Do catálogo: A língua absolvida (Elias Canetti)

Por Leandro Sarmatz
BLOG DA COMPANHIA

Com quatorze anos você sabe pouco mais que o básico. Amarrar os tênis, fazer bola de chiclete, dançar coladinho ao som de “Coming around again” (Carly Simon, Arista Records, 1987) com a ruivinha sardenta do moletom do Epcot Center. E fiquemos por aqui.

Com quartorze anos na Porto Alegre da metade dos anos 1980 — sem internet, sem as livrarias de São Paulo, com uma mesada que mal dava para o pacote de Negresco depois da natação — você vai nas manhãs de sábado à biblioteca do Círculo Social Israelita (Rua João Telles, Bom Fim) que é — era? — bem fornida e com vários lançamentos editoriais do semestre. Você chega, cumprimenta a senhora que fica no balcão à esquerda de quem entra e vai fuçar as estantes repletas de volumes do Diário de Anne Frank, Maus (na primeira edição), Fuga de Sobibor e outros títulos da copiosa (e inevitavelmente trágica) bibliografia envolvendo judeus e Segunda Guerra, além da coleção completa do Asterix, que deve estar ali unicamente porque os romanos se lascam em quase todos os quadrinhos.

Com quatorze anos você se depara com um livro chamado A língua absolvida — história de uma juventude, repara no sobrenome do autor e pensa que Canetti é algum italiano evocando a mocidade na desmantelada Itália do pós-guerra. Não é claro, mas isso você só descobre quando, folheando o livro de pé ao lado da prateleira com a coleção encadernada das Seleções (o maior sucesso entre os poucos velhinhos que ficavam jogando xadrez e dominó nas mesas), lê a primeira frase que abre o livro: “Minhas primeiras recordações estão imersas em vermelho.” Pimba.

Com quatorze anos você leva o livro de Elias Canetti para casa e não consegue mais parar de ler durante o final de semana inteiro (aquele agosto foi bem chuvoso, na verdade). Que vida era aquela? Que vidas eram aquelas? Nascido num porto búlgaro às margens do Danúbio, falante de ladino em casa, com uma mãe severa e cultíssima, tendo ramos familiares que formavam não uma árvore, mas toda uma floresta genealógica, esse Elias Canetti evocava — com um tom narrativo quase encantatório e um desenho tão perfeito das personalidades, lugares, ambientes e estados de espírito rememorados — um tempo que definitivamente não era o seu, e nem poderia ser (tempo, espaço, esses papos), mas que parece ter muito a ver com você. Lógico: inadequação, deslocamento, a presença algo obsedante da família, livros e mais livros. Essa era a dieta básica que aparecia em A língua absolvida, que era o feijão com arroz da sua vida até então.

Com quatorze anos você descobre Elias Canetti, fica sabendo que o volume sendo lido é o primeiro de uma trilogia e começa a entender que, bem, para falar a verdade, você já não parece estar mais tão isolado assim do mundo. Houve tempos piores, juventudes piores, dias mais escuros antes dos seus. E que aquilo que já está sendo formado dentro de você (o dia em que nevou na cidade, a última visita ao avô quando você tinha 5 anos, o penúltimo segundo de lucidez antes da anestesia geral aos 3 anos) são mesmo as suas próprias memórias. Que não transcorrem em Viena ou Zurique, mas num porto acanhado no sul do Hemisfério Sul.

E então logo você não tem mais quatorze anos.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

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