Do amor e de requintes

Pois eu ando me requintando. Aí, vêm os espinhentos dobrando-se e se enroscando de rir, para dizer que requintes não combinam comigo. Dizem que não combina comigo esse dizer que é não dizer. Dizem que requintar-se é andar etiquetada. Pois eu digo que não é, nunca gostei de rótulos. Requinte é outra coisa, é até parecido com pudor, é uma coisa íntima, pessoal.

Mas não é intimidade. É uma coisa árvore, crescendo e dando folhas, mas dentro. É uma coisa paralela ao convívio, e se encontra com ele no infinito.

Dos meus requintes entende o amor. O amor é o único que me olha por dentro, surpreende vilanias, revela incorreções, matérias-primas dos requintes. É o único a perceber que em mim a felicidade tem um efeito estranho: ela me deixa descampada.
Antes do requinte, experimenta-se intensa náusea. O amor pressente os meus engulhos diante das ordenações do mundo. O amor enlaça os meus sussurros.

Para uma pessoa cuja definição bem poderia ser feita com uma só palavra, o adjetivo tardia, não é de surpreender que o requinte me chegasse tarde. Todas as coisas para mim chegam sempre depois, mas vêm. Por essas coisas da vida, sempre me senti tardia, demorada. E se isso já alguma vez me angustiou, com o tempo concluí que, graças às demoras, posso esperar muitas vindas. Ainda e sempre.

O amor também me chegou tarde, abrasando-me como uma revoada de sóis. Por suas demoras, entende-se com os meus requintes tardios. Entende-se com os meus revolvimentos, com as reticências cultivadas, e até com receios. Aliás, sempre foi do amor esse entender-se com receios.

O amor me faz melhor, mas isso não acontece da noite para o dia. Para o amor, querer ser melhor é só um dos começos. Para o amor tento requintes. Sabem quais são os requintes para o amor? Algo “para enfeitar a noite do meu bem”, esse bem demorado para quem toda a ternura foi guardada no olhar.

Requintes não são coisas de se gritar aos quatro ventos, mas em versos. “Cerca de grandes muros quem te sonhas”, disse o fingidor, fingindo completamente. Não há requintes ostensivos, ostentam-se apenas arremedos de requintes. Mas quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir e coração para sentir, saberá dos requintes.

Requintar-se é um não deixar-se absorver pelas rotinas, um não deixar-se sugar pelo sorvedouro do lugar comum. Um não ir com os outros, sem mais nem menos. É um sentir a realidade com o corpo, um compreender o sentido. “…E comer um fruto é saber-lhe o sentido”. Todos comem os frutos, poucos lhe sabem os sentidos. Mas se me requinto é porque pus um sentido no próprio requintar-se: melhorar o texto e a vida.

Pois estou me requintando, repito. Não riam, estou sonhando requintar-me. “E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões…”. Assim como o requinte, o sonho é uma coisa íntima, mas não é a intimidade. Pode até ser revelado, mas só o sonhador sabe o quanto o sonho lhe atravessa a realidade. E só o sonhador e o amor sabem como o requinte vai bordando a alma.

(Citações: Dolores Duran e Fernando Pessoa)

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 17 de fevereiro de 2011 20:06

    Perfeito,Carmen.

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