Do caos ao Fresno

Tempo é tudo. Um dia de folga e assito Madame Bovary e leio das melhores matérias culturais do ano – a do jornalista Silvio Essinger, na Billboard Brasil. O título é o do post, para retratar os 30 anos do punk.

Desconheço o currículo do jornalista. Só pode ter vivido presencialmente toda a evolução (ou decadência) do punk nessas três décadas para um texto tão seguro e opinativo.

Sempre defendi a opinião do jornalista nos cadernos de cultura. Nada agressivo, delimitador, mas colocações sutis quando se domina o assunto. Nessa matéria há muito disso. Está fantástica.

De certo o cara é jornalista especializado em música. Ou melhor: em punk. É assim em redações afora. Já recebi ligação no DN de assessoria de imprensa de Recife a procura do repórter de música. Até brinquei: disse que eu era o de Artes Plásticas e de onde eu estava só via o de literatura e cinema.

Infelizmente nenhum jornal do Estado investe em seus cadernos culturais. Os repórteres batem o escanteio, cabeceiam e ainda batem o tiro de meta. Ou seja: escreve sobre tudo.

Costumo dizer que repórter de cultura nesse RN sabe pouco sobre muito e muito de nada. Justo porque não consegue se especializar. Ou se consegue, deixa descoberta outra área da qual também precisa cobrir.

Há quem reclame da qualidade de algumas matérias. Com razão, até. A culpa não é do leitor. É difícil compreender que um repórter de um caderno especializado desconheça se Stravinsky é modernista ou neo-classissista.

Isso sem entrar no mérito da falta de tempo para ler, assistir filmes e frequentar eventos culturais. Todo repórter precisa de outro emprego. Ou outros, se pretende um vida simples.

É por isso que invejo mesmo caras como esse tal de Essinger. Deve escrever apenas sobre o que domina, realmente. O resultado: matérias mais interessantes, melhor reconhecimento, maior salário, mais tempo…

Mas falava da matéria do punk. O cara conseguiu traçar um panorama do comportamento juvenil nas últimas três décadas a partir da música, com enforque no punk. E mostrou como a música reflete sua época.

Sem mais desabafos, coloco aí abaixo os parágrafos do texto. Aliás, após a matéria ainda há uma resenha fenomenal do cara, em estilo de artigo:

“É, muitas voltas deu aquele menino de 1979 (o punk) – o que sobrou dele nessas novas bandas talvez sejam as tatuagens, algum cabelo desgrenhado e, quem sabe, um pouco de couro preto. meros recuerdos visuais, ecos de ecos, derivações de derivações – até proque, convenhamos, mesmo a distorção das guitarras hoje é absurdamente limpa, em nada lembra aquele barulho de serra elétrica dos amplificadores podres. Ah, e sabe aquele metalúrgico dos comícios do ABC, onde alguns dos primeiros punks também circulavam? Bom, caso você não tenha se tocado, hoje ele é o presidente do Brasil!

Tudo muda na roda do tempo – ou melhor, quase tudo. Porque aquilo que um garoto de Brasília, fã de Sex Pistols, escreveu naquela época, ah, isso continua aterradoramente atual: “…nas favelas / no Senado / sujeira pra todo lado / ninguém respeita a Constituição / mas todos acreditam no futuro da Nação…”. Uma coisa é verdade: se hoje alguém ainda se pergunta que país é esse, o débito é todo com o punk rock e a sua inquietação e insolência – que não respeitaram nem as flores de Geraldo Vandré!”

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