdeiros de Céline, sem dúvida envergonhados. Além disso, esses textos já circulam por baixo do pano, especialmente nos meios da extrema-direita, de modo que aqueles que querem desfrutá-los já o fazem.

A despeito da violência abjeta dos panfletos, seria sem dúvida necessário trazê-los a público, para que se possa conhecer Céline por completo, porque os leitores são adultos e responsáveis e porque sempre é bom conhecer a verdade, mesmo que ela seja desagradável.

HISTÓRIA(S) DE GODARD

Após a polêmica em torno de Céline, que tal outra envolvendo Jean-Luc Godard? Acaba de sair um livro do artista-cineasta-escritor Alain Fleisher, “Réponse du Muet au Parlant” (resposta do mudo ao falante, ed. Seuil), em que este último relata seus dois anos de trabalho com o diretor para a realização do documentário “Morceaux de Conversations avec Jean-Luc Godard” (fragmentos de conversas com Jean-Luc Godard).

O autor analisa certas declarações antissemitas do cineasta franco-suíço e critica sua recusa em dialogar sobre determinados temas, em aprofundar as questões problemáticas. A tese principal de Fleisher é a de que, se Godard é um gênio das imagens, ele se mostra nitidamente menos à vontade com as palavras.

O fato de não serem inéditas não torna menos interessantes as críticas de Fleisher, sobretudo por virem de um escritor com inclinações pró-Godard e por serem solidamente fundadas, sem preocupação em polemizar. Os aspectos legitimamente criticáveis de Godard não diminuem a importância de sua obra.

EXPRESSIONISMO PÓS-PUNK

Neste mês, os cinemas franceses receberam o retorno de FJ Ossang, cometa elétrico do underground. Ossang é editor, escritor, poeta, músico (do grupo MKB, iniciais de Messageros Killer Boys) e, sobretudo, cineasta.

Seu novo filme, “Dharma Guns” (armas de Dharma), é o quarto longa de sua autoria, após “L’Affaire des Divisions Morituri” (o caso das divisões dos que estão prestes a morrer), “Le Trésor des Îles Chiennes” (o tesouro das ilhas vadias) e “Docteur Chance” (doutor sorte).

É difícil resumir a arte de Ossang. Influenciados pelo cinema das origens, pelo expressionismo de Murnau, pela era de ouro de Hollywood, pelo fantástico à moda de Franju ou de Lynch, pelo “cut-up” de Burroughs, pela música punk e noise, ou ainda pela estética da luta armada esquerdista dos anos 1970, seus filmes são de essência mais poética e sensorial do que narrativa.

Carregando uma ideia estética em cada plano, “Dharma Guns” se inscreve na esteira de uma obra orgulhosa e rara. Pouco importa o público restrito. FJ Ossang persevera em filmes diretamente ligados aos sentidos e à alma, transmitindo uma ideia elevada e nobre do cinema.

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